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Meus senhores, respeito, que eu sou professora!

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A semana passada os Professores fizeram greve, a que se seguiu uma verdadeira guerra aos docentes nos meios de comunicação social. As televisões foram buscar “comentadores especialistas em tudo”, os jornais publicaram cartas inflamadas contra “essa gente” cheia de mordomias que lhes educa e ensina os filhos, as redes sociais funcionaram mais uma vez como cano de esgoto para a raiva, despeito, inveja e outros atributos do género.
Houve quem se permitisse dizer que nós, Professores, éramos uns miseráveis. Outra figura, que bem precisava de se dar mais ao respeito, chamou-nos “uma raça” e destilou veneno no vocábulo.

Já propus, no Facebook, que nós, os Professores ofendidos, enchessem igualmente as redacções de jornais, revistas e canais de televisão de cartas em que expliquemos o que somos, o que fazemos, como vivemos. Ainda não obtive qualquer resposta ao meu desafio e, por isso, vou proclamar uma parte do que me vai na alma.

Meus senhores, mostrem respeito pelos Professores e estarão a preparar um futuro melhor para todos, pais e filhos. Respeitem os Professores porque eles estão mais tempo com os vossos filhos do que vós todos. Sei que não é por vossa culpa que tal acontece, mas também não é por culpa dos professores – é a sua tarefa, que uma enormíssima parte cumpre com dedicação, empenho e amor.

Todos sabemos que uma batata podre infecta todo um saco e por isso convém retirá-la de entre as outras para que não as estrague. Quero dizer com isto que sei, por experiência de vida, que há maus professores: absentistas, descuidados, mal informados, até alguns mal formados. O que há a fazer é limpar essas cáries do sistema, depois de devida e rapidamente verificadas e confirmadas, e seguir em frente. Educar é demasiado importante para deixar margens para o desleixo, a incúria, a ignorância.

Os vossos filhos chegam à escola cada vez mais impreparados socialmente. Não sabem estar, não sabem socializar, não têm noção de hierarquia e respeito. E isto acontece mesmo para aqueles que já vêm da creche e do infantário. Porque apesar da preparação e empenho das educadoras, é a vossa pressão para que eles sejam poupados a qualquer constrangimento necessário para seguir normas e regras sociais que os transforma em pequenos tiranos.

Temos também os tiranos pelo abandono. Deixados desde muito pequenos entregues a si próprios, agem como sobreviventes que precisam de se afirmar a todo o momento. Eles bem vêem que quem o não faz é engolido pela torrente.

Mas, meus senhores, NÓS AMAMOS OS VOSSOS FILHOS! Somos nós que os acolhemos, que lhes perguntamos por que estão tristes, por que são indisciplinados. Somos nós que os aconselhamos, que estamos alerta para as suas acções menos comuns, que lhes sorrimos e elogiamos quando eles vencem mais uma batalha em que nos empenhámos conjuntamente.

Para isso, estamos com eles na Escola, mas passamos horas em casa a preparar materiais e estratégias, a procurar metodologias, a ler especialistas para sermos bem-sucedidos a ajudá-los a aprender. Fazemos formações, estudamos continuamente, consultamos especialistas. Sofremos com os seus maus resultados, culpamo-nos por eles (e quanto mais empenhados somos, mais nos culpamos), alegramo-nos com as suas vitórias e êxitos. Por eles todos, apesar de as nossas turmas serem bem grandes! Enquanto as famílias têm um, dois filhos, nós temos dezenas deles. Pensem em quantas vezes suspiram para que as férias acabem para “se verem livres” deles em casa. Mas nós recebemo-los com alegria e com um sorriso.

Sempre? Não. Primeiro, porque não existe “sempre” nem “nunca”, mas instantes de agora que fazem a vida de cada um. Mas vós, pais, fazeis ideia de quantos de entre nós só vêem os seus filhos ao fim de semana porque, para os criar, têm que se deslocar centenas de quilómetros? Fazem ideia de quantas famílias se desfazem por estas separações forçadas e repetidas, ano a ano, muitas vezes sem esperança de uma solução próxima? São capazes de contabilizar a percentagem do seu vencimento “perdida” para o carro, combustível ou alojamento?

Quantos sectores da função pública andam todos os anos com o credo na boca porque não sabem onde serão colocados em Setembro ou mesmo sem terem a certeza de virem a ser colocados? Quantos Professores não “põem o pé em ramo verde” e andam a fazer a volta a Portugal, sem poderem criar raízes, sem aprofundarem relações que poderiam fazer a diferença nos resultados dos vossos filhos?

Tenho a certeza de que se lhes perguntarem a opinião que têm sobre os professores ficarão surpreendidos. Até os mais indisciplinados sabem quanto vale um Professor. Aprendam com eles e não tenham vergonha de nos respeitarem. Tenham vergonha, sim, de nos faltarem ao respeito, porque ser Professor não é tarefa para fracos e incompetentes! Nós temos que ensinar, sim, mas também educar, imaginar, magicar (no sentido real da palavra), ajudar, curar, orientar, inspirar e dar o exemplo.

A terminar, exijo um pedido de desculpas públicas a quem nos enxovalhou publicamente também. Não conhece os Professores ou foi um infeliz que só conheceu ovelhas ranhosas do sistema. Lamentamos, mas continuamos a exigir respeito.

Maria do Carmo Cruz

Retirado do Facebook

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8 COMENTÁRIOS

  1. …às vezes penso que estou a viver um pesadelo daqueles na américa latina, tão medonho é o número daqueles que campeiam por aí, os chicos espertos, que pensam serem melhores que todos nós!

  2. Um abraço muito forte, Maria do Carmo Cruz!
    Subscrevo inteiramente!
    Sofremos a todos os níveis porque nós, os professores, somos humanos!

    • Haverá? Ou apenas se fala e se evidenciam esses, minoritários, estando a tomar-se a parte pelo todo???
      Não esquecer que os bons profissionais são incómodos!!!

      • Concordo plenamente….
        E será que já alguém parou para pensar nas “dezenas e dezenas” de pseudo-reformas do sistema educativo que somos forçados a implementar ao gosto de cada político que entra, perceba ou não de educação?? Tudo isto ajuda a dar ênfase ao que mau existe e espezinha o bom, para que não sobressaia.

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