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A geringonça é real, traiu os professores e a escola pública.

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geringonçaTenho 39 anos, sou professor de quadro de agrupamento e este chumbo da aposentação dos professores com 40 anos de serviço, não me aquece nem me arrefece. Isto se pensasse apenas no meu umbigo…

Choca-me a “intelectualidade superior” com que muitos professores estão a reagir a isto, são vários os comentários ao estilo “Mas por que razão estão indignados?” ou “tanta ingenuidade em acreditar nos políticos…”, fervilham pelas redes sociais. Se é verdade que não existe surpresa, também é verdade que estavam reunidas as condições para ao menos abrir caminho, a curto/médio prazo, para uma aposentação justa e digna. Lembrem-se do que se passa nas forças policiais…

Estes comentários de alguma sobranceria, mostram resignação e por muito que fosse previsível, encolher os ombros não é solução, não resolve nada e mostra a falta de união que persiste nos professores.

A FENPROF já reagiu, uma reação expectável mas sem grande alarido. A ver vamos, agora que o viajante sindical começou a sentir sobressaltos na “sua” geringonça, está na hora mudar o discurso para algo mais condizente com os seus pergaminhos e afiliados…

Importa lembrar que o PS está assente numa maioria de esquerda, onde dois dos seus apoiantes (Verdes/PCP) apresentaram propostas concretas e três deles (Verdes/PCP/BE) votaram a favor das mesmas. Não nos vamos iludir, todos eles já sabiam o que se ia passar, todos eles já sabiam que o PS ia chumbar as propostas e todos eles aceitaram com demasiada naturalidade o sucedido. Existem linhas vermelhas na geringonça, mas a educação pelos vistos não é uma delas. Trata-se de um chumbo consentido, com discursos fofinhos para ficarem bem na fotografia. Por isso, a partir de hoje junto-me aos que apelidam esta coligação de esquerda de geringonça, pois não passa de uma Coisa malfeita ou construção com pouca solidez.

A aposentação dos professores é uma questão central para a melhoria do sistema educativo. O cansaço, associado à desmotivação dos colegas mais experientes, afetam o seu desempenho. Afirmo-o com todas as letras, mas não confundir isto com incompetência – e leiam bem o que escrevi para não criar mais uma vez comentários de novos vs velhos, ridículos para quem tem habilitações superiores… É preciso “sangue” novo na sala dos professores, revitalizar o sistema educativo e combater o desemprego docente. Tudo isto foi ignorado/desvalorizado, e para quem prometeu valorizar a escola pública e seus professores, o que aconteceu ontem comprometeu, mais uma vez, a sua credibilidade, não só para quem chumbou, mas também para quem deixou chumbar…
P.S – e agora venham dizer que sou de esquerda… sou pela minha cabeça.
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18 COMENTÁRIOS

  1. A verdade é que não podemos ser “santinhos” e pensar que tudo o que a chamada “geringonça” gostaria de fazer é impossível. Isto se as contas são pra ficar minimamente perto do q é necessário.
    Uma medida destas, embora sendo necessária pra melhorar td o ensino, seria um grande golpe pras contas públicas e que só “beneficiaria” um grupo profissional.
    Ainda estamos longe de tal ser possível. E até digo mais: com as medidas que a “geringonça” já tomou veremos se as contas públicas não vão dar já o berro, qt mais se fosse tomada uma medida dessas.

    • Eles devem ter pelo menos os números das baixas médicas por burnout. A aposentação completa deveria ser sempre faseada, de facto, não há orçamento que resista, mas 40 anos de serviço é muito ano, seria mais do que justificada a reforma nesse caso. Por outro lado, há situações que não lembra o diabo, no caso da reforma antecipada, com penalização, a exigência de se ter 30 anos de serviço à data em que se completou 55, independentemente dos anos que entretanto passaram depois dos 55, é próprio de gente incompetente a fazer leis ou simplesmente sádica. Se nem isso mudaram , então acho ainda mais o que já achava. Que esta solução governativa é um embuste desde o início.

