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Escolas: não acaba a burocracia do bastão piloto ou do cabo de vassoura?

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Muita gente se vai ofender por comparar sistemas de funcionamento de escolas a casas de banho de áreas de serviço ou sistemas arcaicos de segurança.

Comecemos pelas situações comparadas.

Os caros leitores deste blogue já devem ter ido a casas de banho de áreas de serviço em que, amarrado à chave, está um bocado de um cabo de vassoura. O cabo de vassoura está lá para garantir que ninguém, esquecido ou de propósito, coloca a chave no bolso e arranca pela autoestrada, impedindo o uso dos sanitários aos aflitos seguintes. É um sistema quase infalível de segurança. Primitivo, pouco higiénico, mas eficaz. Ate se pode apanhar uma infeção urinária de mexer no chaveiro, mas dificilmente a chave há-de desaparecer.

O cabo de vassoura incomoda e garante a segurança da chave.

Uma história mais arcaica. A Ponte D. Maria II no Porto é considerada um prodígio da engenharia e, em termos de segurança, a sua história foi exemplar. O sistema de segurança que fez com que não houvesse acidentes ou desgraças durante as décadas do século XIX e XX em que funcionou, ligando por comboio Norte e Sul baseava-se num simples pau.

Um dicionário de terminologia ferroviária explica com simplicidade do que se trata:

Bastão piloto – “Sistema antigo de gestão de tráfego, constituído pela entrega de um testemunho (bastão piloto) ao maquinista de um comboio que fosse entrar num determinado cantão. A existência de um único Bastão Piloto garantia que apenas um comboio estaria autorizado a circular nesse mesmo cantão. A travessia da Ponte D. Maria Pia, no Porto (por exemplo), era feita usando o sistema de Bastão Piloto.”

O bastão era vermelho e muita gente lhe deve a vida na angustiante e vertiginosa viagem Gaia-Porto.

O bastão era um encargo que, só se fosse passado a outra pessoa, lhe permitia dar o passo seguinte.

Nas escolas ainda se usa o pau de vassoura ou o bastão piloto, pau vermelho metafórico, mas mais arcaicos do que os que falei acima. Os de cima baseiam-se numa lógica de falha difícil. Os das escolas são falíveis, mas alguém tem a crença que não.

Imaginem uma situação: num destes dias um professor vai acompanhar os alunos numa visita de estudo.

Por causa disso, não dá aulas às turmas que não foram à visita de estudo. Foi assim marcada uma falta porque, pelos vistos, até estará escrito no regulamento interno que, quem vai em serviço acompanhar alunos a visitas de estudo, tem falta. Do ponto de vista estritamente legal (que é o que interessa), não faltou, esteve ausente em serviço.

Falta é quando se está ausente por vontade própria que, por isso, se tem de justificar (comunicar quais são, para ser verificado se são aceitáveis). Naquele dia, o professor estava a trabalhar, porque alguém o mandou (até, às tantas, trabalhou mais que o que faria se estivesse na escola) mas pelos vistos terá, em muitas escolas, de entregar um papel de justificação da “falta”, que não o é.

Isto para quem controla, conseguir distinguir quem não dá aulas por causa de visitas de estudo de quem falta mesmo. É um sistema arcaico do que, em gestão de qualidade, se chamaria contagem de defeituosos.

E porque alguém só assim controla é que, sempre que há visitas de estudo, dezenas de professores têm de preencher dezenas de papéis inúteis a justificar aos dirigentes o serviço, que eles próprios marcaram, e, por isso, deveriam ter conhecimento, sem perguntar e sem mais papéis.

Naquele dia, o professor não deu aulas às turmas, que não foram à visita, porque alguém (os dirigentes da escola), decidiu que não as devia dar, fazendo outro serviço, mas tem de justificar o efeito da ordem, que cumpriu, a quem legalmente a deu e que devia saber o porquê dos seus efeitos.

Pelos vistos, em algumas escolas, os alunos também têm de justificar as faltas, quando estão nas visitas. Tanta justificação injustificada, com custos e canseiras.

