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Existe a minha verdade, a tua verdade e a verdade verdadeira.

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“Eu sei que você acha que entendeu o que você pensa que eu disse, mas não estou certo de que você tenha percebido que o que você ouviu não é precisamente o que eu quis dizer.”

verdadeoumentira“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com um o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso d’esta dupla existência da verdade.”

(Fernando Pessoa, p. 476, 2010)

 Livro do Desassossego – Tomo I, volume XII,

Edição de Jerónimo Pizarro, Imprensa Nacional – Casa da Moeda

Pois, é mesmo assim… Existe a minha verdade, a tua verdade e a verdade verdadeira.

Por isso quando entramos numa disputa, numa discussão, numa mera partilha de opiniões, importa lidar com o conflito (não necessariamente negativo) de forma construtiva, de modo a levar as partes ao entendimento, privilegiando a comunicação efetiva e promovendo a compreensão das razões da diferença de opiniões, de interesses, de necessidades e, naturalmente, de posições.

Assim, resolvi esta semana partilhar 5 condições fundamentais para que a resolução de conflitos, ou seja, a partilha de verdades, seja construtiva e positiva.

Procure soluções, não culpados

O foco na culpa/inocência, no certo/errado não promove a colaboração, mas sim a concorrência e competição. Promovendo este (errado) paradigma de resolução também promovemos a desculpabilização e desresponsabilização dos atos em detrimento do diálogo e da cooperação.

Analise a situação detalhadamente

Cada situação tem as suas características e os seus atores e estes, por sua vez, têm cada um a sua história, o seu passado, as suas crenças, os seus valores, as suas expectativas. Não existem receitas universais mas também não existem doenças universais. É pela abordagem do contexto particular que é possível conseguir resultados satisfatórios para todos, uma vez que essas informações integradas permitem um constante reajustamento da comunicação para que produza os efeitos desejados.

Mantenha um clima de respeito

Não posso pedir um ambiente de respeito, se eu próprio não o fomento (seja através do verbal ou do não verbal).

Aperfeiçoe a capacidade de ouvir e falar

A eficácia do discurso exige o conhecimento do “outro”- o nosso companheiro de interacção. Mas o “outro” revela-se se nos envolvermos e escutarmos activamente. A escuta ativa favorece o conhecimento dos sujeitos envolvidos no processo comunicacional, permite a recolha de informação relativa aos objetivos a atingir e potencia a relação interpessoal (reduz a atitude de defesa, aumenta a auto-estima, favorece a cooperação) e ao mesmo tempo, abre caminho para também se ser ouvido e respeitado.

Seja empático

A perspectiva da empatia deriva de um princípio fundamental nas relações interpessoais: “Todas as pessoas têm motivos para agir”. Só com uma atitude empática pode ser gerada a motivação e a mobilização dos indivíduos, pois só desta forma se criam e expandem “territórios de comunicação” comuns. A empatia é a capacidade de se colocar na “pele” da outra pessoa, de entendê-la, de tentar compreender o que se passa na sua mente e identificar e compreender os seus sentimentos. Tentar compreender como e porquê se sente assim, mas não a partir da nossa perspetiva, mas tentando sempre pensar como aquela pessoa com as suas crenças e os seus valores.

É, portanto, importante procurar uma solução em que todas as partes envolvidas sintam que ficam a ganhar, evitando preconceitos e estereótipos e reconhecendo o erro quando este existe.

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia
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