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FENPROF: O tiro no pé de quem deserta da batalha

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Um dos meu filmes favoritos é o poético e romântico “Long Dimanche de Fiançailles”, um filme francês que gira à volta da história de um soldado da 1ª guerra, que teria dado um tiro em si próprio para fugir à batalha. Por causa disso, pensamos ao longo de todo o filme que foi fuzilado, passando-se a trama à volta da busca iniciada pela sua namorada e da narração das várias versões de várias testemunhas sobre o que se terá passado. O filme tem uma cor linda, fala de temas que me interessam muito (a injustiça da pena de morte, as várias faces da verdade, a coragem de não desistir), além da música e da Jodie Foster. Estava a começar a escrever e confesso que não me lembro se o tiro que o soldado deu foi no pé ou na mão. Não fui confirmar, mas isso até pode ser um pretexto para sugerir verem ou reverem o filme. Mas vamos assentar que a minha 1ª memória pode estar certa: o tiro foi no pé.

Se estou certo, o tal soldado teve estes dias a companhia no ato de Mário Nogueira. Também ele, e os sindicatos que dirige em ordem unida até uma parede, deram o seu, pessoal e inconfundível, tiro no pé. Questionados pelo Parlamento sobre a ILC, que está em discussão como projeto de lei que propõe a contagem integral do tempo de serviço docente e algumas coisas sensatas sobre quotas, avaliações e vagas, os sindicatos vieram insinuar que não pode ser aprovada porque poderá ser ilegal.

A ILC, ilegal? E não haver negociação, é legal?

Esta abstrusa conclusão, digna de almas já danadas pelo sabor da traição, aos que dizem servir, baseia-se na ideia de que, como o orçamento “impõe” negociação não pode o parlamento fazer de outra maneira.

Este é o corolário da estratégia sindical docente, que se vem revelando errada desde que começou (nestes 3 anos completos de Governo, já me custou essa estratégia uns 12 mil euros, obtidos pela multiplicação da diferença do que devia estar a receber e 14 meses).

A estratégia é esta: é preciso, à FENPROF e seus satélites, para justificar a existência fantasmática e o suposto valor dos sindicatos, que dão força particular e específica a certas forças políticas, que a solução, mesmo má, ou até muito má, possa ser apresentada como fruto esplendoroso da negociação sindical.

O resultado bom para os sindicatos 

O resultado, melhor ou pior, interessa pouco, desde que seja obtido em negociações e possa ser apresentado como“mais uma grande vitória da luta sindical”e mais uma prova de “que vale a pena lutar esta luta que se luta e é tão boa de lutar…” (blá, blá)

Tudo o que fuja ao redil sindical não presta, é mau e prejudica.

Mas isso é lá com eles. A mim interessa-me o meu (dinheiro) e não passei qualquer procuração a Mário Nogueira e “sus muchachas e muchachos” para dizerem disparates a prejudicar-me. Por isso vou ser curto e grosso:

– Dizer que aprovar a ILC é ilegal é asinina pseudosabedoria, ignorância e má fé. A Assembleia não está limitada nas suas competências legais e de soberania pelas leis anteriores que faz. A norma que “impõe” a negociação não esgota as soluções. Se o Governo não negociar ficamos como? (tem negociado, a propósito?)

– A solução negociada, com base no faseamento proposto pelos sindicatos, é e será, por si mesma, um roubo continuado e o prolongamento das injustiças. Se os sindicatos não tivessem traído a greve de julho, como traem agora a ILC (que sempre atacaram), talvez não estivéssemos todos neste quelho sem luz.

– Os partidos, como se disse no Parlamento, até podem utilizar as propostas sindicais (que se presume que os sindicatos até apoiam e não acham ilegais) e aproveitar o processo legislativo para fazer uma solução. Agora, a paralisia atual e a aceitação sindical de que se vai continuar a tentar, o que já se viu falhar, é objetivamente uma traição.

