Início Notícias Mais de metade dos professores tem horário reduzido (?!), diz o Público.

Mais de metade dos professores tem horário reduzido (?!), diz o Público.

236
2

Hoje, neste resumo diário de notícias, só tive olhos para a 1ª página do Público. Fiquei meio atordoado com o “horário reduzido de menos de 20 horas semanais”.

wp_20161003_14_31_23_proO Público mudou e normalmente gosto das mudanças do meu jornal. Mas o meu dia de leitor começou mal…porque falou mal dos professores, sem consistência nenhuma. Chamou à primeira página uma notícia, com o título acima, e que começa assim:

“A maioria dos professores do 3.º ciclo e ensino secundário estão menos de 20 horas por semana nas salas de aulas, segundo revela uma análise sectorial do perfil do docente em 2014/2015, divulgada na sexta-feira pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Ou seja, mais de metade dos cerca de 73 mil docentes destes níveis de ensino tem horário reduzido.”

Lida na forma simplista (e para a qual o jornal não se preveniu, especialmente com o título usado) e como alguns comentadores, na própria página de internet do jornal, leram, isto quer dizer que os professores (num país em que o Presidente da CIP acha que trabalhar só 35 horas é uma tontaria) são uns madraços que trabalham menos de 20 horas por semana.

O Público errou…

b1O Público errou ao dizer isto, mesmo se se pode defender que foi com base na DGEEC….

E, leitor diário do Público, mesmo mantendo com ele uma relação de ódio e amor, fico triste.

Era estudante quando o jornal começou e acompanhou-me nos grandes acontecimentos que o mundo viveu na minha idade adulta. A Guerra do Golfo, as mudanças da União Soviética, o alargamento da Europa, sismos, desastres, vitórias desportivas, eleições, a crise. O Calvin, o Bartoon, as belíssimas fotografias, o grafismo diferente de tudo o que se fazia, o livro de estilo, a capacidade de inovar: tudo isso faz com que leia o jornal todos os dias, ainda em papel, mas também no digital.

Fiquei feliz com a ideia de que hoje começava uma nova mudança, com um novo diretor e com o regresso às páginas do fundador Vicente Jorge Silva a cuja família de fotógrafos notáveis – ver aqui – , que não contacto há décadas, me liga, contudo, gratidão pessoal emocionada, pela solidariedade e apoio humanos que deram à minha mãe (e à criança que fui), em tempos muito difíceis.

O ato de, às 7h45, comprar, e ler com o café, o jornal, como faço todos os dias em que tenho aulas, podia hoje ter tido um lado de renovação e gerar satisfação por um aspeto relevante da minha vida cultural iniciar mais um momento de mudança.

Tive um dos dias de ódio: acontecem muitas vezes quando o Público, que é dos poucos jornais que tem espaço regular e consistente para temas de educação, diz asneiras. E, desta vez, na primeira página.

Degradar o trabalho docente: um velho passatempo noticioso nacional

Há uns anos foi a conversa tosca das faltas dos docentes, em que os jornalistas perceberam mal as intenções por detrás de se andar a contar e fazer notícias das faltas docentes, agregadas aos milhares (e esquecendo nas contas as licenças de maternidade). O namoro do jornal com Walter Lemos, Maria de Lurdes Rodrigues e Albino Almeida fizeram-me ficar bastante ciumento, como leitor fiel. O problema era semelhante ao do texto de hoje: solidificar, sem base, a ideia de que os professores e educadores são gente cheia de privilégios e vícios, que trabalha pouco, folga muito e tem horários de trabalho reduzidos.

Clara Viana é uma muito boa jornalista de Educação que não cai nessas coisas: informa-se, estuda, vê com perspetiva alargada, procura ângulos diferentes. Hoje, não sei porquê, não percebeu que o título da peça e a sua cabeça estão em contradição com o conteúdo real do caso e até têm contradição com partes restantes do texto. Começou por se basear num relatório da DGEEC mas, depois, não saiu dos limites estreitos da visão burocrática, para ver mais longe.

