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Há demasiados alunos órfãos de pais vivos

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Professor: Estou?

Encarregado de Educação: Sim…

Professor: Boa tarde, fala o professor Alexandre Henriques, é possível falarmos um bocadinho sobre o seu filho? É que ele tem tido uns problemas disciplinares e tem faltado a algumas aulas…

Encarregado de Educação: Mas o professor não sabe que eu estou no meu local de trabalho? Acha pertinente incomodar-me no meu local de trabalho?

Professor: Eu estou a ligar para o número que a senhora deixou na escola e deve calcular que é impossível eu saber quando a senhora está disponível ou não…

Como devem imaginar, a conversa “azedou” um bocadinho e aquilo que tinha demorado três ou quatro minutos demorou mais de cinco sem nunca falarmos sobre o motivo do telefonema. A partir desse momento, todas as comunicações passaram a ser via postal, perdendo-se algo fundamental para o sucesso do aluno: a ligação entre o director de turma e o encarregado de educação.

O que me aconteceu é apenas um exemplo das mais incríveis situações que possam imaginar, desde os pais dizerem que não sabem o que fazer aos filhos, que só esperam que eles façam 18 anos, a não atenderem o telefone, tudo acontece na comunicação com alguns pais.

Não é por isso de estranhar que os professores apontem o dedo aos encarregados de educação, num inquérito realizado e que foi divulgado no PÚBLICO – cerca de 80% dos 2348 inquiridos refere como principal causa para a redução da indisciplina escolar uma maior responsabilização dos encarregados de educação.

Não vamos ignorar o que acontece frequentemente, as relações entre professores e pais são muitas vezes difíceis e demasiadas vezes inexistentes. Nas escolas, sempre que se fala em indisciplina, aponta-se o dedo aos pais e os pais, sempre que surge um problema, apontam o dedo à escola. Esta costuma ser a norma, esquecendo, as partes equacionadas até agora, que o principal visado também tem uma palavra a dizer, aliás, a última e principal palavra. Todos nós conhecemos casos de crianças/jovens de sucesso que tiveram infâncias difíceis, chamo-lhes os heróis silenciosos, pois é isso que eles são, pequenos grandes heróis, que apesar de toda a adversidade, conseguiram atingir o impensável. Não é fácil ter sucesso quando não se quer voltar para casa, não é fácil ter sucesso quando a escola é um local inóspito, de incompreensão e onde o ensino está formatado para as massas e não para o indivíduo.

É verdade que cada vez mais existem órfãos de pais vivos, os professores conhecem bem os casos de negligência e abandono parental, conhecem bem a desculpabilização excessiva em que o filho nunca é responsável e é sempre a vítima. Não é admissível que os pais não compareçam quando a escola os chama duas, três, cinco vezes… não é admissível que mintam nas justificações de faltas que entregam aos directores de turma, não é admissível que apontem o dedo sem se olharem ao espelho.

A escola, os professores, também precisa de melhorar algumas abordagens. O professor não pode ser apenas o mensageiro da desgraça, o professor também deve contactar os pais para elogiar a evolução, a mudança de atitude. Já sei que os professores vão dizer que não têm tempo e infelizmente é a mais pura das verdades, mas, para certos casos, mais vale “perder” cinco minutos e recuperar a confiança da família na escola, recuperando, ao mesmo tempo, a própria relação familiar. Sim, o professor também tem esse poder…

Lembro-me de uma colega que partilhou comigo a experiência dos seus alunos terem feito uma apresentação numa reunião com os pais. Em situações normais, tal seria restrito à turma, era a sua avaliação… mas, por que não com os pais? Que melhor forma de verem o trabalho que os seus filhos fazem e ligarem-se à escola através de algo positivo.

Existem excelentes pais e os professores reconhecem isso, provavelmente os pais que lerem estas linhas fazem parte desse grupo e não devem, por isso, sentir como suas as acusações que aqui são feitas. Faço um mea culpa e digo que a escola devia apoiar mais os seus filhos, pois a verdade é que a escola não gasta um terço da sua energia em tornar um aluno mediano num bom aluno ou um bom aluno num aluno excelente. O foco está sempre no pior e não é justo, não é justo para os bons alunos, não é justo para os bons pais.

