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Em defesa dos professores (dedicado a comentadores e jornalistas deste país)

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Quem tem lido as notícias nos últimos tempos, fica com a sensação que são os professores os maus da fita, que vão levar o país a novo resgate e que até obrigaram à passagem de 1% do défice, para 1,1% do défice, previsto no OE de 2018. O que os jornalistas/comentadores não dizem, é que esta subida deve-se aos incêndios e não aos tão falados 600 milhões (que retirando os impostos não passa dos 400 e pouco) que nem sequer vão constar no OE de 2018, algo que até o Presidente da República CONFIRMOU à hora de almoço.

Questionado sobre o facto de o líder parlamentar do PS, Carlos César, ter estimado que o défice de 2018 aumente de 1% para 1,1% do Produto Interno Bruto, o chefe de Estado respondeu:

“Mas, isso não é por causa de nenhuma revindicação social. É por causa de uma situação trágica e os portugueses percebem que era preciso acorrer às tragédias de junho e de outubro”.

A capa do DN é apenas mais um exemplo que ilude o povo com algo que não irá acontecer. Em 2018, não vão ser repostos os 9 anos e qualquer coisa de congelamento, mas a capa dá a entender que sim.  Compreendo que seja preciso vender jornais e que os professores ajuda(ra)m e de que maneira a combater o défice do país, só é pena que os professores não consigam combater a falta de seriedade de alguns jornalistas e comentadores de serviço…

Fica a respetiva notícia e um excelente artigo de Cassilda Coimbra, que mostra toda a sua indignação e que seguramente é transversal a dezenas de milhares de professores.


Quem foi acompanhando a verborreia do que se disse e se continua a dizer sobre os professores só pode chegar a uma simples conclusão: existe um grave problema educacional no nosso país.

Se fiquei demasiado incomodada com a ausência de um jornalismo isento, objetivo e de investigação e com os discursos politizados, hipócritas e populistas de um número considerável de jornalistas, comentadores, deputados e professores universitários privilegiados, fiquei ainda mais chocada com o argumento que o Estado não deve proteger, nem honrar e cumprir o contrato com os seus trabalhadores face ao esclavagismo e exploração reinantes no setor privado. Este discurso seria insignificante, se não tivéssemos assistido aos aplausos e à sua réplica na boca de muitos portugueses, que continuam incapazes de refletir sobre as verdadeiras razões para a sua atual situação e que preferem apontar o dedo a quem continua a pagar, a peso de ouro, uma bancarrota para a qual não contribuiu.

Para os menos esclarecidos e para os muitos autodidatas que aprenderam tudo com o Google, que tal começarem a fazer contas aos resgastes da banca, às PPP, aos sacos azuis, às derrapagens orçamentais das obras públicas, à gestão danosa das autarquias, às empresas estatais, às subvenções, subsídios, ajudas de custo, reformas vitalícias, aos institutos e fundações, comissões de consultadoria e de estudos, aos vales de educação para a compra de plasmas, ao custo dos subsídio dependentes, à fraude fiscal, à economia paralela, à corrupção, às insolvências empresariais sem consequências, ao aumento do número de milionários e a todas as “borlas” para um sem número de portugueses, pagas por aqueles que sustentam o aparelho fiscal. Já que estamos numa de matemática, os professores contribuíram, nestes últimos sete anos, para a recuperação do país, com a módica quantia de 8 mil milhões de euros, que tal averiguarem, qual foi o montante pago pelo setor privado ou pelos deputados e esclarecidos deste país.