Traição descarada com as letras todas

E escrever, em missiva ao parlamento,a traição com as letras todas, usando argumentos pseudojurídicos, mais ou menos inventados, é o cúmulo do descaramento. Até podiam não apoiar, na sua linha de imoralidade deslavada, mas, atacar uma iniciativa de 20 mil pessoas, só porque sabem que não a controlam e é um espinho cravado que exibe a sua inércia dormente tem um só nome:deserção à frente do inimigo.

A ILC pode ser aprovada, se houver vontade política. Se a negociação continuar parada, tem de ser aprovada e não pode politicamente ser chumbada.

Pode até, por causa dela, haver propostas alternativas, melhores que o resultado, mau, previsível da negociação. O orçamento prevê que haja verba para o resultado da negociação, logo, também há de haver verba orçamentada para um arranjo produzido no parlamento, por via de propostas de partidos, negociadas até com sindicatos.

Qual é o mal de o Parlamento agir e os deputados bulirem?

O Parlamento agir não impede pactuar a solução com os sindicatos. Aliás, estes estão a ser ouvidos no Parlamento, por causa da ILC, o que é mais do que têm conseguido com o Governo. Em vez de falarem das suas propostas (que convenientemente divulgam pouco) aproveitam e atacam a iniciativa cidadã.

Por isso, a Mário Nogueira só digo: O Direito não é baseado na moral, mas é imoral usar o Direito para torcer a verdade.

Tocar sininhos é melhor que promover leis?

E seja honesto: não quer que a ILC cumpra a sua utilidade, não porque seja ilegal, mas porque ela mostra a inutilidade ridícula de andar a tocar sininhos à porta do Governo e a entregar postalitos. Resultados? Em vez de gastarem energia a “defender a unidade”, atacando iniciativas de professores, só porque não as controlam, tratem de fazer aquilo que é o vosso trabalho.

Negoceiem e obriguem o Governo a negociar. Se a ILC não estivesse a ser fuzilada por “fogo amigo” desta forma torpe, podia ser a “greve cirúrgica” dos professores. Assim, não saímos da apagada e vil tristeza de espoliados.

E repetimos aqui o vídeo da audição da comissão representativa na AR. Já prevíamos nessa reunião que íamos ter de responder a estas “coisas da legalidade”. São tão previsíveis…

Se alegam que a ILC é ilegal, eu alego que o que os sindicatos da Plataforma, vêm fazendo é traição. Fico à espera do troco.

Mas até acho que devem gastar o tempo com outras coisas: não me vão convencer de nada e há outras coisas, que vem negligenciando e que são mais importantes, para tratar.

7 COMENTÁRIOS

  1. Caros amigos
    Como homem da luta pelos professores contratados entre 2001 e 2013, sei bem o que o aparelho sindical debita de empenho quando se trata de defender os mais desfavorecidos da classe. Como professor do quadro, enoja-me ver os ansiãos dos sindicatos a defenderem os seus patamares acima dos oitavos escalões, porque já pouco terão a perder… Aliás a sua ânsia pela justa antecipação da idade da reforma é um claro sinal que estão a defender o que lhes está mais próximo em detrimento dos que estão abaixo do 7.o escalão. Olhem bem para as caras dos sindicalistas de todos os sindicatos. Anos e anos de boa vida longe da sala de aula e grande determinação em prejudicar os mais novos. A falta de rejuvenescimento dá nisto, a defesa só de alguns em prejuízo da maioria dos professores. Na classe docente também há o Zé povinho, a maioria ainda o é pela ignorância sobre os seus direitos, sendo por isso fácil ser político e sindicalista neste país. Vamos ser vendidos em negociações fantoche, tal como o fomos no tempo das pizas do mesmo Nogueira que se conseguir antecipar a reforminha já não vai cumprir o sonho de dar aulitas na escola há da Pedrulha!Lembram-se como nós tramou ao aceitar aulas observadas e vagas nos escalões mais baixos?! É este é os outros dinossaurositos da dezena de sindicatos que nos estão a tramar. É a vida… É fácil enganar cegos se não se fizer barulho, é na nossa classe há muitos….

