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Je suis concierge

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A MC tem andado ausente com faltas devidamente justificadas, mas antes de ir de férias quis brindar-nos com mais uma magnifica prosa sobre o acontecimento do ano.

Je suis concierge

melão francêsA avenida refulge de calor e luz. Por todo o lado, pedaços vibrantes de vermelho e verde agitam-se num misto caótico de felicidade e impaciência. A menina Isabelinha põe a mão em pala sobre a testa transpirada e tenta vislumbrar o horizonte lá longe, onde a avenida desagua no largo, atenta a qualquer movimentação. Sente o suor morno a colar-se-lhe às costas, a empapar-lhe as coxas sob o vestido florido. Tenta ludibriar o cansaço de tantas horas de espera, repartindo o peso entre uma e outra perna e abana-se, indolente, com uma revista velha que trouxe do salão da Jaqueline.

O coraçãozinho dela, porém, não sente cansaço. Flutua numa nuvem de felicidade e arrebatamento que alastra a cada minuto, como que por osmose, num êxtase compartilhado pela multidão sorridente à sua volta.  Está tão feliz, a menina Isabelinha! Sente a alma tão consoladinha como se fora ela própria, com os seus pezinhos – agora entumescidos e lancinantemente pregueados pelas tirinhas das sandálias – a calcorrear os agrestes relvados gauleses, a marcar o precioso golo da vitória. “Somos campeões”, garganteia em coro com a multidão, à medida que o autocarro avança na avenida, abraçado pelo povaréu, o plural veemente a encher-lhes a boca e o espírito.

Reconhece-se numa irmandade desvalida de empregadas de limpeza e de porteiras, de padeiros e de operários, apoucados e amesquinhados por terras da estranja, onde ela nunca esteve. Sente-se pertença de uma massa humana valorosa e tantas vezes derrotada, tão habituada que está a que as circunstâncias lhe sejam adversas, em todos os campos, seja qual for o jogo.

Aplaude com entusiasmo e gratidão os heróis que afinfaram um retumbante e bordalliano “toma” mesmo nas fuças da soberba – de todas as soberbas; os valorosos paladinos que nos desencardiram (mesmo que por pouco tempo) a honra da portugalidade.

A revista amarfanhada que servira de leque resvala agora debaixo do braço no estrépito do aplauso. A menina Isabelinha descarta-a, indiferente, no caixote do lixo junto ao passeio. Deita-lhe um último olhar descuidado, mas um detalhe imprevisto captura a sua atenção: na capa vincada da revista velha, o capitão herói sorri, um sorriso branco de felicidade no rosto bronzeado, o corpo lustroso de sol e mar, o deleite do ócio partilhado com um grupo de amigos.

A menina Isabelinha lembrou-se logo de ter lido aquela entrevista. Recordou as insinuações maliciosas acerca da forma como escolhia viver a sua vida, das pessoas de que se fazia rodear. Recordou tantas outras entrevistas, reportagens e artigos, repletos de comentários depreciativos, de inúmeras ilações acerca do seu carácter e do seu profissionalismo, tantas vezes despropositadas, de alusões sarcásticas à família em geral, à pirosice das manas em particular, de larachas sobre as roupas e os carros e todos os luxos despropositados que afrontam o português comum.

A menina Isabelinha olhou para eles, os heróis nacionais, a acenar, felizes, em cima do autocarro. Lembrou-se de ter lido outro tanto de chalaças acerca de engenheiros inaptos, de pretos e de ciganos, de madraços macambúzios e incompetentes. As suas mãos diminuíram por instantes o ritmo frenético dos aplausos e uma restiazinha de vergonha toldou-lhe o rosto de rubor escarlate. Mas foi só mesmo um instante. Sacudiu os pensamentos incómodos como quem afasta os irritantes mosquitos da fruta e retomou o ritmo dos festejos. Chupez, franciús. São muito mais asseadinhas as batalhas, quando os inimigos são de fora.

MC

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