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“Escolas Gastam Milhares De Euros Em Bolos E Chocolates” – Faltou Dizer O Resto…

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Ponto prévio, as escolas devem reger-se pelos princípios básicos de Educação, nomeadamente na alimentação escolar. É um contrassenso ensinar-se a roda dos alimentos, ter ementas saudáveis, realizar ações de sensibilização e depois ter máquinas de venda automática dentro do recinto escolar ou disponibilizar doces e afins no bar da escola.

Mas também é verdade que esta contradição escolar resulta de uma profunda hipocrisia social. Desde os meus 6 anos que frequento escolas, são mais de 35 anos de experiência escolar, e em todas elas constatei que nas suas proximidades existe um café, uma pastelaria, ou um quiosque carregadinho de açúcar prontinho a ingerir.

Se a sociedade quer mesmo afastar o açúcar das nossas crianças, faça o que lhe compete, comece por eliminar estes estabelecimentos em frente às escolas, reduza a quantidade de porcaria deliciosa que existe nos supermercados e que os pais partilham em casa num maravilhoso festim de açúcar familiar.

A escola pode perfeitamente optar por ser light, mas se tudo continuar como está é apenas uma questão de tempo para que os alunos criem uma pequena economia paralela ao “bom” estilo da série Narcos

Fiquem com a notícia do DN

Alexandre Henriques


Escolas ignoram orientações e gastam milhares de euros em bolos e chocolates

“Dado que o bufete escolar constitui um serviço complementar ao refeitório, de fornecimento de refeições intercalares aos alunos (…), deve observar os princípios de uma alimentação equilibrada e promotora de saúde. Solicitamos às direções das escolas (…) que façam cumprir estas orientações.” Já passaram seis anos desde que a Direção-Geral da Educação, em colaboração com a Direção-Geral da Saúde, publicou as orientações para uma alimentação saudável nos bares das escolas, com uma lista de produtos a não disponibilizar aos alunos e que impunha às direções, “tanto quanto possível”, que fosse cumprida. Mas há largas dezenas de escolas públicas que continuam a ignorar as regras publicadas em 2012 e ainda gastam milhares de euros em produtos como chocolates, refrigerantes, bolos, bolachas e até pastilhas e rebuçados.

Só no último mês, foram publicados mais de 30 contratos no Portal Base – o portal da contratação pública – para aquisição destes produtos para agrupamentos de escolas. E as descrições deixam poucas margens para dúvidas, com os chocolates, os biscoitos, as bolachas, os sumos ou o leite achocolatado a dominarem. No total, só num mês, os gastos com produtos a evitar superaram os 300 mil euros.

É possível encontrar no portal da contratação pública casos em que foram comprados gelados, pastilhas e rebuçados para escolas de norte a sul

“Oferecemos de facto bolos com creme e chocolates, mas tentamos que seja residual”, reconhece ao DN o diretor do agrupamento de escolas de Arcozelo, no Minho, que no final de dezembro publicou dois contratos para aquisição de bolos, chocolates e sumos. Manuel Amorim argumenta que a escola encontra-se numa zona rural, sem grande oferta à volta, “portanto, enquanto se tenta controlar estes produtos, não os podemos eliminar completamente”. Mas a questão impõe-se: porque não usam essa falta de oferta no exterior para promover uma alimentação saudável? “É difícil, é uma questão cultural, se não tiverem aqui vão procurar noutro lado”, responde o diretor.

“É uma hipocrisia”

Ainda precisamente há um mês, o Conselho Nacional de Saúde (CNS), no seu relatório “Gerações mais saudáveis”, denunciou que a maioria das escolas não cumprem a proporção entre produtos a promover e a limitar. A percentagem das que cumprem as regras é mesmo absolutamente residual: “Um estudo recente, com uma amostra de 156 escolas públicas e cinco escolas privadas a nível nacional, revelou que somente 1,3% respeitam a proporcionalidade de 3:1 entre géneros alimentícios a promover e géneros alimentícios a limitar.” Apesar destas conclusões, o presidente do Conselho de Escolas considera que a maior parte dos agrupamentos já cumprem as normas. José Eduardo Lemos diz que os produtos “a não disponibilizar” já foram banidos da maioria dos bares, embora a análise aos contratos celebrados neste ano mostre o contrário. É mesmo possível encontrar casos de compras de gelados, pastilhas e rebuçados para os bares de escolas de norte a sul do país.

