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O Espanto que é um “Espantalho”

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“O Ministério da Educação admitiu, esta quinta-feira, que há escolas sem condições para lecionar a disciplina de Educação Física.

Quando li sobre o assunto ficou-me a vontade de escrever, de questionar, de perceber como foi possível- como É possível que os pais, os Diretores, o Ministério…afirmem que desconheciam/desconhecem as condições físicas e humanas que os alunos do 1.º Ciclo sempre tiveram na prática das Expressões- Artísticas ou Físico-Motoras.

Poderemos começar por várias vertentes da questão para tentar compreender as razões do “desconhecimento”, mas irei começar pelo horário, pela Matriz Curricular.

  • Com 3(três) horas semanais, em 25 (vinte e cinco), para a lecionação das 4(quatro) Expressões, faltando o tempo para as disciplinas que sempre foram consideradas fundamentais (Português e Matemática), com programas cada vez mais extensos e desadequados à idade das crianças, logicamente que os professores foram entregando o ensino das “artes e habilidades” aos professores das AEC. Alguém responsabiliza o professor titular de turma se o aluno não souber tocar um instrumento musical ou não fizer o pino? Não. Mas todos responsabilizam- MUITO -o docente quando os alunos escrevem com erros ortográficos ou erram os problemas, por exemplo. A desvalorização das Expressões não é culpa dos professores. Todo o sistema de Ensino tem, ao longo dos anos, desprezado atividades de fundamental importância para o desenvolvimento físico, intelectual e social dos nossos alunos, como o são todas as formas de expressão. Conhece-se hoje, que a cognição resulta da harmonia entre corpo físico e mental.

 

  • Outra questão, de que não entendo o espanto, é a posição dos pais relativa aos dados que a Aferição, no 2.º ano de escolaridade, colocou a nu- para além de não saberem o Horário Letivo dos filhos, os pais (alguns, claro) desconhecem o material, ou a falta dele, existente nas Escolas? Os Diretores também desconhecem? Os Conselhos Gerais de nada sabem? Então para que têm servido os “Inventários”, os Relatórios e Atas Mensais/Trimestrais/Anuais dos estabelecimentos do 1.º Ciclo, em que se expõem exaustivamente as dificuldades no cumprimento das atividades letivas e do Plano Anual? Para que se discriminam constrangimentos, se analisam em Departamento, por escola, pontos fortes e pontos fracos que cada docente enfrenta? Para que nos pedem constantemente para elaborar estratégias de “resolução”, de “promoção do sucesso escolar”? Para nos entreter?

 

  • Quando os docentes são avaliados, referem igualmente o que de positivo fizeram na sua prática letiva e o que não conseguiram realizar da forma ideal. É o que se espera de uma “Auto-Avaliação.” Ou estarei errada? Da minha parte, sei que tenho mencionado a falta de material, de tempo e até de competências pessoais para o ensino das expressões de forma aprofundada. É assim- preto no branco: um professor de música, um professor de teatro, um especialista em educação física… são muito mais competentes do que eu, para desenvolver essas atividades. Fi-lo, ao longo de muitos anos, de uma forma generalista, numa perspetiva de desenvolvimento integral do aluno, pois foi assim que me formaram. São assim os próprios Programas do 1.º Ciclo.
    A situação agravou-se com a construção do horário por disciplinas, como nos ciclos consequentes. A monodocência pressupunha que cada professor organizasse a sua planificação a partir dos gostos e necessidades da turma. Não há turmas iguais e nós, docentes, aprendemos o papel da motivação e da ligação dos conteúdos escolares à vida das crianças que ajudamos a educar (não a ensinar, como é moda dizer-se).
  • De todos, o espanto que mais me espanta é o do Ministério. A Inspeção Geral de Educação(IGE) desenvolve Ações de Acompanhamento, Controlo e Avaliação Externa das Escolas, entre outras. Os Relatórios são públicos e constam do site da Instituição, depois de homologados pelo Secretário de Estado do qual depende a referida entidade. Como desconhece o Ministério as condições físicas e humanas das escolas? Qualquer dia, surgirá um novo espanto– o de que não existem laboratórios e que a parte experimental do Programa de Estudo do Meio também tem sido insuficientemente trabalhada, apesar do material que os docentes levam da sua própria casa e daquele com que improvisam substituições do que seria recomendável.É por isto que a palavra espanto se associa, na minha mente, a espantalho: “um boneco, feito de roupas velhas e chapéu, podendo ou não ser recheado com trapos, palha, estopa ou outros materiais, que é colocado com o objetivo de espantar, simulando a presença do ser humano.”

 

Haverá algum “espantalho” a afastar, não as aves, mas os seres humanos das Comunidades Educativas (e a Sociedade em geral) da realidade do 1.º Ciclo?

 

 

Professora Fátima Ventura Brás

2 COMENTÁRIOS

  1. Como diretor de um Agrupamento, também fiquei espantado quando soube disso. Como é possível que não haja equipamento básico para a lecionação de Expressões, na vertente de Educação Física, ou Atividade Física e Desportiva das AEC? Não sei de quem será a responsabilidade, pois não me cabe saber, mas sei de quem é no meu Agrupamento, se faltar material didático: minha! Sim, pois compete-me saber o que necessitam os docentes para desenvolver o seu trabalho e fazer tudo ao meu alcance para lhes providenciar isso. Não é fácil e não é possível satisfazer tudo. Mas há prioridades, e está é uma delas.
    A minha responsabilidade só é colmatada se os docentes não referirem a necessidade, pois, não sendo do 1º ciclo, não sei das suas necessidades. Mas não há sempre alguém do 1º ciclo nas direções?
    Imperdoável! (Com raras exceções, justificadas)

  2. Não posso deixar de lhe enviar os meus mais sinceros cumprimentos, por ser um Diretor que assume a sua responsabilidade e frontalmente admite que gostaria de suprir as “dificuldades”das Escolas do Agrupamento que dirige. Creia que essa postura é difícil de encontrar.
    Se não houve mudanças desde que coordenei uma EB/JI, cabe à Autarquia o apetrechamento dessas escolas.
    Se os Conselhos Gerais funcionassem devidamente, com representantes do 1.º Ciclo e Educação Pré Escolar, bem como da Autarquia, certamente que a realidade seria outra. Digo eu, que pouco sei, que só tenho a mania, como me atirava à cara o meu EX-diretor.

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