  2. Eu tenho orgulho de ter subscrito a ILC.
    Ainda bem que apareceram várias orientações a partir do início de junho de 2018 para se esclarecerem muitas dúvidas e clarificar posições.
    No dia 12 de julho de 2018, eu decidi dizer basta a esse tipo de princípios, estratégias e procedimentos. Por isso não traí os colegas que ainda se encontravam em luta e que me mereciam todo o respeito.
    Postura bem diferente teve o S.TO.P. ao apoiar a ILC e todos os colegas que se encontravam em luta desde o dia 4 de junho até ao dia 10 de agosto de 2018.
    Agora vamos ver até que ponto os deputados assumem as suas responsabilidades perante o que afirmaram na Comissão de Educação e Ciência ou se continuam a protelar as suas decisões salvaguardando o interesse político-partidário.

  3. @Sílvio José dos Santos Figueiredo Miguel.
    Eu também a assinei, e em boa hora o fiz, pois apenas me provou a confirmação do paleio dos partidos políticos da governação desta esquerda, da esquerda que os suporta e da direita (destes últimos já todos sabemos o que contar). Mas este governo de esquerda e a esquerda dessa esquerda, depois de anos a vociferar contra todos os outros (socrates e passos) ficaram completamente desmascarados por fazerem o mesmo que os outros.
    A partidarice continua a fazer com que muitos não vejam ou arranjem desculpas esfarrapadas para justificar o que até agora era um problema do centro esquerda(socrates) e da direita(passos). Agora até já há gente dos partidos de esquerda que começou a fazer contas para aceitar os argumentos de quem lá está, como se até agora os motivos fosses diferentes.
    Por favor, não me tratem como estúpido, pois só mostra a pobreza de inteligência de quem me trata assim.

  4. Quando escrevi, neste mesmo Blog, o Artigo “Se eu fosse Sindicalista”, tentei mostrar que, quanto mais os Sindicatos mostrassem vontade negocial e atitudes de desunião e desrespeito na classe docente, mais nos iriam prejudicar, porque o Governo “vive” disso- é aí que Costa vai buscar a sua força embirrante para nos humilhar.
    Infelizmente, a Fenprof faz exatamente aquilo que fomenta o crescente “desrespeito docente”- divide em vez de unir, mostra que é fácil romper a fileira. E NÃO APRENDE COM ERROS PASSADOS, o que é vergonhoso e, como diz o texto, uma enorme “asinina pseudosabedoria”

  5. Tanto o excelente texto do Luís Braga como os comentários são muito elucidativos por demonstrarem sem margem para dúvidas de que lado está e sempre esteve o grande dinossauro do sindicalismo MN. Esse é o mesmo que me dizia à porta do ME, no auge da maior greve de sempre:
    – O STOP é ilegal e a sua greve também.
    – Mas tu não compreendes que a tutela já esclareceu que está tudo legal?
    – Nada disso. É ilegal sim senhor, posso garantir.
    Dizia há tempos um grande dirigente do SPGL: Ah finalmente, as negociações! Já tinha saudades de uma boa negociação.
    Pois é exactamente isto que eles adoram: o sindicalismo burocratizado aposta em reuniões de negociação e invectiva os que lutam a sério no terreno. Os seus ataques vergonhosos à ILC, mostram bem o seu desespero por terem sido ultrapassados pelas bases. E aí tentam tudo, incluindo os golpes mais soezes, sem perceber quanto isso os desacredita aos olhos da classe que supostamente representam (cada vez menos). Se isso vem dividir a classe, tanto melhor para eles, pois permite-lhes explicar: estão a ver? A gente até quer lutar, mas a malta está desmobilizada…Não há condições…..
    Já não há pachorra para aturar estes burocratas da treta!!!!

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