Mentalidade parecida com o cabo de vassoura da área de serviço. A mesma que, por exemplo, faz com que se tenham de reescrever folhas de rosto de atas de avaliação, quando um docente está a ser substituído em relação à ata anterior, incluindo nelas o nome do substituído e do substituto, para que, quem controla, consiga saber exatamente quem falta (tendo sido a pessoa que promoveu a substituição e, por isso, devia saber).

Uma coisa que se resolvia com uma listagem centralizada, e algum tempo de verificação, de quem tanto quer controlar, implica tempo precioso (que bem útil seria a outras coisas) a todos os executantes, para reorganizarem folhas de presença de dezenas de atas. Algumas delas são deitadas ao lixo por causa dos enganos (que os vetustos sistemas informáticos potenciam). E não falemos dos custos do próprio controlo. A mim, isto faz-me sempre lembrar um colega que geria um serviço de fotocópias e que obrigava os funcionários a contar as folhas de papel que estragavam. A dada altura, descobriu que estragavam mais por causa da pressão de contarem o que estragavam.

Estão a ver onde está o cabo de vassoura? Em vez de realmente se resolver o problema de controlar as faltas, através de mudanças estruturais na lógica burocrática (gestão da informação, senhoras e senhores), adiciona-se um obstáculo e um encargo inútil para quem executa e para o resultado final do processo. É como receber um pau vermelho para que se consiga controlar…. A diferença é que o bastão piloto da Ponte só tinha um utilizador e funcionava bem por isso.

No século XIX, ou na área de serviço, essas são soluções expeditas e até criativas. Num serviço público em que o processo assim gerido está muito disseminado, o suposto poka-yoke (dito de forma muito simplista: controle embutido no processo), na verdade, é só um complicómetro que, com toda a probabilidade, falha. E se falhar uma única vez é como se falhasse sempre.

Se o professor não entregar o papelinho a justificar a falta, será que alguém vai conseguir mesmo injustifica-la para o obrigar a fazer o ato inútil? Como a administração pública tem princípios, duvido. Mas a possibilidade de não o fazer torna o sistema falível e, por isso, inútil.

Quando chegará às escolas a desburocratização que este governo diz ser o seu “desígnio”? Ou melhor, quando diminuirá a burocracia diletante e autonomamente inventada nas escolas? A ponte D. Maria II funcionava bem com sistemas assim artesanais. Mas foi antes dos computadores e de se começar a estudar gestão ou investigação operacional. E algum estudo mostraria que, claramente, a lógica do cabo de vassoura e do bastão piloto não se aplica assim a processos com tanta gente, tanta informação e tanta complexidade.

Luís Braga

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5 COMENTÁRIOS

  1. Isto é do tempo em que as faltas dos professores eram marcadas pelos contínuos com o zeloso carimbo vermelho no livro de ponto.
    Hoje, os sumários são escritos on line…
    Assim, tenho dúvidas quanto à existência de escolas em que ainda se tenham de justificar faltas por estar a trabalhar.

  2. Deixei de levar/acompanhar alunos a visitas de estudo desde que a burocracia destas visitas atingiu o auge da burocracia e desde que, se acompanhasse as turmas, teria falta.

    Dizem-me que a alternativa seria agendar as aulas não dadas a combinar com alunos e EEs e /ou permutar com algum colega.

    Ora, quem está nas escolas, sabe que ambas estas alternativas são difíceis de conseguir dado os horários dos alunos e dos professores.

    Temos pena. A sério.

  3. É claro que situações destas não acontecem em todas as escolas. Penso que acontecem em escolas onde a direção é incompetente (pedagógico/administrativa) e / ou os professores também não têm “à vontade” para fazerem os dirigentes entender que este procedimento é incorreto e chato para todos e para todo o tipo de ambiente. Na escola onde trabalho as pessoas vão a uma visita de estudo ou outro trabalho fora da escola, sumariam, informam, etc. O importante é o diálogo. Muitas coisas não têm a ver com os ministros, mas sim com quem está muito perto de nós.

    • O importante é o diálogo quando há inteligência, bom senso e confiança.

      Quando nos remetem para o ECD ou para um Código Administrativo qualquer, é complicado.

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