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Quem deve chumbar o aluno? A escola ou o conselho de turma?

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Aquilo que vou escrever, provavelmente não cairá bem na maioria dos professores, mas leiam o meu raciocínio até ao fim e talvez concordem com a minha posição.

Há 15 anos que participo em reuniões de avaliação, onde em determinado momento se analisa a retenção ou transição do aluno. Se existem casos onde as negativas são tantas como os dedos das mãos, outros fazem-nos ponderar se devemos transitar ou não o aluno.

A dúvida é legítima e é de difícil resolução, eu próprio já mudei de opinião muitas vezes nestes 15 anos e também já me arrependi de algumas decisões. A realidade é que os conselhos de turma decidem normalmente o futuro da criança/jovem, baseando-se nas suas crenças pessoais, ou se preferirem, níveis de compaixão ou de intolerância para com os alunos.

Não me lembro de debates centrados nas dificuldades concretas do aluno, nas estratégias necessárias para mudar o que está mal, questionando métodos de ensino, métodos de avaliação, ou mesmo lembrando os porquês da atitude do aluno perante a escola. A atitude é uma mera manifestação de uma série de fatores que até podem advir da própria sala de aula, onde até mesmo a empatia que existe entre professor e aluno pode decidir o sucesso ou insucesso. Muitos outros fatores existem e seguramente que o fator casa é um dos principais, se não mesmo o principal fator que enraíza o insucesso e o distanciamento.

Dito isto, o painel de jurados (professores) é responsável por tocar a harpa celestial ou o som estridente do chicote… Já me aconteceu entrar em conselhos de turma, onde a “arena” estava montada e era escusado dizer um “mas”. Noutros porém, procurava-se todo e qualquer motivo para transitar o aluno, mesmo que o absentismo, o insucesso e a indisciplina fossem o dia sim, dia sim…

Critério, falta muitas vezes critério aos conselhos de turma e a sorte está traçada muitas vezes no início do ano, quando são distribuídos os professores pelas turmas.

Se uma escola tem um projeto educativo, se uma escola tem uma política educativa, fará sentido deixar o seu rumo às vontades/características dos seus conselhos de turma? Deve a escola sujeitar-se a vontades, impulsos, pequenos atos de vingança ou paternidade exacerbada?

Sou da opinião que não, até porque associo esta ideia das “vontades” dos professores às questões disciplinares, por exemplo alguns consideram que um palavrão é algo próprio da idade enquanto que outros consideram motivo para suspensão.

A escola não é apenas “matéria”, a escola é sentimento, sentimento esse que orienta as nossas decisões. O fator humano nunca poderá desaparecer de uma escola, mas este não deve fazer esquecer o rumo, o projeto, o objetivo da escola.

O Agrupamento de Escolas de Mangualde (Diretor Agnelo Figueiredo), fez algo com o qual concordo e enalteço. Fez um estudo sobre o impacto que o chumbo teve no sucesso educativo dos seus alunos. Neste constataram que no 1º ciclo, a retenção no 2º e 3º ano escolar até pode ser benéfica, algo que na minha opinião até se justifica pela fraca maturidade dos alunos. Enquanto que no 2º e 3º ciclo, verificaram que o chumbo nos anos intermédios pouco ou nada melhorava o rendimento escolar em anos futuros.

Retirado do documento “Condições de Transição e Retenção” do Agrupamento de Escolas de Mangualde
Retirado do documento “Condições de Transição e Retenção” do Agrupamento de Escolas de Mangualde

Fará sentido tratar igual o que é claramente diferente? Fará sentido ignorar os factos por crenças ou ideologias pessoais?

Não se trata de facilitar ou dificultar a vida a ninguém, trata-se de “profissionalizar” uma decisão tão difícil como é a de reter ou transitar um aluno.

O Agrupamento de Escolas de Mangualde estudou a sua população escolar e adaptou a sua estratégia às características dos seus alunos. Alguns falarão em facilitismo, mas para mim o mais fácil é mesmo não fazer nada…

Alexandre Henriques

Nota: o link do estudo não está disponível a pedido.

16 COMENTÁRIOS

  1. Pelo estudo conclui-se que o “chumbo” no primeiro ciclo “se calhar” até pode ser benéfico; mas já o não será posteriormente. De pequenino é que se torce o pepino, é um ditado mais do certo!

