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Moçambique Comeria De Bom Grado O Nosso “Lixo”

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“A miséria de perder tudo e a de ter já muito pouco.”

Este, um dos títulos de primeira página do Público de 24.03.2009, relativo à intempérie que varreu a província da Beira, em Moçambique, neste mês de Março.

Antes de mais, vem à ideia a imagem de um destes dias, num “café” em que uma jovem mãe, com outra jovem e uma criança, lanchavam com muita barulheira, e quando saíram deixaram num prato “comida”, e por estúpida curiosidade, quem “isto” escreve levantou-se e foi ver o que “para ali ficou”.

Um pão com queijo intacto e meio bolo, totalmente aproveitáveis.

Fez-se automaticamente a associação a este momento em Moçambique, “aquilo” seria o “sonho” de tantas Pessoas, o “matar” fome a pessoas na miséria, a terem já tão pouco e terem pedido tudo. E “cá” também, há quem “daquilo” precisa!

E choca, e magoa, não levar para casa, para depois comer, ou não pedir tanto, para depois ir para o lixo.

Isto é quase “criminoso”, é desumano, mas é normal, isto acontece em tanto sítio, onde se vê pessoas “encheram o prato, de boa comida, que no prato vai ficar, quando tanta falta a tantos faz”.

O que se passa? Não se trata até de dar aos outros, pode nem disso haver vontade, mas por certo não desperdiçar, não deitar fora, o que a tantos faz falta. Não esbanjar.

Vêem por certo nas televisões estas “tragédias reais” – que são repetidas à exaustão -, e deverão a assumi-las ou como uma telenovela, ou como “algo” lá longe com uns escurinhos, que nada nos dizem nada!

Mas não são “escurinhos” são Pessoas como nós, que têm vida como nós, mas que tiveram o “azar” de nascer ali, onde se dissiparam e desaproveitam possibilidades de serem como nós, por imensas razões, que têm séculos de existência. Uma delas, o individualismo de todos e cada um de nós! A “sobranceria sobe o outro”!

Mas para além destes escurinhos, há aqui ao nosso lado, naquela rua mais escura,“branquinhos” que não têm hipótese de conseguir comer aquele “pão com queijo, ou aquele meio-bolo”, ali deixados para irem para o lixo.

E que só comem, quando comem, uma refeição por dia!

E o nosso egoísmo, a nossa vontade de olhar o nosso umbigo, não olhar para o nosso lado, é demasiado grande.

E como dizia Anne Frank, quando se faz “bondade” e se a propaga, o que se fez deixa de ser bondade, passa ser exibicionismo. E se calhar deixa-se boa comida desperdiçada, mas vai-se onde se é visível dizer que se faz bondade. Quiçá até, nem isso.

Mas de facto “deitar fora” o que a tantos faz falta, é horripilante, e se um dia os que hoje “isto” fazem tiveram necessidade vão “exigir” a outros, que lhes deem o que antes depreciaram.

E por isso, não só por isso, mas também por isso, sempre houve, há e haverá como em Moçambique, mas não só em Moçambique: A miséria de perder tudo e a de ter já muito pouco.

Ou não, ou não, ou não.

Augusto Küttner de Magalhães

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