Se os professores estão menos de 20 horas nas salas de aula todas as semanas, o que andam a fazer no resto das suas 35 horas de trabalho? E que fazem com essa redução para menos de 20 (na verdade 22) horas? Preguiçosos….. (disse o Senhor Silva que comentou a notícia).

Afirmação estatística falsa

O problema é que a frase do início do texto é objetivamente falsa. “Torturem os números que eles confessam”, já dizia o título do livro que os jornalistas deviam todos ler.

Aqui os números confessaram pecados que não existem e que, em alguns casos, são penitência.torturem-os-numeros

Para se perceber porquê, a explicação é longa e passa por saber o que se entende por “estar nas salas de aula”.

Curiosamente, quem passe por uma escola portuguesa descobrirá que uma boa parte dos professores, mesmo com a dita redução para menos de 22 horas (a base de partida não são 20), estão em boa parte do período de redução, dentro de salas de aulas, só que, embora estejam a dar aulas, e qualquer cidadão ache que as estão a dar, se as observar, o que fazem não são aulas do ponto de vista da definição burocrática…… (e são essas “definições” que a DGEEC conta nas suas “estatísticas”).

Muito bem, um comunicado da FENPROF, que não teve grande destaque nas páginas do Público, chamava, há dias, a atenção para este problema. Valia a pena ler esse, e outros anteriores, antes de fazer o título.

Trump também não fugiu aos impostos, do ponto de vista legal e estatístico, mas também não os pagou……

Mas o que é uma aula? E estão mesmo “fora das salas de aula”? Há aulas não letivas….

Em Portugal, há uma definição legal unívoca do que é um ato médico. Mas não há definição legal rigorosa do género, que permita distinguir o que seja realmente “uma aula”. E as “aulas” não acontecem só “nas salas de aulas” e, as mais das vezes, nas horas de redução de aulas, os professores estão em “salas de aulas”.

Por exemplo, dar uma aula de apoio a matemática cabe na definição do que se faz nesse tempo de redução letiva, mas é aula ou não?…. Não vos maço com a transcrição das normas regulamentares destes assuntos que fazem doer a cabeça, com frases inteiras que resultam em que haja “aulas não letivas”  ….. Só por curiosidade, que me ocorreu agora, sabiam que há escolas em que professores, que acompanham visitas de estudo durante 10 ou 12 horas, têm de entregar justificações de faltas por conta das aulas que, por causa desse trabalho letivo, não deram? Uma visita de estudo não é aula?

Se um médico estiver sentado a ler um livro, para preparar uma cirurgia, no senso comum social, está a trabalhar. Se um professor fizer o mesmo, está com “horário reduzido…..”

Por isso, a frase do título é falsa: até mesmo os que tem horário letivo reduzido estão, em boa parte das reduções, não em casa, mas a trabalhar “em salas de aula”. A dar apoios, (a grupos de 5, 10, 15 ou 20 ou mais alunos), a fazer reuniões de preparação de aulas, a substituir colegas em aulas, a desempenhar cargos pedagógicos ou a gerir atividades extracurriculares, com mais alunos do que algumas turmas que seriam “aulas” das “letivas”.

Não dizer isto, não explicar estas subtilezas nominalistas da realidade das escolas e de como a estatística é feita, e começar a notícia como se fez, é escamotear o real. Redução simplista de uma realidade complexa. Daniel Innerarity, ontem, no Público explicava bem o processo.

Para que efeito aparece esta notícia (que o DN também reproduz citando o Público), não sei. Pela DGEEC não ponho as mãos no fogo, em matéria de rigor estatístico, mas confiava que a Clara Viana não se deixaria enganar assim.

Um resumo da realidade real….

O leitor médio que não conhece as subtilezas do Estatuto da Carreira Docente e da cascata de regulamentos anexos, e que leia, com aquela invejinha irracional que graça pelos comentários, dirá logo (houve um que disse mesmo): se estão menos de 20 horas nas salas de aulas andam a preguiçar! A gente paga-lhes para dar aulas e eles dão menos de 20 horas por semana num horário de 35.”

