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Fenómeno Educacional – Provas de Aferição a Disciplinas sem programa (o obscurantismo do sistema)

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Aproxima-se a realização das Provas de Aferição (para os alunos, nem de aflição), este ano, pela primeira vez nas disciplinas de Educação Visual e de Educação Tecnológica no 2.º ciclo (5.º ano de escolaridade).

Nas últimas dezenas de anos tem aumentado a implantação da sociedade da tecnologia, da automação, da robótica, da inteligência artificial e da manufaturação, neste país (nesta selva onde tudo é possível e alguns fazem tudo o que querem e nada lhes acontece), mas no sentido inverso têm caminhado as políticas educativas dos vários Ministérios da Educação, ao diminuírem as cargas horárias e/ou acabarem com as disciplinas artísticas, artesanais/manuais e tecnológicas no ensino básico obrigatório, bem como têm reduzido e/ou eliminado os investimentos em recursos humanos, instalações, equipamentos e materiais de consumo diversificados.

No 2.º ciclo foram reduzindo a carga horária da disciplina de Trabalhos Manuais até acabarem com ela e reduziram a carga horária da disciplina de Educação Visual. Criaram uma disciplina de Educação Visual e Tecnológica com menos carga horária e por fim retiram dela o par pedagógico (2 professores por turma/sala). Separaram-nas voltando a reduzir a carga horária e com um professor com os alunos da turma toda ao mesmo tempo, a funcionarem numa “autentica batalha campal” para uma disciplina que deveria ser eminentemente prática e com utilização de equipamentos e ferramentas. Para o próximo ano letivo, ao abrigo da “autonomia” (mini-selva) podem as Escolas diminuí-las ou até eliminá-las.

No 3.º ciclo diminuíram a carga horária até acabarem com a disciplina de Trabalhos Oficinais e com a divisão da turma em 2 grupos com 2 professores. Substituíram-na pela disciplina de Educação Tecnológica com uma reduzida carga horária e apenas com um professor para os alunos de toda a turma para darem continuidade à “batalha campal”. Finalmente extinguiram-na pura e simplesmente, possibilitando a oferta de disciplinas pela referida “autonomia” dos interesses “duvidosos” também já instalados nas Escolas.

Posto isto, regresse-se às Provas de Aferição a realizar nas disciplinas de Educação Visual e de Educação Tecnológica, nos seguintes termos:

– Disciplinas sem programa, mas com Metas, ou seja, o Ministério da Educação manda os professores lecionarem as disciplinas sem definir programas individuais para elas, contudo define Metas a atingir obrigatoriamente, reportando para que sejam organizadas as atividades daquelas disciplinas com base num programa de uma disciplina que já não existe e está completamente desatualizado com dezenas de anos (o da disciplina de Educação Visual e Tecnológica), ou seja, não serve para ser lecionada, mas serve para “esventrar” o seu programa;

– Deverão os professores apoiarem-se no programa da antiga disciplina de Educação Visual e Tenológica que tinha mais carga horária e par pedagógico (2 professores por turma), “inventando”, “desenrascando”, “assegurando” o que o Ministério da Educação não tem competência e nem sabe fazer ou o que é um programa para cada uma daquelas disciplinas;

– Em cada Escola são os professores a “parirem” programas para estas disciplinas com o intuito de preparem os alunos para uma Prova de Aferição nacional cujos moldes desconhecem por completo e para as quais não lhes foram dadas quaisquer orientações nem sequer matrizes/informações/exemplos de provas relativamente aos conteúdos programáticos.

Pergunta-se/Questiona-se:

– Como é possível obrigar os alunos a realizarem uma Prova de Aferição em disciplinas onde nem sequer existe programa? Em centenas de disciplinas nos vários ciclos são as 2 únicas disciplinas que não têm programa.

– Será que a realização da Prova de Aferição nestas disciplinas sem qualquer tipo de orientação é para avaliar a capacidade dos respetivos professores que as lecionam relativamente à incompetência do Ministério da Educação? Certamente com eles aprenderão o que não sabem, pois a maioria dos professores são os mais antigos e experientes no sistema educativo e estão diretamente relacionados com a capacidade de trabalho, organizativa e produtiva.

– Onde estão os encarregados de educação e a sua preocupação com o que o Ministério de Educação manda fazer aos seus educandos para avaliar os professores (ou o sistema falido, como o país)? Estarão certamente preocupados com o que os professores mandam fazer aos seus educandos e com o que lhes exigem relativamente aos comportamentos e atitudes corretas que devem ter e não têm na sala de aula, especialmente nas disciplinas práticas, em que é preciso transformar materiais utilizando técnicas complexas e diversificadas.

– Se isto se passasse com as disciplinas ditas “importantes”, o que já teria acontecido e quantos “experts na matéria” já tinham vindo “partir a louça toda” e defender o “ego”? Aqui se vê a importância das diferentes disciplinas (teóricas ou práticas) e porque é que os alunos não querem esforçar-se no trabalho produtivo, em que o Ministério da Educação é o primeiro a desvalorizar as componentes artísticas, tecnológicas e artesanais, salvo as áreas desportivas, musicais e da representação (relacionadas com o espetáculo). Não esquecer que tudo o que existe e que é utilizado é sempre produzido, mas para ser concebido é necessário saber ver (EV) e saber fazer (ET).

O Ministério da Educação com este tipo de política educativa vem, mais uma vez, desvalorizar, enxovalhar e nitidamente extinguir os já poucos professores das antigas disciplinas de Trabalhos Manuais e Trabalhos Oficinais e os atuais professores das disciplinas de Educação Visual e de Educação Tenológica, não aproveitando mínima e adequadamente as suas valências. O Ministério da Educação não soube fazer os programas das disciplinas de Educação Visual e de Educação Tecnológica, mas sabe fazer Provas de Aferição para as avaliar e vir colocar em causa o que os professores lecionaram aos seus alunos, mandando depois às Escolas os relatórios incriminatórios.

Carlos de Almeida Tiago (CC 4487013)

Professor das disciplinas de Trabalhos Manuais (2.º ciclo), de Trabalhos Oficinais (3.º ciclo), de Educação Visual e Tecnológica (2.º ciclo), de Educação Visual e de Educação Tenológica (2.º e 3.º ciclo) e de Introdução às Tecnologias da Informação e Comunicação (Secundário) com 38 anos de experiência profissional e com desempenho de todos os cargos em escolas dos 2.º e 3.º ciclos e secundário

Anexos:

Notícia à data

http://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/disciplinas-novas-sem-programas

Programas e Metas

http://www.dge.mec.pt/programas-e-metas-curriculares-0

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