    • Caro Bernardo, encontra alguma medida tomada pela geringonça que não visasse beneficiar determinado grupo profissional?
      Se encontrar alguma, diga.
      Esta seria apenas mais uma.
      E nem seria muito dispendiosa. Quantos professores com 40 ou mais anos de descontos conhece?
      Compare com a descida do IVA dos restaurantes e veja quem vai ser beneficiado nesta. Ou então com a reversão da concessão dos transportes para sobrevivência da CGTP.

      • A maior parte das medidas tomadas não foram pra nefneficiar ninguém, antes uma recuperação da forma como era há uns anos.
        Conheço alguns, mas esses dados é só procurar.
        Mas se acham mesmo que a saída de milhares de docentes com 40 anos de serviço com reforma “completa” e 36 anos com reforma antecipada, que dp teriam de ser substituídos por contratados não daria rombo nas contas, estando já elas como devem estar.
        Atenção que eu concordo completamente com esta medida e acho q será essencial pra uma melhoria geral no ensino. Só não acho que as finanças estejam minimamente preparadas pra tal aumento neste momento.
        E acaba por ficar mais barato ter pessoas de baixa e contratar substitutos provisórios do que reformar esses docentes e dp ter de substitui-los definitivamente.

        • É uma questão de prioridades Bernardo e ver a escola como um investimento. Um investimento com elevada taxa de retorno a médio/longo prazo e o problema está aí, os nossos políticos só pensam no curto prazo. Esta é daquelas matérias que devia existir um consenso parlamentar entre todos os partidos políticos. Mas não, só se preocupam com os seus umbigos e as suas tricas partidárias…

    • Desculpe, Bernardo, mas não é o grupo profissional que sai em benefício. São todos os grupos, porque as crianças beneficiárias são filhas de todos os grupos profissionais! Um professor exausto é que não beneficia ninguém! Nós não temos horas extraordinárias há, pelo menos 20 anos, mas garanto-lhe que seria impossível fazer todo o trabalho que faço sem dar pelo menos 45 horas semanais aos meus alunos, pela noite fora muitas vezes e, por isso, ninguém vê! Em cinco anos o meu agrupamento reduziu cerca de 35 a 40 alunos no segundo ciclo, passando de 20 turmas para 18. No entanto, o meu grupo docente passou de 10 professores para 5, tendo ficado os mais velhos (eu sou a mais nova e tenho 50). Ainda pensa que seria eu a beneficiária? Ou seriam os alunos a quem podia dispensar muito maior atenção e tempo? Posso construir um infinito nº de papeis com intenções de fazer isto ou aquilo para recuperar alunos, mas sem espaço de tempo para preparar atividades, nunca farei nada de jeito! A juntar a isto está o elevado número de alunos por turma, tema que deveria ser de luta cerrada por parte dos pais e não tem sido!

  2. Quando os professores mais velhos começarem a meter baixa por motivos de incapacidade física ou moral, ficará mais caro ao estado.

  3. Subscrevo integralmente! E como professora de 50 anos e 28 de serviço, sem horas de redução da componente letiva porque se esbatem nos tempos de 45mn (como se fosse a mesma coisa! E não é, porque acrescenta número de alunos, de turmas e de testes para corrigir, para não falar de níveis e de materiais diários), sinto-me cansada. E, no meu agrupamento, sou a mais nova no grupo disciplinar… tenho os cargos DT e assessora de disciplina e todo o tipo de projetos e… e… e… Subscrevo sobretudo a frase: “É preciso “sangue” novo na sala dos professores, revitalizar o sistema educativo e combater o desemprego docente.” E não, não é por incompetência de nenhum dos colegas nem minha! É porque a força e as capacidades diminuem mesmo com a idade e o cansaço se instala inevitavelmente, até porque somos metade a fazer o mesmo ou mais trabalho do que há 10/15 anos atrás, em vez de reduzir um pouco o ritmo de trabalho, tem vindo sempre a aumentar! E sim, havia necessidade de obstar a alguns abusos, mas não de trocidar a classe docente ao ponto de ficar uma classe doente e descompensada, para prejuízo do mais importante: os jovens alunos. eÉ por tudo isso que quando digo “O esperado ou sem surpresa!” não é para abandonar o barco ou a luta, mas porque infelizmente o tempo já me ensinou que nós professores não podemos confiar a educação a nenhum político. Nem um fez o que devia em questões de educação há, pelo menos, 29 anos! Mas cá estou, pronta a dar a cara para mais uma luta e para conseguir gente jovem e empenhada ao meu lado e, em conjunto, força anímica e experiencia, levar a bom porto o nosso propósito (pelo menos o meu é): ajudar a construir jovens curiosos e prontos a continuar a aprender e a resolver os problemas da sociedade em que vivem de forma autónoma e ponderada, com entusiasmo e sendo felizes. Cumprimentos.