Um dos pontos mais discutidos da configuração da carreira é essa questão do horário docente. Em todo o mundo civilizado, o horário docente tem 2 partes: as aulas e a preparação. Em Portugal, as aulas chamam-se componente letiva; a preparação, componente não letiva individual. Assim, um horário docente tem, no caso do 2º e 3º ciclo, de forma simplificada, 22 horas letivas (medidas em minutos que incluem os 10 minutos de intervalo dos alunos em cada hora). No 1º ciclo são mais, 25 horas. O resto, até às 35, é preparação, reuniões e tempo não letivo a prestar no estabelecimento.

Quando o Estatuto da Carreira foi feito, há muitos anos, sendo os professores licenciados, foi negociado que, em vez de atingirem o topo salarial das carreiras de outras categorias de licenciados da função pública, fossem compensados de terem salários de topo mais baixos, reduzindo ao horário letivo (aos 40, 2 horas, e sucessivamente, em intervalos de 5 ou 10 anos, até ficarem no fim com 14 horas letivas). As 8 horas de redução (ou, menos, conforme as idades) seriam acrescidas ao tempo de preparação. Com Maria de Lurdes Rodrigues (com as carreiras congeladas e a miragem de aumentos salariais), a carreira docente foi ainda agravada com a colocação dessas reduções a começar aos 50 anos, e não aos 40 (a peça fala disso pela voz de Filinto Lima), e a obrigação de serem prestadas na escola.

Os professores têm assim hoje redução do horário letivo (o tempo letivo sendo o que dão em aulas a turmas regularmente constituídas) mas, nessa redução cabe quase tudo e, muitos, prefeririam até prescindir dela a ter de fazer o que está destinado para essas horas. Por exemplo, mesmo os bons gestores da coisa pública, que andam sempre tão preocupados com o orçamento, acharão que ter professores a vigiar cantinas é bom uso de dinheiros públicos (especialmente se compararmos o seu custo hora com o dos assistentes operacionais, que tanto faltam nas escolas)?

O assunto é assim mais profundo do que o título e a cabeça da notícia sugerem….

A citação de Filinto Lima, mal contextualizada, mas que podia ter sido útil, se aprofundada, não permite deslindar totalmente as contradições.

Não sei se quem começou lerá isto até ao fim, ou, sequer, se a Clara Viana o lerá até aqui, mas depois de o escrever, fica-me a esperança de que o Público corrija a 1ª página de hoje, me passe o dia de ódio e amanhã veja a coisa menos cinzenta e volte ao prazer de ler o jornal.

Quem sabe, até pode ser que este desabafo, sirva de pretexto para alguém ver porque é que o comunicado sindical, que citei acima,  tem tudo a ver com o que está escondido na 1ª frase do texto (que insisto, e acho que expliquei porquê: é objetivamente falsa). Às tantas a divulgação dos dados até pode nem ser inocente, quem sabe….

A maioria dos professores que têm redução letiva não está “menos de 20 horas nas salas de aulas”. Estão, em muitas semanas, muito mais que 22 horas, na escola, e, na sua maioria, trabalham bem mais que 35 por semana (experimentem uma semana das minhas, em que tenham 120 testes de 5 ou 6 páginas para ler, carregadinhos de erros ortográficos….).

Se quiserem trocar isso por um horário das 8 às 17 pode ser bom negócio para mim (especialmente face ao salário pago, e congelado há 10 anos, com cortes – reduções salariais, as tais que a DGEEC esquece – pelo meio).

Assim, talvez já não trabalhasse ao fim de semana…..e tivesse mesmo horário reduzido face ao meu atual…..

COMPARTILHE

2 COMENTÁRIOS

  1. Jornalistas que falam do que não sabem! Todos conhecem, todos comentam a “boa” vida de ser professor!!!!

    Mas quem conhece a realidade de ser professor? Quem exerce a profissão ou quem gosta de meter o nariz em tudo o que não lhe diz respeito.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here