Para os casos problemáticos é preciso uma maior responsabilização dos encarregados de educação, o desafio está no aluno, mas o desafio maior está na família, está na própria sociedade. Os pais precisam de assumir na plenitude o título que carregam – são encarregados de educação, é essa a sua prioridade, é essa a sua função!

Quanto aos professores, compreendo a frustração e revolta de se sentirem com o “menino nas mãos”, de se sentirem impotentes por verem, do outro lado, o que nunca devia acontecer. Cabe-lhes manter a perseverança e acreditar que é possível mudar erros passados, estabelecer pontes que potenciem o sucesso dos seus alunos e continuarem a ser aquilo que hoje são, muito mais do que professores…

 

Alexandre Henriques

Professor, pai e autor do blogue Com Regras

In Público 25-3-2018

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7 COMENTÁRIOS

  1. Mais umas para refletir:
    – porque é que, entre o pré-escolar e o 2ºCEB os pais vão deixando de comparecer na escola ou deixando de acompanhar as aprendizagens dos filhos? É o sistema que os vai empurrando para fora? Ou confundimos (nós, pais) educar para a autonomia com afastamento? Ou será que os portões da escola aparecem de repente fechados, exceto quando é para reuniões e burocracias?
    – Uma mãe e amiga perguntou-me o outro dia – os professores de AEC são professores da turma, certo? – certo… – Então porque é que não estão na entrega das avaliações? Às vezes queria falar com eles, mas nunca conseguimos… – Bem, por princípio a avaliação em AEC nem devia existir… por outros lado, tem muitas turmas, seria impossível estar em todas. Mas a comunicação devia conseguir fazer-se… sim… numa reunião ou outra, por exemplo…

    • Deve esclarecer a sua amiga que, relativamente às AEC, com ou sem avaliação, o EE por norma não articula com eles, do mesmo modo que, também no 2.º ciclo e seguintes, não articula individualmente com o professor de Português ou de Matemática. Os EE articulam e reúnem com o Diretor de Turma sempre e, no caso do 1.º ciclo, o Professor Titular é o DT.

    • Por outro lado os professores de AEC não têm no seu horário horas para reuniões. São pagos apenas pelas horas de trabalho direto com as turmas. Trabalham a recibos verdes e são considerados pelo ministério de educação como “meios” professores. Haverá excepções certamente. A gestão dos dinheiros para a contratação destes professores está entregue às mais variadas instituições, desde Câmaras Municipais a Centros de Estudo, que desse dinheiro também têm de tirar a sua margem de lucro. Mas isto é outro assunto que daria pano para mangas e eu não sou a pessoa mais indicada para falar sobre ele. Não sou professora de AEC , apenas relatei o que vou ouvindo a esses professores.

  2. Excelente artigo. Sou pai de um aluno mediano a Linguas e bom (4/5) nas restantes. Nunca vi a escola (honra a um ou outro professor) investir na melhoria das notas de alunos, como o meu filho. Eu e a minha esposa participamos em todas as reuniões (a minha esposa é representante dos pais da turma pelo 3°ano consecutivo). Apesar da excelente Directora de Turma, a realidade é que os casos problemáticos obrigam a toda a disponibilidade para a sua minimização. Resolver estes problemas é obrigação da Escola e não dos professores individualmente.

  3. Percebo o seu artigo e subscrevo na generalidade, no entanto aos 53 anos e mãe de 3 queridos filhos , sempre acompanhados e sempre responsáveis com bons resultados , deixe me dizer que infelizmente cheguei à conclusão que isto da escola e os professores quererem a colaboração dos pais maioritariamente é treta. Querem sim os pais quando estes se dispõem a ser os seus Yes man , porque de contrário tudo lhes incomoda e dá muito trabalho ( aliás é a única classe sócio -profissional que trabalha ) e sair do ram ram tá quieto e estão sempre na retranca e desconfiados com os pais interventivos e pró – ativos . Isto cá e lá mais fadas há …..

  4. Uma atitude de alguns pais que sempre me chocou é ver que não tem tempo para uma reunião na escola dos filhos, mas se houver um jogo de futebol em horário de trabalho, já fazem todo o possível para conseguir sair do trabalho para irem ver.

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