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A minha praxe como jornalista infiltrado

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Eis o segundo texto sobre praxes pelos olhos de quem é praxado. Este tem a particulariedade de ser escrito por um jornalista caloiro, o que permite ver a reação dos “doutores” ao constatarem que o seu desempenho está a ser registado para um futuro artigo…

Poucas pessoas devem ter passado por tantas praxes como eu.

Um mês na UBI

Em 1994, quando entrei para a universidade, fui colocado na Universidade da Beira Interior, porque não entrei em Lisboa por duas décimas.

Na Covilhã, e ao longo de um mês, fui praxado praticamente todos os dias, de manhã à noite.

A coisa começou logo no dia em que cheguei, um domingo ao início da noite. Fui de Comboio e cheguei à estação perto das oito da noite.

A minha mãe havia dito à senhoria do quarto onde eu iria ficar que eu chegaria por volta da hora de jantar. E era isso que estava combinado, numa época em que não havia telemóveis (havia, mas praticamente ninguém os tinha). Assim que o comboio chegou à Covilhã, olhei pela janela e havia centenas de pessoas trajadas aos gritos, com as capas no ar, como se fosse uma espécie de ritual de acolhimento. Confesso que fiquei um bocado assustado. Ainda antes de sair, um rapaz perguntou-me se era caloiro. Disse que sim. Então, alertou-me para o que me esperava: todos aqueles “veteranos” estavam ali à espera de “carne fresca” para praxar. Mal pus o pé fora do comboio, uma rapariga, trajada, perguntou-me se era caloiro. Disso que sim. Pôs-me a capa do traje por cima da cabeça e disse-me “anda comigo”. Lá fui eu, a arrastar a mala de viagem, atrás dela, debaixo da capa, pelo meio daquela multidão. Só ouvia gritos por todo o lado, grunhidos, uma coisa verdadeiramente assustadora. Passados uns segundos, percebi que estava a ser levado para fora da estação. A rapariga parou ao pé de três outras. Tiraram-me a capa da cabeça e lá estavam as quatro moças, com um ar novinho, todas contentes por me terem caçado. “Olha, nós somos do segundo ano, por isso, qualquer pessoa com mais matrículas pode roubar-te. Mas tu não vais querer isso, acredita. Ainda por cima és de comunicação. É melhor vires connosco”. Concordei. Meteram-me num carro e levaram-me. Pelo caminho, disse-lhes que tinha a senhoria à espera, e que a minha mãe deveria ficar preocupada se eu não ligasse, mas elas ignoraram-me, porque eu não tinha direitos.

Fomos para um bar. Lá, obrigaram-me a fazer uma espécie de strip, ao som de Julio Iglesias, tive de cantar, de servir às mesas, de as animar. Na verdade, não levei nada daquilo a mal e tentei divertir-me com o que se estava a passar, até porque achei que seria pior se me armasse em durão. Resultado: cheguei a casa às seis da manhã. A senhoria, que era pasteleira, e fazia bolinhos em casa, já estava a pé. Disse-me que a minha mãe havia ligado, mas como ela conhecia a tradição, calculou logo que eu teria sido levado para as praxes e disse à minha mãe para não se preocupar. Liguei para casa perto das 7h30 a dizer que estava bem e que tinha estado num jantar de caloiros.

Os dias seguintes foram complicados. Desde as tradicionais pinturas, às mistelas de todo o género que me colocaram na cabeça, tive de fazer de tudo, quase sempre debaixo de berros agressivos. Até mesmo a malta que parecia mais porreira, a determinada altura, gostava de exercer aquela autoridade animalesca e dava-me uns berros ordenando-me para fazer qualquer coisa. Como sempre, eu ia fazendo tudo, mais porque não gosto de causar problemas nem de me armar em chico-esperto. Decidi, desde o início, que a melhor forma de ultrapassar as praxes, que todos diziam ser muito violentas, seria alinhar nas coisas e tentar divertir-me com elas.

Numa noite, quando estava na rádio com alguns colegas, fomos visitados por uma espécie de trupe de praxe que andava trajada pela noite à procura de caloiros para raptar. Os “veteranos” que estavam comigo na rádio, esconderam-me dentro da banheira da casa de banho, correram a cortina e apagaram a luz. Ali fiquei uns minutos, em silêncio. Dentro da rádio, só ouvia os gritos dos tais elementos da trupe a perguntar se havia por ali caloiros, sempre com berros agressivos. Acho que foi o momento em que senti mais medo. Medo a sério.

