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E se os 9 anos, 4 meses e 2 dias fossem atualização de rendas de casa?

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Imaginemos a seguinte alegoria:

 

Os professores eram os senhorios do seu tempo de trabalho.

Sendo pagos pelo valor de renda, sem a atualização (que até estava no contrato) durante 9 anos e picos, chegavam a 2018 e só aí podiam voltar a atualizar a renda (no nosso caso, desbloqueavam na progressão, mas só a 100% no final do ano, ainda que tivessem direito a essa totalidade logo em janeiro).

Ficava por resolver o problema das rendas não atualizadas, em 9 dos anos anteriores. Nesses anos, o inquilino, para mais, tinha baixado à renda unilateralmente (no nosso caso, cortou o salário) e até deixou meses por pagar (no nosso caso, cortou subsídios de Natal ou férias).

Na negociação para resolver o problema, o inquilino “cheio de boa vontade de reverter a situação” dizia que, para futuro (e dava-se logo por esquecida a devida não atualização passada), só aceitava reflexos de subida na renda a partir de 2019, de 20% da atualização total acumulada que, por sinal, até já era devida por inteiro (toda) em inícios de 2018.

E logo dizia que, para si, a coisa só ficaria totalmente atualizada lá para 2023 (e sem prometer nada sobre correção do valor monetário ou inflação) e até com umas travagens no curso normal, por via de “umas vagas” que tinha convencido o senhorio a aceitar num jantar de pizzas.

Ou isso ou, ameaçava, com graça e desfaçatez, e uma distintíssima lata de caloteiro, que só pagaria do total 1/5 da atualização mensal devida e só daqui a anos.

O senhorio, se não fosse parvo, pensaria que, em 2023, como diria Keynes, até podia estar morto. 

E que, como o inquilino não queria claramente sair da casa, onde queria continuar instalado até 2023, aquilo era bluff.

Se fosse eu o senhorio desta alegoria, e como fui comerciante tive de fazer negociações destas, respondia a tal inquilino com vernáculo. E só lhe dizia isto: “sabemos que a outros credores anda a pagar doutra forma e não faz propostas indecorosas destas. Desenrasque-se.”

“E, por isso, se acha que só pagará a um ritmo de 20% ao ano, ou só parte do total, esqueça a negociação e prepare-se para mudar de casa e arranjar outra em que o senhorio o ature.” (no nosso caso, “prepare-se para que votemos contra si nas eleições” e, no caso dos ministros e deputados, pelos vistos, isso seria mesmo mudar de casa).

Quem vai esperar até 2023 também espera até depois do período eleitoral de 2019. Aliás, com as habilidades de pagar às nicas acho que, lá para as eleições em 2019, ainda estaremos na carteira só com a promessa de receber. E se se receber tudo, mais depressa que 2023, pressionar pode compensar.

 

Os riscos políticos

Muita gente tem acenado com os riscos de protestar na linha de quem assina a ILC. Mas ninguém fala da evidência curiosa de que, um acordo a 6 anos para resolver os anos perdidos, é perdoar dívida ao Estado (e com um nível de risco moral que, na negociação de dívida pública, toda a gente “sensata”, que comenta na televisão, acha que nenhum credor deve aceitar).

Mas, nenhum governo vai repetir a graça de Sócrates, ao perder a sua maioria absoluta (que o atual governo não tem e, por isso, não pode cantar de galo como se tivesse, porque há-de ficar pinto sem maioria). Isto é, a cantoria de “galito de briga” de pouco servirá ao Governo se acabar por perder as eleições, também por causa deste assunto.

E a esquerda parlamentar até pode achar que aceitamos (e até, pela ação sindical, conseguir levá-lo em frente) o “grande acordo feito na luta” de 20% ao ano até 2023, ou que lhe ficamos muito agradecidos, mas só gente pouco afoita achará que isso sequer é negócio digno do nome (na verdade, acho que é mesmo uma fraude). Fica “não suspenso” o que continua por pagar de 2016 e 2017 até 2023?

É isto que estamos a dizer: a ameaça de que o Governo só pagará 2 anos dos 9 é um papão para fazer convencer a aceitar a solução parcelada a perder de vista.

Os 9 anos são ponto assente e que não se arriscam. A questão é quando. Nós dizemos que pode ser mais depressa que 2023 (se o processo só terminar nesse ano, significa que o tempo de 2016 ficará suspenso mais 7 anos, na prática, para mais, se continuar a treta dos 50%, 75% aos bochechos). E não interessa mudar de escalão todos os anos se se muda atrasadíssimo.

 

Os governantes são inquilinos no poder e nós somos parte do senhorio

O senhorio da alegoria acima podia ter margem de manobra e mandar o inquilino porta fora. Nós temos um poder: usar o sistema político.

Confrontados com um projeto de lei que diz que é para pagar depressa, sem atrasar e sem inventar problemas, os deputados, ou se posicionam e arranjam solução melhor do que as que estão sobre a mesa, ou arriscam o custo político eleitoral da brincadeira.

Muitos grupos socioprofissionais perceberam isto e têm menor dimensão numérica que os professores (seremos uns 130 mil?). Os professores vão na conversa do medo, do receio de que “pode ser pior” e da luta que há de afastar os moinhos de vento imaginários.

Luta também pode ser por o sistema a funcionar e um dos dados desse sistema é que 20 mil cidadãos têm tanto poder de fazer projetos de lei como deputados.

Luta não é uma encenação em que se arremete contra o fantasma dos “2 anos apenas” e se apresenta uma proposta que nenhum credor aceitaria (quanto mais proporia) para reaver os seus créditos sem retroativos.

Proposta que, bem lida, resulta em que um Governo, que disse ía desbloquear a contagem de tempo em 2018, mantém o tempo, prestado já na sua vigência (2016/2017) suspenso até 2023.

Da forma como estamos a envelhecer e como anda o sistema de saúde do país, estaremos sequer vivos e em condição de gozar o fruto do nosso trabalho?

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