  2. No liceu onde andei antes do 25 abril , quem tinha 4 no 1° período era expulso e não voltava esse ano. O mais certo era ir trabalhar e não se viam bandos de jovens indigentes na rua. Quando comecei a dar aulas, os conselhos de turma eram formados por professores, que inequivocamente atribuíam as classificações e à terceira negativa, se não fosse potg ou matem, o aluno chumbava.Alguns alunos, sabiam que era altura de ir trabalhar. Muitos estudaram mais tarde, noutras condições, por razões profissionais. A sociedade era dura, havia trabalho onde ele era preciso. Hoje temos uma escola doente, fraca, às vezes covarde, dominada pelos EE que querem ter os alunos fora de casa o mais tempo possível, professores amedrontados, cheios de problemas de consciência, cheios de meninos com n problemas do foro psicológico, e com a ideia de que o sentimento salva e limpa a alma, que os problemas dramáticos dos pais,são mais importantes que a exigência , a aplicação e obrigação do aluno em responder às dificuldades e desafios propostos pelos professores, pelos programas, pelos regulamentos. É exatamente este tipo de professores que transportam para a escola o sentimentalismo bacoco, que, qual praga em contaminação, vai corroendo o ensino e o verdadeiro papel da Escola. A coisa é tao simples como isto! Felizmente que existe resistência. É uma luta! Tenho 33 anos de ensino do 5° ao 12° ano + 9 ensino superior.

    • Quer regressar a essa escola? Quer regressar a essa sociedade? Eu não quero a escola intolerante e só para alguns. Já não se lembra dos resultados de Portugal ao nível da educação?
      O problema é que muitos quando ouvem falar num ensino diferente pensam logo em facilitismos. Nada mais errado!

    • Um tempo miserável o que descreve o comentador…Nesse tempo estudava quem tinha alguns bens… a grande maioria, se não fossem absolutamente excepcionais, iam para os trabalhos menos qualificados.
      Ainda bem que a escola mudou, e muito! Ainda bem que, finalmente, o Alexandre Henriques descobriu que a escola atual não é a do século 19!

      • Concordo, porém, a escola de hoje, a escola de todos, onde a maioria desse todo, mal sabe ler escrever ou contar. Se os problemas sociais não são resolvidos, sucessivamente adiados, nunca será resolvido o problema do insucesso. Operacionaluzam-se tratamentos de cosmética infrutíferos continuando a escola a fazer um serviço tipo padaria com farinha de terceira categoria, onde cada fornada é o espelho do padeiro que por melhor que ele seja, jamais poderá apresentar pão de boa qualidade. Não sejamos tão crédulos ao ponto de nós considerarmos Santos milagreiros. Esconder o lixo debaixo do tapete, não é a melhor forma de promover a limpeza. Há que criar condições sociais a promoção de melhores aprendizagens e consequentes resultados efetivos e não se faz de conta…. Pactuar com isso é impróprio da profissão. Para produzir bom pão tem de haver bom chão. Num Estado que insiste na produção de cereais em
        terreno pedregoso, jamais poderá esperar uma boa padaria onde, por sinal, até investiu no padeiro.

  3. Pois…agora vai ser um país muuuuito melhor enaltecido por pessoas que não aprenderam que na vida é necessário batalhar para alcançar os objetivos, convencidos que se alcança tudo sem esforço. Vamos criar um país de ignorantes diplomado, mais fáceis de governar/dominar por falta de espírito crítico, de opinião. Afinal se isso resulta nos USA, porque não aplicar nos iutros países?
    Quanto a nós profesdores, podemos manifestar o nosso descontentamento mas temos que cumprir os regulamentos

      • Uma consequência que pode pecar por tardia. Um aluno de 11 anos, que chega ao 7º ano e sabe que só tem hipóteses de vir a reprovar no 9º, acha que vai ficar preocupado?!…

          • E se isso não acontecer?… Estamos a falar do ensino público, certo? Sou professora há 23 anos. A minha experiência é do 3º ciclo. Reportando-me aos últimos 7-8 anos, numa média de 130 alunos por ano, diria que um terço têm uma boa formação e um acompanhamento efetivo em casa. Os outros estão por conta deles. É a escola que lhes vai dar resposta. Não me parece uma boa ideia passá-los mesmo com número elevado de negativas.

  4. Parece-me que a questão dos “chumbos” deverá ser posta da seguinte maneira: que fazer para evitar reprovações, que fazer quando um aluno começa a ficar para trás?
    Vamos ao sempre tão propalado exemplo da Finlândia e já sabemos como é que por lá se faz… Mas, para isso, é preciso dinheiro para contratar mais professores que possam fazer o acompanhamento destes casos, sobretudo no primeiro ciclo…
    Sem isso, restam-nos o facilitismo, a falsa compaixão e o discurso demagógico dos pedagogismos.

  5. Há coisas a acontecer neste momento na educação de sobremaneira graves e que terão consequências no futuro. Vi o caso de um Agrupamento de Escolas onde não houve uma única reprovação no 9º ano de escolaridade…. Foram pedidas diversas revisões de avaliação com alegações absolutamente espatafúrdias como, por exemplo, ” o meu filho não quer reprovar”…
    Foram aprovados alunos que não sabem escrever um texto de cinco linhas… É este o resultado da pressão exercida sobre os agrupamentos oriundas de diversas proveniências…
    Senhores do Ministério da Educação Se querem um sistema sem reprovações, e sem aumentar a despesa, assumam as consequências, políticas e de ignorância, e não as atirem para os professores. Vão pagar muito caro, muito caro mesmo, a leviandade com que estão a lidar com algo tão sério…

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