O tempo passou e as praxes continuaram, de forma diária e continuada. Foi uma semana inteira, sem parar, a fazer mil e uma coisas. No fundo, só não ia às aulas, porque não conseguia. A única coisa a que resisti sempre foi a beber álcool. E fui muito pressionado, sobretudo quando os veteranos perceberam que eu não bebia. Queriam impor aquilo como se fosse um ritual de iniciação, mas eu recusava. E foi por causa do álcool que tive a minha primeira discussão mais séria. Um veterano quis obrigar-me a beber uma cerveja e eu recusei. Ele insistiu, e eu recusei. Começou com aquele paleio da desobediência, com as ameaças de tribunal de praxes, a berrar-me ao ouvido a dizer que eu ia beber porque ele estava a mandar e eu ignorei. Encostou-me a testa ao nariz em jeito de ameaça, e foi então que lhe disse ao ouvido que era melhor ele parar por ali senão íamos ter problemas sérios. Começou a rir-se, mas ao fim de uns minutos desapareceu.

Nas três semanas seguintes, já fora do período de praxes, continuei a ser alvo de chacota, de insultos, de brincadeiras, mas também de carinho, sobreutudo por parte de pessoas que perceberam que eu era boa onda, e tinha alinhado em muita coisa sem arranjar problemas. Também ajudou muito o facto de, entretanto, terem chegado mais rapazes à minha turma, sobretudo dois gémeos, que passaram a ser o centro das atenções e aliviaram-me um pouco.

Os tempos do ISCSP

Quando estava a começar a ambientar-me à Covilhã, fiquei a saber que a minha candidatura, na segunda fase de colocações, à Universidade Técnica de Lisboa, havia sido aceite. Mudei-me, então, para o ISCSP, onde fiz a licenciatura. Como cheguei já fora do período de praxes, ninguém me chateou.

Enquanto “veterano”, tive duas afilhadas (a Patrícia e a Vânia), mas nunca praxei ninguém, embora gostasse do espírito académico, do traje, do espírito que se vivia na universidade. No fundo, o traje era um símbolo de orgulho pelo que haviamos alcançado — o chegar à faculdade. O máximo que fiz foi ter levado dois caloiros de fora de Lisboa para um passeio pela cidade. Andei com eles no meu carro durante um dia inteiro por Lisboa, mostrei-lhes os sítios mais emblemáticos da cidade, alguns bares, zonas fixes para ir, e mais nada. No final, agradeceram-me pela praxe e ficámos amigos.

A praxe na UTAD

Uns anos mais tarde, em 2001, quando já era jornalista, e trabalhava na revista “Focus”, propus ao meu director fazer uma reportagem diferente. No ano anterior, haviam sido proibidas praxes com bosta de vaca, devido à doença das vacas loucas. Mas havia universidades em que essas práticas eram comuns. A mais badalada era a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real. A minha ideia era a de me fazer passar por caloiro do curso que todos diziam ter as praxes mais violentas, o de Engenharia Agrícola. O que eu iria tentar perceber era até onde iriam as praxes, e se usariam ou não bosta de vaca nas tradicionais lutas de lama com caloiros. O director, o Ferreira Fernandes, hoje no “DN”, achou a ideia óptima e deu-me luz verde. Assim, marquei hotel durante uma semana em Vila Real, peguei no meu carro e fui para Trás-os-Montes.

O primeiro dia de aulas foi a uma segunda-feira. Lá fui eu para as aulas do curso de Engenharia Agrícola. Claro que criei uma personagem para poder responder a todas as dúvidas possíveis dos veteranos. Dei o nome próprio — porque muitas vezes pediam o BI — e justifiquei o facto de ser cinco ou seis anos mais velho que os outros caloiros com uns anos perdidos a estudar Relações Internacionais em Lisboa, numa universidade privada. A minha personagem era filho de um pai rico, com muitas terras, e que queria que o filho, eu, pudesse tomar conta dos terrenos. Toda a gente acreditou, e, por sorte, ninguém se lembrou de ir às listagens das turmas ver se o meu nome constava lá.

Ao longo de uma semana, voltei a passar por tudo o que sentira na Covilhã. Mas, na UTAD, havia muito mais hostilidade do que na UBI. Os pedidos eram sempre ordens, não havia sorrisos, os desafios eram mais físicos e muito menos divertidos. Tive de passar noites inteiras a lavar louça, a fazer camas de residências inteiras, a fazer de cão com uma trela ao pescoço, tive de andar só de boxers por uma casa cheia de veteranos, mas, uma vez mais, a única coisa que me recusei sempre a fazer foi beber álcool, até porque estava em trabalho e não podia perder o discernimento.

A minha alcunha era o “caloiro de 76”, o meu ano de nascimento, que era um pouco esquisito para aqueles veteranos, até porque muitos (ou quase todos) eram mais novos do que eu.

Claro que no meio de uma série de anormais, encontrei gente porreira, sobretudo colegas de turma, e houve momentos em que me senti mal por estar a mentir a toda a gente, mas era trabalho. Os veteranos ficavam profundamente irritados por saberem que eu era um “menino do papá”, cheio de terrenos, e que estava hospedado no Mira Corgo, o melhor hotel da cidade, quando muita gente estava em quartos partilhados. E acho que isso ainda lhes dava raiva para me praxarem mais.

