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Escola, fábrica, prisão…

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São três estruturas com funções muito diferentes, mas que têm semelhanças:

— Existem grades a delimitar o recinto e cartões de identificação para possibilitar a entrada dos alunos/funcionários. São a demonstração da cultura do medo e do pânico, desacreditando a comunidade, esperando dela o pior e fazendo com que ela se identifique com o que é mau e negativo. Como educador, fico desolado quando saio da escola e vejo alunos pendurados nas grades, a imagem que me vem logo à mente é de uma “escola-prisão”.

— Os horários são definidos em função de “produzir”, de “alimentar-se” e de “conviver” com os outros alunos/reclusos, sempre sob a vigilância de assistentes e professores/guardas. A quebra dos horários é um tabu tão enraizado que quando desrespeitado resulta em penalizações para todos os envolvidos.

— As recompensas resultam de uma avaliação matemática de parâmetros infinitos a cada trimestre. Quando chega, parece sempre insuficiente, comparado com o esforço necessário para as atingir. Parece que não vale a pena estudar/trabalhar para superar-se.

— Aqueles que relevam facilidade neste meio escolar/fabril e demonstram um comportamento pacífico têm o percurso facilitado, principalmente aqueles que não questionam o sistema. Os outros cumprem “penas” agravadas anualmente, sem perceberem como podem melhorar ou o que podem fazer para ultrapassar as dificuldades emocionais de serem alunos/funcionários incompreendidos.

— Todos na escola/fábrica estamos obrigados a produzir o máximo possível com o mínimo de investimento do estado e da sociedade.

— Também temos os Diretores, que são os gestores e juízes dos percursos dos alunos/funcionários/reclusos. Representantes da autoridade do estado, apesar de serem “escolhidos” indiretamente pela comunidade.

A revolução ainda não chegou à escola…

Tivemos revoluções industriais, políticas, culturais, sociais, tecnológicas… Mas a revolução educativa ficou por fazer.

Depois da revolução industrial, a escola copiou o modelo de trabalho das fábricas e pouco refletiu sobre isso. Ficámos habituados às rotinas paralelas entre adultos e crianças. Estou certo que existem experiências educativas com sucesso e muito interessantes, mas a escola continua a ser uma das instituições mais conservadoras da sociedade.

Quem ouvir os professores, pensará que estão ansiosos pela mudança, mas as rotinas da “escola-fábrica” e as falsas mudanças, tem deixado os docentes presos às suas próprias rotinas. Desmotivados por uma sociedade que olha para a escola como o bastião do conservadorismo. Talvez porque apenas conhecem essa realidade!

Nós, professores, ficámos sozinhos nas nossas “escolas-ilhas”, à deriva nas nossas lutas emocionais e existenciais.

Até quando vamos continuar a privar os nossos jovens de perceberem melhor os acontecimentos globais; as diferenças culturais; o funcionamento do estado democrático e os seus elementos políticos; a sua sexualidade e a dos outros; as religiões no mundo e os seus fundamentos; a proteção do ambiente e das espécies; a educação para o consumo e tantos outros assuntos?

A revolução na educação tem de acontecer brevemente. Com a globalização, as comunidades estão em transformação e para termos sucesso precisamos de uma escola que ajude a criar um modelo social e económico mais justo, com menos assimetrias e mais equilibrado.

A sociedade pode ser construída da escola para a comunidade.

A escola não pode continuar a ser uma caixa de ressonância de interesses instalados, que formatam os nossos jovens para o trabalho industrial que já não existe.

Gonçalo Gonçalves

Professor do 1.º ciclo

2 COMENTÁRIOS

  1. … é decididamente a vida , por vezes , é uma coisa ”chata”, também a escola, e no final… morre-se…
    Se eu estou contente com o facto de falecer, e doutras duras verdades, como instituições com normas factos que resultam de uma evolução, que não vem do tempo da Revolução Industrial, mas de bem antes? Não, por vezes não estou… Mas passarinhos a chilrear e papoilas pelos trigais, vislumbro pouco na história da Humanidade… As grandes mudanças, lamento dizê-lo, sempre se fizeram na ponta da baioneta…
    Não, não tenho uma boa ideia daquilo a que chamam Humanidade e , Comunidade, a única que verdadeiramente aprecio, é a do Luís Pacheco…
    Sim a globalização está aí … e o Mundo, como seria de esperar, como é tudo mais acelerado, está um ”lixozinho” um pouco maior…Quanto a preparar os jovens para um mundo que não existe… O meu, onde fui criado, quase não existe, infelizmente… Era, como quase todo o país, de velhos e honrados agricultores… Agora o que pedem à Escola , à nova escola, é de um conhecimento do poucochinho; com indivíduos preparados para mudar de emprego a cada mês; que dominam ferramentas eletrónicas; que serão substituídos por máquinas; que lhe oferecem meditações e tolices várias para poderem ser mais escravos e sofrerem menos…
    Já agora… este mudança de paradigma, que muitos vêm como ” amanhãs que cantam ” é altamente patrocionada pelas grandes multinacionais, ligadas ao negócio digital… São uns bons samaritanos…
    Os analistas prevêem convulsões monumentais, num futuro , não muito distante; acumulação de capital em cada vez menos indivíduos; menos acesso ao conhecimento humanista; ressurgimento do belicismo exacerbado por mor da tecnologia; precarização absoluta do trabalho…É por isso, e não por amor às criancinhas, que na fria Finlândia, e não por amor aos novos paradigmas e às criancinhas, que se estão arrumar os professores a um canto…. e a formar cidadãos onde tudo é ainda mais perecível e incerto… E está escrito Dis o grande guru do país nórdico: Pasi Silander:
    “Young people use quite advanced computers. In the past the banks had lots of bank clerks totting up figures but now that has totally changed. We therefore have to make the changes in education that are necessary for industry and modern society.” Uns humanistas libertários, como se vê…

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