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Educação Inclusiva Com Problemas De Integração

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Passaram duas semanas de aulas e já são vários os sinais que mostram falhas na “integração” de alunos com necessidades educativas especiais em turmas ditas normais. Apesar de ser prematuro fazer um balanço, não é nada positivo o que se está a passar e que está a deixar pais, professores, diretores e alunos, à beira de um ataque de nervos.

Imaginem estar numa sala de aula com alunos com limitações motoras, sociais, ou cognitivas severas. Além de ter de lidar com todos os outros que só por si é um desafio, ter, no mesmo espaço e sem o apoio adequado, um aluno com características ímpares, não é inclusão, é negligência educativa.

O Decreto-Lei 54.º pretende a integração e a ideia até faz sentido, mas para tudo fazer mesmo sentido, deem às escolas os técnicos necessários para trabalhar com estes alunos e não continuem a prometer, adiando o que devia vir de raiz para cumprir com o legislado.

Desculpem a frontalidade, mas é sempre a mesma porcaria para não dizer outra coisa. Mudam as leis, dizem que é tudo muito bonito, pedagógico e moderno, mas condições zero, e quem se lixa são as escolas, os professores e invariavelmente os alunos.

Afinal, querem as escolas para incluir ou pretendem um depósito para alunos com deficiências? E as outras instituições afinal são para quê?

Leiam estes dois testemunhos que retirei do blogue do Paulo Guinote:

Tenho na minha Dt, 10º ano, um miúdo com deficiências físicas, psíquicas e transtornos de comportamento, dificuldades de aprendizagem e problemas afetivos. Tem sido acompanhado por um colega da, agora extinta, Educação Especial, desde há vários anos e fazia, num centro hípico, hipoterapia e Equitação Terapêutica.  Adora cavalos e, no dia da recepção à turma, insistiu em explicar-me o maravilhoso que é lidar com os animais…O agrupamento onde trabalho tem a escola sede a cerca de 200m da secundária. A “sala de atividades” onde, ao que sei, em anos anteriores,ele estava a tempo inteiro (só tinha educação física com a turma) fica na escola sede.

Posto isto, o que lhe está a acontecer este ano?

Não pode ir para o centro hípico porque:

  • já não está com a mesma equipa que o acompanhava (agora tem um professor da Educação Inclusiva a acompanhá-lo e a dar-lhe apoio pedagógico).
  • foi “integrado” graças ao “maravilhoso” 54 na turma, que até o acolheu bem, mas  com quem ele não tem grandes afinidades
  • Anda rua acima, rua abaixo para vir “assistir” às aulas (acompanhado do tal professor) e está a ter Inglês (que nunca teve em todo o percurso escolar)…Filosofia (que nem sonha o que é) entre outras disciplinas do currículo do secundário que são completamente paralelas aos seus interesses.

O ano ainda agora começou e ele já está revoltado. Os pais dizem que chora porque não quer ir para a escola e, nos últimos dias já teve falta a algumas aulas. E só estamos em setembro!

Espero que a curto prazo seja revista esta situação e que o processo volte a ser avaliado pela equipa. Tudo tenho feito para que isso aconteça. Os pais já estão a ser envolvidos…

Isto não faz qualquer sentido…

E nem por acaso, hoje o jornal Público dá grande destaque ao assunto. Ficam alguns excertos.

Pressa na mudança de regime deixa muitos alunos com necessidades especiais sem apoios

Não percebe metade do que vai anotando, já que não tem ninguém especializado a seu lado que o ajude a descodificar o que o está ser transmitido”

“Há escolas onde abruptamente enviaram os alunos autistas para as salas de aula, sem apoio individualizado”

Alunos com necessidades especiais aumentaram 41% em seis anos

Entre 2012/2013 e 2017/2018, o número de alunos identificados como tendo necessidades educativas especiais (NEE), um conceito que foi extinto pelo novo regime da educação inclusiva, instituído em Julho de 2018, sofreu um aumentode 41%, passando de 62.100 para 88.023.

Este aumento tem sido atribuído em parte ao alargamento até aos 18 anos da escolaridade obrigatória, que começou a ter efeitos na prática em 2012/2013, o ano em que o primeiro grupo de alunos abrangidos por este prolongamento chegou ao ensino secundário.

Educação inclusiva: Perguntas e respostas

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3 COMENTÁRIOS

  1. Este post mostra que os profissionais não sabem o que andam a fazer:
    – nem a prezada DT sabe que a Educação Especial não foi extinta – continua e continuarão a existir os vários grupos do 910, 920, 930 – saberá porquê? A Educação Inclusiva é uma nova cultura escolar e não um grupo de recrutamento!
    – nem o grupo de Educação Especial dessas escolas saberá então operacionalizar as medidas do novo diploma para colocarem situações extremas em sala de aula, com as disciplinas mais absurdas.
    Lamentavelmente, estas situações polvilham a net e dão a triste imagem desses pobres
    profissionais que mancham os demais.
    Na minha escola, ninguém está sem o apoio e não são os papeis novos que teremos de fazer que inviabilizam que os alunos tenham esta ou aquela medida mais adequada e que isso esteja em curso… E depois os casos ex-CEI que continuarão com adaptações curriculares significativas têm (?) pelos menos os técnicos do CRI – agora se estes já não querem (! “pelo dever estrito do 54” !!!) fazer a terapia que faziam, aí sim estamos diante de um problema que o ME não contemplou deliberadamente… e a ser assim justifica-se a sua existência? Consultoria? As escolas sempre o fizeram em momentos formais e informais! Então entrem as clínicas privadas através da segurança social! Então entrem as assistentes sociais para fazer a ponte com as entidades e encaminhamentos necessários, que os docentes de Educação Especial também já fazem na sua componente não letiva, no âmbito das competências de intervenção plasmadas na legislação da formação especializada. Então repense-se muito bem tudo isto…
    A acrescentar que em ano de concursos em que mudam muitos CT e outros docentes dos outros ciclos – como podem falar em fazer os documentos antes das reuniões intercalares sem os docentes conhecerem os alunos e apresentarem a proposta de medidas à tal equipa multidisciplinar? Ou pensam, de forma utópica e irrealista, que é essa equipa que fará o trabalho todo?
    Ponham as mãos na massa pelos alunos, ponham as cabeças a funcionar!

    E bom ano letivo !

  2. Tenho na minha Direção de Turma, quatro alunos aí abrigo do 54/2018.
    Todos estão a passar por grandes dificuldades de integração e há E.E. que já escreveram a pedirem que as crianças voltem ao regime anterior.
    Tenho lá uma menina, que chora quando tem que vir para a escola, porque apesar de ter sido bem acolhida pelos colegas, está obrigada a frequentar todas as disciplinas.
    É um perfeito disparate! A criança chora porque quer mudar de escola.

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