No final dessa semana, na sexta-feira, dia da grande festa do caloiro, e já com a reportagem toda escrita, voltei à faculdade e contei a verdade. Assim que entrei na cantina, ouvi logo alguém a chamar-me “Oh, caloiro de 76, anda cá!”. Olhei, e lá estava um grupo de veteranos que me havia praxado durante a semana. Fui ter com eles, e antes de começarem a falar, eu disse: “Eu não sou caloiro”. Houve ali um misto de estupefacção com curiosidade. “Não é caloiro, como? Eu já o praxei”. Saquei da minha carteira profissional de jornalista e coloquei-a em cima da mesa. “O meu nome é Ricardo Martins Pereira e sou jornalista profissional. Está aí a minha carteira que o pode comprovar”. A carteira passou rapidamente de mão em mão. Uns começaram a rir-se às gargalhadas, outros ficaram muito preocupados. Um deles levantou-se de imediato e saiu, com o telemóvel na mão. Lá expliquei o que andara a fazer durante a semana, e a curiosidade instalou-se. A história passou de boca em boca e em cinco minutos tinha ao meu lado o presidente da Associação de Estudantes, o presidente da Comissão de Praxe e um representante da universidade. Todos queriam saber o que é que me tinham feito, e o que é que eu poderia escrever. Não revelei nada, e disse que teriam de ler na revista na semana seguinte. Foi o pânico geral. A história chegou ao reitor e a quase todos os alunos.

Nessa noite, estava marcado o jantar do caloiro da minha turma. Como havia feito alguns amigos, resolvi ir. Fui recebido, pela maioria, como um herói. Mas muitos alunos, sobretudo os mais velhos, estavam muito preocupados, até porque alguns sabiam o que me haviam feito, e tinham assistido a muito do que eu passei. Alguns vieram pedir-me para ser brando, porque ia estar a pôr em causa o nome da UTAD. Alertaram-me para o facto de haver um grupo que me queria linchar, porque eu ia estar a destruir a reputação da universidade. Não liguei. Nesse jantar, e pela primeira vez naquela semana, fui “lá da malta” e bebi aquele copo “até ao fim”. Um copo de vinho. Foi a festa.

Seguimos para a festa do caloiro, ao ar livre. Mantive-me sempre com o meu grupo e a coisa estava a correr bem. Até que ao fim de algum tempo senti um toque nas costas. Olhei para trás e estavam três ou quatro indivíduos, já alcoolizados, que me deram uma ordem qualquer, chamando-me caloiro. Expliquei que não era caloiro, mas eles retorquiram argumentando que já me tinham praxado, por isso, era caloiro. Mostrei-lhes a carteira profissional de jornalista e, um deles, depois de a ver, atirou-a para o meio da multidão. “Então agora prova lá que és jornalista”, disse-me.

Uma das raparigas que estavam comigo foi ter com ele e disse-lhe para não me chatear, e para se ir embora. O grunho empurrou-a. A rapariga começou a barafustar com ele e o indivíduo puxou a mão atrás e aplicou-lhe um estaladão na cara que a fez cair. O namorado dela, que estava ali ao lado, veio a correr e deu-lhe um pontapé violento. Não me lembro de muito mais. Sei que começou tudo à pancada e uma rapariga puxou-me pela mão e arrastou-me dali para fora. “Vai-te embora porque senão eles ainda te matam aqui. Estão todos bêbedos”.

Consegui escapar-me e fui para o hotel. Quando cheguei, percebi que, no meio daquela confusão toda, havia perdido a chave do meu carro, e sem ela não podia voltar a Lisboa. Pior: no dia seguinte era sábado, e a universidade estaria fechada. Temi, naquele momento, que me pudessem vandalizar o carro, já que todos sabiam qual era. Felizmente não o fizeram.

No dia seguinte, de manhã, quase em jeito de descarga de consciência, fui até à universidade, para tentar perceber se aquele recinto onde havia sido a festa estaria aberto. Não estava. Mas uma funcionária disse-me que o senhor que tratava da limpeza morava ali perto. Lá fui a casa do senhor. Milagre dos milagres: ele havia encontrado a chave do meu carro, e devolveu-ma (durante anos, continuava a ter lama cravada nas ranhuras, mas pronto).

O caso do Meco

Acho que estas histórias dão para perceber a minha opinião sobre as praxes.

A reportagem exibida hoje pela TVI, e que mostra os rituais de passagem a que os membros da comissão de praxe são sujeitos na Universidade Lusófona, falam por si. Submeter estudantes universitários a coisas destas é um retrocesso civilizacional, é um crime que deveria ser punido severamente dentro e fora das universidades.

Penso que a morte de seis miúdos é suficiente para que a praxe seja, de vez, eliminada do sistema de ensino português. É o mínimo que se exige num país que se diz moderno e europeu.

Paulo Gonçalves

Fonte: O arrumadinho

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2 COMENTÁRIOS

  1. Só foi pena quando a besta do “veterano” lhe encostou a testa ao nariz não ter levado logo uma cabeçada no meio dos olhos.
    Acabava-se logo ali a conversa.

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