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Mobilidade por “doença”

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Com coisas sérias não se brinca. Doença é coisa séria, não?

Num país em que um professor com vários cancros é chamado a junta médica e considerado apto a trabalhar, dando origem a uma paródia hilariante da equipa de Ricardo Araújo Pereira nos Gato Fedorento (aqui – JUNTA MÉDICA)

há uma região que tem imunidade a juntas médicas, funciona a coberto ou apesar delas, talvez por ter desenvolvido uma doença autóctone, uma epidemia cavalgante a um ritmo de contágio preocupante que as autoridades não têm conseguido conter.
Eu suponho que, por este andar, isto venha a tornar-se um caso de saúde pública, mas – como noutras situações catastróficas e de crise – no nosso país acorda-se tarde e mal para os problemas, por mais denúncias públicas e alertas que se façam.

(O assunto não é novo.  Veja-se, por exemplo no Expresso (2015) ou na imprensa local ,d’ O Mensageiro de Bragança(2016) ao Jornal do Algarve )

Ironias à parte, o que alguém já apelidou de epidemia transmontana, está muito bem explicado aqui.

Concordo com os fundamentos aí enunciados; percebo uma série de razões que possam ter servido de ignição aos pedidos de MpD. Agora… não vale tudo.

Portanto, eu, fico-me pela ironia.

A meu ver, algo de muito patológico se passa por detrás dos montes. Apesar de, como é sabido, “para lá do Marão”  mandarem “os que lá estão“, há-de chegar a altura em que alguém acorde para este fenómeno que a evidência dos números não nega.

Uma centena de professores, deslocados para um determinado agrupamento por motivo de alegada doença (sua ou de ascendentes ou descendentes ou conjugues a cargo), dava para criar todo um agrupamento novo!

Uma centena de professores é o número de recursos de que a maior parte dos agrupamentos dispõe para levar a cabo as mesmas metas pedagógicas e taxas de sucesso que os outros (que recebem mais cem!!!).

A mim, levantam-se-me uma série de questões.

A montante:

– da ética de tantos colegas, que a cavalo na chicoespertice ultrapassam os seus pares sem o menor escrúpulo, abusando de um refúgio legal que protege – e bem – os mais fracos e os que mais precisam.

– da conivência de direcções engajadas e comprometidas, frutos e produtores de caciquismos locais milenares e inamovíveis, porque uma-mão-lava-a-outra e hoje-tu-amanhã-eu;

– da seriedade ou do preço de atestados que se passam em massa para o favorecimento pessoal dos amigos e amigos de amigos até 5ºgrau;

– da conivência da classe, que, no geral, assiste e não reclama, pois ou há moralidade ou comem todos e um dia quem sabe não me faça falta também…

A jusante:

– da inoperância de supostas inspecções;

-do desconhecimento (???) por parte da tutela;

– da conivência ou lascismo do poder central;

– da placidez dos encarregados de educação (com tantos recursos, tais agrupamentos só poderiam atingir resultados de excelência)

– da paz social imperante.

E aqui, avanço.

Um dia, este “sistema” há-de estourar por dentro. Não me parece que a rebelião demore muito.

Para além das centenas que se vêem ultrapassadas e não conseguem aproximação à residência…

hão-de começar a doer-se os que efectivamente têm serviço lectivo atribuído e …

aturam encarregados de educação tão insolentes como os filhos, e corrigem trabalhos e testes e preenchem grelhas e relatórios e vão a reuniões fatigantes que se hão-de fartar de que os cento e tal MpDs, na gíria “doentes” (sãos) levem uma vidinha boa sem encargos nem responsabilidades. Sem serem chamados à pedra por notas de exames ou por médias internas ou por coisa alguma.

É gráfico e flagrante e, repito, há-de estourar. Há toda uma sala de professores cheia durante um intervalo, tudo a tomar o seu cafezito. Toca. Uns, levantam-se e vão trabalhar; os outros, não.

É a vidinha.

Coincidentemente, ou nem por isso, no dia em que saíram as famigeradas listas roubadas cruzei-me com uma mancheia de colegas que haviam ficado colocados, digamos, não idealmente, mas que me revelaram ter ascendentes dependentes (quem não na nossa faixa etária?), qual trunfo na manga, panaceia miraculosa concursal.

Quem me conhece sabe que sou guerreira na defesa da escola pública. Nada disto a dignifica ou engrandece. Há-de estourar.

3 COMENTÁRIOS

  1. totalmente de acordo.
    Até candidatos a autarquias temos por forma a estarem este ano na terrinha (não vê bem usa óculos)
    Não podemos ter dezenas de professores parados na escola.
    Em certos casos temos professores com deficiência reconhecida na sua escola (e por isso não podem concorrer), com horário completo e ao lado os que de repente ficam doentes em setembro. Mas publicam fotos de imensas viagens no país e estrangeiro a gozar com malta… só pode

  2. Só lamento que mpd por ascendentes dependentes só seja atribuída a colegas que de uma forma ou de outra já se encontram na dita carreira. Eu, dou aulas desde 2002, eterna contratada, e com mãe acamada, tenho alternativa? Finjo que sou órfã…. preciso trabalhar.

  3. Há uns anos que estou em MPD. Acho este texto, que nao traz um único argumento novo, péssimo, sobretudo pelas “bocas”. Nunca fico mais tempo a tomar cafezinhos. Vou a todas as reuni~~oes, faço atas e o mais que tiver que fazer. Respondo pelos alunos que apoio. Mas é como digo: quem souber de algo incorreto, desonesto e que seja mentira, sabe bem onde se dirigir. Vá lá!

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