A luta dos professores não é uma luta de uma classe de privilegiados, centrada no seu umbigo, cega e alheia à situação do país e à falta de condições dignas de sobrevivência de milhares de portugueses. Ninguém melhor do que os educadores dos vossos filhos conhece as dificuldades com que muitos vivem no dia a dia, da mesma forma que conhecem todos aqueles que, no meio de vós, abusam do sistema e dos sacríficos dos outros, em seu benefício. Durante todo este tempo, os educadores sujeitaram-se aos cortes salariais, ao aumento brutal de impostos, ao nomadismo, à precariedade, ao desrespeito do seu horário de trabalho, com o acumular de funções, mas em nenhum momento deixaram de ensinar com o mesmo brio, de implementar todas as reformas fantasiosas dos ME, de atender às necessidades de todas as crianças e jovens, de responder aos desafios da escola a tempo inteiro, de inovar nas salas de aula com os seus próprios recursos, pagos do seu bolso, sem nunca lhes ter sido dado um cêntimo para pagar um lápis, de dinamizar atividades e visitas de estudo, fora do seu horário de trabalho, sem recorrer ao pagamento de qualquer hora extraordinária e de se continuarem a formar sem o apoio da entidade patronal. Se a classe docente não se manifestou mais cedo, não foi por resignação, mas por ter o entendimento e a sensibilidade que a recuperação do país exigia o esforço de todos e a expectativa legítima da reposição das condições contratuais firmadas com o Estado, no momento em que tal fosse possível. Contrariamente à desinformação e aos discursos ignorantes veiculados pelos meios de comunicação, alimentados por comentadores que só lhes interessa o dinheiro que metem ao bolso, a agenda reivindicativa dos educadores não se limita à questão financeira, nem a esconder os problemas da formação inicial e o modelo de avaliação dos mesmos. As exigências da classe passam por uma reformulação do modelo de avaliação vigente, exequível, justo e adequado às funções e não como um meio de divisão e de subtração dos direitos contratuais definidos. Compreende ainda a necessidade de se rever a formação inicial de quem acede à profissão e a alteração do modelo de escola à imagem e semelhança das fábricas de operários do século XIX, onde se encontram encarcerados alunos e professores, cobaias dos experiencialismos hierárquicos, fruto de políticas economicistas, com programas extensíssimos, com uma carga horária brutal, sem tempo e espaço suficientes para aprendizagens efetivas e significativas, que tem contribuído para castrar a inteligência, a curiosidade, a alegria e a motivação de aprender das crianças e dos jovens, que tem comprometido o seu crescimento físico e emocional, levando ao aumento exponencial de problemas de aprendizagem e de doenças do foro psicológico, assim como ao agravamento da integridade física e psicológica dos seus profissionais, muitos com uma idade acima dos 50, perdidos no buraco negro da burocratização e na sobrecarga de educar em simultâneo 150, 200 ou mais alunos, tornando impossível salvaguardar o direito universal a uma educação de qualidade a cada criança e, consequentemente, levando ao aumento de guetos educacionais.

Por último, embora ainda tenhamos uma classe impregnada de resquícios de séculos de feudalismo e de 40 anos de ditadura, desenganem-se todos aqueles que pensam que a mesma classe não tem um número significativo de profissionais, que não se encolherá perante os ataques, os insultos, que se deixará enganar com agendas políticas e que continuará a educar os vossos filhos no discurso e na postura de que a exploração, o esclavagismo, o roubo, a falta de ética, a corrupção, a inveja e a mesquinhice fazem parte da normalidade de uma sociedade civilizada do século XXI.

Cassilda Coimbra

7 COMENTÁRIOS

  1. Cara colega.
    Subscrevo inteiramente tudo o que disse.
    Bem haja pelas suas palavras em nome de uma classe profissional que tem sido enxovalhada ao longo dos últimos 25 anos.

  2. Pode explicar como chegou ao valor de 8 mil milhões de euros com que “os professores contribuíram, nestes últimos sete anos, para a recuperação do país” ?
    Obrigado.

  3. …antigamente dizia-se à boca cheia que “só ia para professor quem não sabia fazer mais nada”… passados 26 anos apetece dizer que não interessa que os professores sejam muito espertos… a bem da nação!

  4. É lamentável ir para a televisão falar sobre assuntos que desconhecem e ainda mais ser pago para isso. A culpa é de quem os convida e lhes paga com o dinheiro dos contribuintes, entre eles os professores.
    Quanto ganha um comentador para dizer umas aldrabices e ” incendiarem” alguns portugueses mal informados? Provavelmente ganham mais que um professor. Tenham vergonha!

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