O facto de na Educação existirem apenas orientações nesta área, ao contrário da Saúde, em que está em vigor um despacho que proíbe a venda destes produtos nas instituições do SNS, parece ser uma das razões para o desrespeito das regras. Porque é de regras que falamos, frisa o diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, que fez a revisão científica do documento de 2012. “Não é por falta de uma lei nesta área que muitos destes produtos continuam a ser oferecidos. Porque há um equivoco quando se diz que estes produtos já são proibidos nos estabelecimentos do SNS e nos da Educação não. Existe um regulamento e a mensagem dos meus colegas da Educação é que ele é para cumprir. Os diretores têm a obrigação de o respeitar, se não o fizerem estão a infringir a lei”, defende Pedro Graça.

Diretores que contam ao DN que há muitas escolas que continuam a ter máquinas automáticas – responsabilidade das empresas, mas que devem obedecer às mesmas orientações – que oferecem produtos que deviam ser riscados dos menus. “Há mais escolas a oferecer estes produtos em máquinas de vending e nunca vi nenhuma a ser punida. Têm apostado nessas máquinas até como forma de contornar a falta de funcionários para os bufetes”, relata um diretor. As orientações às escolas sublinham que, no caso de existirem máquinas de venda automática, a seleção “deve obedecer exclusivamente às características dos géneros a promover”. Os produtos a limitar, bem como os a não disponibilizar (ver ao lado), “não podem fazer parte do portfólio das máquinas de venda automática”.

Só 1,3% das escolas respeitam a proporcionalidade de 3 para 1 entre produtos alimentares a promover e a limitar apenas nos preços praticados

Em média, a Inspeção-Geral da Educação e Ciência realiza todos os anos mais de meia centena de auditorias nesta área, informa o Ministério da Educação, que acrescenta que as máquinas de venda também são fiscalizadas para perceber se “estão acessíveis aos alunos ou apenas aos trabalhadores incluídos nos corpos docentes e não docentes”. Em caso de necessidade são feitas recomendações. O gabinete de Tiago Brandão Rodrigues saliente que, no caso dos contratos que envolvem sumos, podem não ser refrigerantes. “A título de exemplo refira-se um caso verificado no ano passado em que num agrupamento o objeto a contratar foram sumos de fruta.” No entanto, convém salientar que alguns dos contratos publicados no Portal Base dizem respeito a uma das maiores empresas nacionais de refrigerantes.

Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, reconhece que a erradicação de doces nas escolas não está atingida, “embora se note uma melhoria e estas coisas não possam ser feitas por decreto, nem se conseguem de um momento para o outro”. Mas seis anos não é tempo suficiente? “Há de facto um caminho a percorrer e é um assunto que preocupa as escolas, até na Educação para a Cidadania abordamos essas questões.” Segundo dados divulgados pelo estudo do CNS, 8% das crianças portuguesas são obesas e 20% estão em situação de pré-obesidade.

Filinto Lima lembra que a sociedade tem de ajudar a escola a cumprir este objetivo e critica “a hipocrisia” em torno do tema. “Nós não oferecemos estes produtos, mas à porta da minha escola [em Gaia] há um café onde os alunos podem comprar por meia dúzia de cêntimos todos esses alimentos, que trazem para a escola. O esforço tem de ser da comunidade.” O Parlamento está desde 2016 para alterar o Código da Publicidade, que tem como objetivo proteger as crianças do marketing sobre alimentos com excesso de açúcar, sal ou gordura. Uma das questões ainda em discussão é a que distância deve ficar a publicidade destes alimentos das escolas.

Alimentos a promover:

– Laticínios; fruta; hortícolas; pão (sandes sempre enriquecidas com hortícolas); água; monodoses de fruta líquida com semelhança nutricional à peça de fruta; sumos de fruta naturais, a espremer no momento; sumos 100%, sem açúcares e/ou edulcorantes adicionados; bebidas que contenham pelo menos 70% de sumo de fruta e/ou hortícolas sem açúcares e/ou edulcorantes adicionados; tisanas e infusões a promover.

– Leite simples, meio-gordo branco; iogurtes naturais; iogurtes líquidos ou sólidos sem presença de edulcorante; queijos com um teor de gordura não superior a 45%..

– Na fruta: fruta da época e de produção local; fruta com origem num dos seguintes modelos: produção integrada (PRODI), proteção integrada (PI), modo de produção biológico (MPB), denominação de origem protegida (DOP), indicação geográfica protegida (IGP); fruta não processada e/ou transformada. A fruta e o leite poderão ser misturados em batidos, sem adição de açúcar.

