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Donald Trump e a Escola portuguesa

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escola1Um texto em jeito de ensaio. Um ensaio eventualmente provocador. Uma provocação à procura de sentidos.

Primeira questão, o que poderá ter a ver uma coisa, Donald Trump, multimilionário norte americano, quase certo candidato republicano à Casa Branca, com outra, com a escola portuguesa, uma realidade à beira mar encrostada, distante e distanciada de qualquer forma de mediatismo individualista? Um assumidamente maniqueísta, a outra social. Um individual e individualista, sectário e xenófobo, a outra, de socialização, integração e tolerância. Faço a pergunta e dou (um)a resposta, tê, pelo menos, duas caraterísticas em comum.

Comecemos por Donald Trump. Donald Trump acaba por ser um símbolo, não sei se máximo, se mínimo, daquilo que os Estados Unidos representam em termos globais, um circo. Festa qb. Frases soltas e aparentemente desprendidas sobre tudo e nada, que ilustram uma ideologia e dão algum propósito a descontentamentos. Algumas figuras que são figurões, compõem a cena, apenas um aparente ramalhete que enfeita o cenário quase que integralmente ocupado pela figura central, ele mesmo, Donald Trump. Instigador de cinismos, prenhe de hipocrisia, cativa com coisas tão óbvias que poucos viram e menos ainda deram conta até que ele se apresentou como inevitável. De algum modo é, bem ao jeito holiwoodesco, o que todos querem ser, rejeitando a figura, um herói anti herói, um vilão no meio dos bons. Rico, negociador implacável, fortemente orientado por objetivos pessoais e económicos, tem à sua volta inúmeros indicadores que provam e comprovam a sua ação, dão corpo às suas ideias.

E a escola portuguesa? Numa encruzilhada entre as dimensões dos afetos e dimensões relacionais que marcaram o último quartel do século XX e os objetivos quantitativos e os indicadores de referência (ou de medida) que têm caraterizado o discurso educativo nos primeiros anos do século XXI. Entre o pretenso convencimento generalizado que a escola faz a diferença com a indiferença de todos quantos a frequentam e moldam. Uma escola que hesita, oscila, dúvida entre afinal o que é importante? Afinal quais as disciplinas estruturantes? Todos indicam uma mão cheia de coisas, ninguém abdica de nada. A escola portuguesa fica estupefacta perante a indisciplina que cresce. Dizemos e reconhecemos, nós, os profissionais da coisa, da escola, que a escola, afinal, é reflexo do meio, da sociedade que temos. Mas já acreditamos, pelo menos alguns acreditaram que a escola podia (e devia) mudar a sociedade. Agora encolhem-se ombros, rendidos que estamos à nossa (ou sua) incapacidade de mudar o que quer que seja. A escola portuguesa surpreende porque ninguém se interessa pela cultura ou pela língua, pela história ou pela ciência, pelas artes ou pelas expressões. Não há interesse, há indiferença. Não há ânimo, nem irreverência, há desânimo e conformismo.

E, afinal, o que é que uma coisa (Donald Trump) tem a ver com outra (a escola portuguesa)? Direi que uma coisa e outra se cruzam em, pelo menos, dois pontos comuns. Num excesso de presentismo e numa certa glorificação do passado como referência.

Ou seja, um e outro representam o agora, o já, o imediato. Nada mais há que presente, o agora, o já. Por outro lado, o passado serve, a um e a outros, como referência de tempos e dias gloriosos, contraponto ao agora, numa assumida contradição do já com o antes. Mas não há futuro, a não ser o regresso ao passado.

Parece que um (Trump) e outra (a escola) apenas tiveram um passado para glorificar, feito de coisas boas e e referências positivas, o presente é que, fruto dos outros, nos entorpece e condiciona.  Um e outro, pelas preocupações que veiculam, pelos discursos que implementam, pelas práticas que promovem, pelas retóricas predominantes, estão prenhes de presente e de vazio. Vazio, na sequência do definido por Lipovestky em a “era do vazio”. Um e outro dão corpo e são suporte, cada qual ao seu modo, à desvalorização da dimensão social e do coletivo (que um país implica e que uma escola pressupõe)., em prol de referências individuais e individualistas.

Um e outro têm em comum o facto afirmarem a “revolução individualista”, isto é, um e outro darem corpo à “(…) erosão das identidades sociais, [a] desafeção ideológica e política, [a] desestabilização acelerada das personalidades”. Um e outro fruto e resultado do desencanto, do desânimo, da indiferença, do deixa andar que logo se vê. Olham o passado como referência, não para avançar, mas para glorificar e, se possível, recuar. Recuar e recuperar o tempo perdido, a glória desfeita, aqueles tempos que servem, hoje, como exemplo.

A escola portuguesa e Donald Trump, ambos coincidem no excesso de presente numa vã glória do passado. Um e outro esquecem o futuro. Por interesse e simples estratégia de esquecer o que temos e onde estamos.

Manuel Dinis P. Cabeça

9 de maio, 2016;

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