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O diálogo inter-geracional está bloqueado e é grave

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Convirá sempre que se fazem análises comportamentais sobre “ nós, humanos”, nunca pensar e muito menos dizer: “no meu tempo é que era bom, é que era certo”.

Por um lado, dado poder não ser “assim tão verdade, quanto isso”, por outro, os tempos evoluem e não podemos recuar, nunca – não podemos guiar um automóvel a olhar sistematicamente para o retrovisor – logo, temos que viver vivemos hoje, mas fazendo a ponte entre o ontem e o amanhã.

Talvez o grave problema hoje, que não sendo pior nem melhor que ontem, é que não se faz a tal indispensável ligação a hoje, passando por ontem e projectando o amanhã. Está-se a viver “um dia de cada vez ”, algo que todos dizem, como baliza, quando mais nada tem para dizer.

E vive-se o imediatismo, quer-se, exige-se a recompensa de qualquer acto no “imediato”. Quer-se férias “já” nem que se pague, qualquer dia, e o mesmo acontece quanto a habitação, automóvel e tudo o resto. E, se assim não acontece, se assim não pode acontecer -como vem a ser o caso por demasiado “hoje” -, não se tem “paciência” para esperar.

Não se sabe aguardar, não se aprendeu a ir tendo, está-se no “ter, já”, hoje ou nunca. Sintetizando, “não” se aprendeu a “esperar”!

E este comportamento faz com que a desilusão seja permanente, quando não é possível fazer-se/ter-se o que se quer, no imediato. Hoje, vive-se programado para tal, flutua-se pelas redes sociais deixando a mensagem de “imediato”, do que se fez há 5 segundos, com fotografia se necessário, no “imediato”, já para todo o mundo.

Quer-se saber o que se está a passar do outro lado do universo “já”, através de um clique num botão. E a informação torna-se tão rápida que muita é desnecessária, mas estamos sem capacidade de o distinguir. E tudo, seja ou não relevante “parece” que é importante, ou passa a sê-lo, porque nos assim “desejamos”.

E vive-se na correria da notícia, da novidade, mesmo não sabendo o que das mesmas extrair. E deixou de “se parar um pouco para pensar”. Não se fala, está-se junto, por se ter que estar mas de televisão ligada e olhos nela vidrados, ou com tablets, ipads, telemóveis na mão, que fazem não estar de facto ali, e tudo passa a ser demasiado normal nestes comportamentos. Está-se “juntos, mas cada um por sua conta”! Está-se junto no espaço mas não em pensamento!

E o que de bom e até o que de mau, os mais velhos possam ter que contar aos de meia-idade e aos mais jovens, não se faz e nem o inverso. Não interessa, não dá tempo.

E parece que tudo se inventa a partir de hoje, daí viver-se “um dia de cada vez”, o dia de “hoje”. O de ontem morreu e enterrado ficou. O de amanhã pode não chegar. Só há “hoje”.

 E só o “ hoje” é capaz de ser muito pouco, dado que não se cria nada “hoje” se não tiver havido um início ontem, mesmo que com enganos, incorreções, imperfeiçoes. Existe toda uma História e uma Memória que não interessa ser captada pelos mais jovens por não estarem para tal programados, e hoje não existe conflito de gerações, mas desinteresse entre as gerações.

Não se prognostica a necessidade de receber conhecimentos, já se sabe tudo ou vai-se às novas fontes de informação “pescar” o que as mesmas colocam a jeito “para ser pescado”.

E informatizam-se ou formatizam-se ideias, bloqueia-se o tal diálogo, entre o ontem passando por hoje e encaminhando para amanhã. Tudo o que possa abarcar mais de um mês, não interessa.

E nós, Humanos não somos assim, nós ainda pensamos, nós ainda nos emocionamos, nós ainda decidimos, daí a nossa diferença “colossal” para todos os outros animais, que habitam a Terra, por muito que se vá buscar carinho onde não se quer “diligenciar arduamente” para o encontrar, e vez de unicamente vertê-lo em animais de estimação, em exagero.

Nós – Pessoas, nós – Humanos – é que inventamos e aplicamos a roda, as fontes de energia, as formas de produção mais avançados – para o bem e muito para o mal -, não foram os outros animais, alguns, disso também se servem.

E, temos um passado que nos trouxe ao “hoje” e que nos levará ao amanhã, e não estamos a conseguir fazer voluntária e correctamente esta ligação. E é grave.

E está a fazer falta, mesmo que seja para mal dizer de “ ontem”, dos velhos, do que fizeram, do que fizemos e não deveríamos ter feito – isto ou aquilo – ou deveríamos tê-lo feito de outra forma, e não fizemos, ou não conseguimos saber fazê-lo.

Mas é, ou deveria ser, necessário dialogar, falar, conversar, entre as mesmas gerações e umas com as outras – sem aparelhos e mais tecnologias de permeio -, ensinando, aprendendo, apreendendo, concertando-se, criando porvir com algumas certezas. Não desprezando nenhum ser humano. Estendendo vontades, compromissos e futuro exequível.  Ou não!

Augusto Küttner de Magalhães

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