– Relativamente ao pão, dar preferência a: Pão de mistura; elaborado com farinhas escuras.
As sandes devem ser, sempre que possível, enriquecidas com hortícolas ou outros géneros
(alface, tomate, milho, rúcula, cenoura, pepino, beterraba, couve-roxa, couve-branca, aipo, ervas
aromáticas…).

– Poderão ainda conter: queijo (curado ou fresco),
fiambre (de preferência de aves), ovo cozido pasteurizado,
atum (de preferência conservado em água), carne assada (desde que as condições o permitam).

– A água deve estar sempre disponível, de forma gratuita e de fácil acesso.

– Relativamente aos sumos de fruta, 100% e às bebidas que contenham pelo menos 50% de fruta e/ou vegetais, a dose de referência deve ser até 250 ml. Nas monodoses de fruta líquida, a dose de referência deverá ser até 110 ml. Estes produtos deverão ter um teor de fruta maior ou igual a 70%, sem adição de edulcorantes, açúcares e corantes.

Alimentos a limitar:

– Barritas de cereais, com valor energético inferior ou igual a 100 kcal por dose/unidade; unidoses de cereais de pequeno-almoço com cereais integrais; bolos com ou sem creme (inclui-se neste grupo bolo de arroz, croissant não folhado, lanche/merenda, pastel de nata, queque…); manteiga; cremes para barrar com baixo teor de lípidos e isentos de ácidos gordos trans; marmelada e compotas com teores de fruta de pelo menos 50%; gelados de leite e/ou fruta e sorvete; néctares de fruta com um valor de fruta entre os 25% e os 50%; chocolates, preferindo aqueles com maior teor de cacau, sem recheios, em embalagens de até 50 g e num máximo de três variedades; bolachas/biscoitos – a porção de referência deverá ser inferior a 56 g.

– Deverá ser dada preferência a bolachas secas, sem cremes nem recheios, do tipo maria/torrada, integral (de trigo), água e sal, cream craker.

– Barrita de cereais – a porção de referência deverá ser inferior a 56 g.

– Cereais de pequeno-almoço em embalagens ou porção até 45 g.

– Bolos à fatia. A porção de referência deverá ser de 84 a 112 g. Deverá ser dada preferência a bolos confecionados na própria escola, onde os elementos responsáveis pela manipulação e confeção de alimentos deverão ter o cuidado de minimizar o teor de açúcar e o teor e tipo de gorduras recomendadas. Estes bolos podem ser enriquecidos com alguns sumos ou raspas de fruta, bem como pequenas doses de frutos secos.

– No caso de ser um produto embalado, e havendo dúvidas relativamente ao valor energético, bem como ao teor de alguns nutrientes, o género não deverá ser disponibilizado no bufete. Caso o fornecedor pretenda implementá-lo, deverá fazer prova de que cumpre com os limites impostos, através de comprovativo de laboratório de análises de reconhecida competência.

– Gelados de leite e/ou fruta e sorvete. A porção de referência deverá ser até 100 g. Estes produtos não deverão ultrapassar os valores de referência de 190 kcal por dose/unidade.

– Néctares. A porção de referência deverá ser até 250 ml.

Alimentos a não disponibilizar:

– Salgados, tipo rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau, chamuças, pastéis de massa tenra.

– Pastelaria: palmiers, jesuítas, mil-folhas, bola-de-berlim, donuts.

– Charcutaria: chouriço, salsichas, entre outros produtos de charcutaria ricos em lípidos e sal.

– Molhos: maioneses, ketchup, condimentos de mostardas e outros molhos.

– Refrigerantes, incluindo as bebidas com cola, ice tea, águas aromatizadas preparados de refrigerantes, bebidas energéticas e bebidas desportivas.

– Gelados de água.

– Doces tipo marmelada, geleias e compotas com teor de açúcares superior a 50%.

– Guloseimas: rebuçados, caramelos, chupas, pastilhas elásticas e gomas.

– Snacks: tiras de milho, batatas fritas, aperitivos e pipocas doces ou salgadas.

– Refeições rápidas: hambúrgueres, cachorros quentes e pizas.

– Chocolates em embalagens superiores a 50 g.

– Bolachas e biscoitos com cobertura e/ou recheadas, bem como as secas que contenham por cada 100 g um teor de lípidos superior a 20 g e/ou um teor de açúcares superior a 20 g.

– Refrigerantes deverão ser eliminados do bufete escolar.

Fonte: DN

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