  4. Acho que ninguém vê nos professores aquilo que realmente eles são. Não são um “grupo profissional” isolado. Transformam a sociedade a médio e longo prazo, são eles quem ensina os médicos, os engenheiros, os políticos… São pessoas que deixam “couro e cabelo” nas salas de aula e nas suas casas, onze meses por ano, sem limite de horas e que merecem um descanso após jornadas de muitas vezes mais de quatro décadas. Tudo isto é vergonhoso.

  5. Já sabem que não publico comentários baseados no insulto. E tenho pena de não ter havido um único a fazer referência à minha não referência aos votos contra do PSD/CDS sem “miminhos” desnecessários. Mesmo assim fica a explicação.

    Amigos… quem está à frente do PSD/CDS já disse bem o que pensa da escola pública, por isso já nem constam do meu mapa. Ao contrário de outros bem mais amarelos…

    • Sim, já disse o que pensa da Escola Pública, como de todo o setor público.
      Não me apercebi de nenhuma diferença entra a forma como a escola foi encarada, e a da Saúde, da Segurança ou do Sistema de Pensões.
      Todos estes setores têm uma singularidade em comum: custam muito dinheiro!
      Portanto, na lógica da diminuição da despesa pública, a posição do PSD e do CDS compreendem-se sem dificuldade.
      O que não se compreende é a posição do PS.
      De facto, a diminuição da despesa do Estado não é uma prioridade do PS, antes pelo contrário, como bem se viu na sucessão de reversões a que assistimos.
      Nesta lógica, o pequeno acréscimo de despesa que representaria a aposentação dos professores com 40 anos de descontos seria irrisório.
      E mais: seria um “investimento na qualidade da Educação” !!!

  6. A confirmar-se tal decisão, temos mais uma “traição”, não esperada por uma base de apoio significativa do PS. Este partido não aprendeu como o antecessor e está a arranjar maneira de nas próximas décadas nunca mais chegar ao poder. Infelizmente a alternativa é outro horror. Pode ser que apareça um novo partido… Para as polícias e afins a decisão da aposentação 60/ 40 foi fácil. Como o ensino e os seus profissionais não servem para nada (embora possam formar a opinião dos mais jovens), vê-se a atitude subjacente. Estranha-se de quem teve uma pessoa próxima, como professora (ou não?). Nem direita, nem esquerda, subscrevo a necessidade de renovar o pessoal docente nas escolas. Ao não fazê-lo condenam os colegas mais jovens a nunca mais adquirirem estabilidade no sistema. Resultado óbvio: pior ensino, mais insucesso escolar… Como outros, já dei durante 40 anos o melhor que tinha para dar. Agora acabou. Como eu, outros colegas esperarão com mais ou menos atestados médicos, faltas por indisposição física e psicológica, depressões ou outras razões, que o dia da merecida aposentação chegue, se formos vivos! Isto também se entretanto a Europa não implodir politica e economicamente. Aguardo as reações dos sindicatos, dos seus militantes afetos ao PS e outros da coligação (rasguem os cartões). De qualquer modo isto vai acabar depressa e mal para o PS e amigos.

    • Possivelmente, teremos outras frentes já que as ameaças de sanções estão aí. Criar mais casos de exceção dentro da função pública não será fácil, até porque os argumentos se baseiam em diversos fatores, como esperança média de vida e tal. Não há folga nos próximos tempos, temos de ir pela redução de alunos por turma, recuperação de tempos do 79, reduzir burocracias. Há e muitos que estão cansados, depois têm outras atividades extra, explicações e outros negócios, podem ser poucos mas que os há. Não podemos fazer como os enfermeiros coitados, andavam cansados, pudera depois do serviço público tinham o serviço privado em clínicas, etc.

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