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Dicas reais para lidar com o “Rafa”, um aluno indisciplinado!

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Depois de dicas e estratégias, vamos lá tentar ver isto sob o ponto de vista da prática.

 

Hoje gostava de vos falar do Rafael…

 

O Rafael, ou Rafa – como ele gosta de ser chamado, é um aluno de uma turma dita indisciplinada de 7º ano, tem 15 anos e acumula 3 retenções (5º ano e duas no 6º ano).

O aluno é frequentemente indisciplinado, sendo o líder da turma e a sua influência sobre os colegas é bastante notória. Para além de não cumprir as indicações dadas pela professora, por exemplo, passar o que está escrito no quadro ou fazer as tarefas solicitadas, desafia e afronta frequentemente e, por vezes, chega mesmo a insultar e a ameaçar a professora. Levanta-se repetidamente para falar com os colegas ou para lhes tirar objetos. É geralmente ele que incita os colegas a atuar de acordo com as suas indicações e intentos. Apesar de afirmar diversas vezes que não gosta da “forma como a professora dá aula”, por vezes assume o papel de aluno “bem comportado”, mostrando-se atento e interessado. Sempre que isto acontece, começa a denunciar os colegas, dizendo que estão a perturbar e que dessa forma não consegue estar atento. Implora mesmo que a professora atue junto dos colegas, como se pode verificar na situação que ocorreu na semana passada.

A professora questionou os alunos sobre o sistema solar e, nessa sequência fez uma pergunta ao Rafa que parecia estar atento. Ele tentou responder, mas logo de seguida disse ”não me consigo concentrar. Olhe ali uma revista pornográfica, oh stôra não a vê ali?!” Perante a denúncia do aluno, a professora interveio, dizendo para um dos alunos que suspeitou estar na posse da revista: “Vou levar-te à Direção. É uma falta de respeito o que estás a fazer.” Este aluno perante as palavras da professora acusou outro aluno. Estava lançado o caos. Ninguém assumia ser o dono da revista e esta passava de um aluno para outro sem que a professora a conseguisse agarrar. Por fim, um aluno atirou a revista pela janela.

No que diz respeito ao contexto familiar do Rafa, este vive com a mãe, uma irmã e o padrasto. O padrasto é servente de pedreiro e está desempregado. A mãe trabalha como embaladora numa empresa e a irmã, de 11 anos, estuda no 6º ano. Quanto ao pai biológico, este não mantém qualquer relacionamento com o filho. O Rafa diz mesmo que não o conhece. As habilitações académicas do agregado familiar do aluno são baixas. A mãe frequentou o ensino preparatório mas não o completou. O padrasto tem apenas o segundo ano de escolaridade. A encarregada de educação até ao momento, não revela preocupação com as participações disciplinares do Rafa e afirma que no próximo ano letivo o Rafa irá trabalhar.

 

Antes de dizerem que têm muitos “Rafa’s” nas vossas escolas, que comentários e reflexões vos apraz fazer sobre o comportamento deste aluno?

Naturalmente que…

  • O Comportamento do Rafa visa atingir/afrontar a professora;
  • O Rafa reconhece as relações de controlo professora/aluno e possui as regras de reconhecimento;
  • O Rafa é capaz de identificar as atitudes e condutas legitimadas pela professora no contexto regulador da sua prática.

Mas o seu comportamento na aula é desadequado… Então que características comportamentais devemos realçar/valorizar no Rafa?

  • Reconhece o poder legítimo da professora mas tenta subvertê-lo;
  • Sabe como proceder para “enfraquecer” as relações de poder professora/aluno;
  • Mostra consciência que através da atuação em grupo, consegue aumentar o seu poder informal e diminuir o da professora;
  • O desempenho do Rafa parece resultar da ausência de disposições sócio-afetivas favoráveis para a prática pedagógica da professora;
  • O nível de indisciplina em que se enquadravam os seus atos parece ser o resultado de reconhecer, no contexto regulador da prática pedagógica, as relações de poder professor/aluno e atuar de forma a enfraquecer essas relações.

Vamos pensar em hipóteses que possam sustentar e reforçar a reincidência de comportamentos…

  • O Rafa não se identifica com a prática pedagógica da professora;
  • A desvalorização que a família faz da escola é, naturalmente, percecionada pelo Rafa, podendo conduzir à ausência de aspirações/valores relacionados com o discurso escolar;
  • As disposições sociofamiliares, nomeadamente ter uma irmã com menos 4 anos mas a um ano de escolaridade dele, poderão contribuir para o reforço da crença disfuncional de fracasso que, por conseguinte, reforça a manutenção de comportamentos que traduzem essa crença.

Propostas de abordagem:

  • Capacitação e Educação Parental;
  • Evitar que domine o grupo – dependendo da turma pode ser através da estratégia de sentar o aluno sozinho;
  • Tentar falar com o Rafa a sós e em contexto informal – promover a empatia, a compreensão e sentimento de pertença;
  • Voltar a esclarecer/definir regras e consequências para essas regras (incluir o Rafa nestas propostas de forma a responsabilizá-lo e promover o sentido de justiça);
  • Envolver e informar o Conselho de Turma sobre as evoluções, retrocessos e compromissos estabelecidos com o Rafa;
  • EVENTUALMENTE encaminhar para o SPO, contudo este elemento e serviço da escola deve ser usado para consultadoria relativamente ao caso (sempre!).

Não é fácil analisar casos como este… Muito menos (re)pensá-los desta forma, ainda “pra mais” quando se juntam às dúzias dentro de uma sala de aula… mas não nos podemos esquecer que o diagnóstico nunca é igual para todos, portanto as receitas também não o poderão ser.

Antes de diagnosticar, vamos analisar, sem ter pressa para encontrar a solução mágica… e depois sim, perante factos reais e concretos, vamos ponderar linhas de ação adequadas, adaptadas e articuladas entre os vários agentes educativos.

Bom resto de feriado!

(Sou só eu a achar que todas as semanas deveriam ser como esta e a que passou? Este descanso a meio da semana sabe tão, mas tão bem!!!)


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

2 COMENTÁRIOS

  1. E que sugestões de atuação se podem delinear quando o quadro é semelhante ao do Rafa (não o quadro de retenção, mas a atuação em aula), o aluno se encontra no décimo ano, mas o contexto familiar do aluno é exatamente o contrário, embora desvalorize igualmente a escola?

    • Cara Maria Suzana, é muito difícil emitir opiniões sobre estes casos sem ter acesso a outras informações e nesta situação em concreto, as dinamicas familiares.. aliás estas pequenas dicas, não são mais do que pontos de partida para a reflexão de como pegar e analisar os casos. Não é de forma nenhuma um dado adquirido ou certo que funcione sempre e em qualquer situação.
      A falta de uma orientação e projeto de vida, assim como a falta de vinculação à escola, não são problemáticas de fácil resolução. Se lhe fizer sentido, contacte-me e com mais informações tentarei ajudar de forma mais concreta.
      Obrigada por não se conformar com os Rafa’s 🙂

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