Início Escola Desabafo De Uma Aluna De 1º Ano

Desabafo De Uma Aluna De 1º Ano

21450
11
COMPARTILHE

O choque entre o pré-escolar e a escola dos “sentados” é muito significativo. Em muitos casos o entusiasmo dos primeiros dias é rapidamente substituído pela frustração e desmotivação.

Este é um problema que tem décadas, onde as únicas vítimas são efetivamente as crianças.


Eu não sabia que a minha vida ia mudar daquela maneira…
Que me iam arrancar do meu doce mundo mágico de Nenucos e Legos, para me afogar em letras, números e tarefas.
Que, de um dia para o outro, o reino da fantasia fosse povoado de linhas e quadrículas e toques e vira-te-prá-frentes!
Não me entendam mal – não é que eu não goste de aprender!
Antes deles me mandarem escrever em cadernos, já eu o fazia nas paredes do meu quarto e nos livros de cabeceira do meu pai!
Também já gostava de matemática: sempre soube subtrair os brinquedos à estante do meu mano e multiplicar o barulho, quando os pais querem ouvir alguma coisa na televisão!
Ler é muito fixe. De repente, os objectos começam a falar connosco e entendemos o que dizem. Os rótulos das garrafas, os panfletos dos supermercados, até a palavras na televisão!
Do que me queixo é de… já não ter tempo para nada,
de estar na escola de manhã à noite, de ter de estar sentada na mesma carteira tantas horas… do intervalo ser tão curto que tenho que escolher entre comer ou brincar (conseguem adivinhar qual é que eu prefiro? Eu até já pedi à minha mãe que me mande iogurtes líquidos, em vez dos de colher só para não ter de me sentar!)

E, principalmente, de, no fim disto tudo, ainda trazer trabalhos de casa! ughhh! Trabalhos de casa, estava lá eu a léguas disso… Achava que trabalho de casa era quando a mãe me mandava atirar os brinquedos para o grande caixote cor de rosa ou arrumar as sapatilhas que deixo espalhadas entre o hall de entrada e a sala de estar…

Agora…TPC?

Mas qual foi o adulto que teve a brilhante ideia de… mandar fichas para resolver depois de um dia inteiro a resolver fichas idênticas àquelas? E de que serve copiar textos? Não era mais giro lê-los, recontá-los, ilustrá-los ou até expandi-los inventando uma continuação para a história ou um final diferente? E como esperam que seja capaz de resolver problemas depois de um dia inteiro a raciocinar?
O único problema que eu gostaria de resolver, a essa hora, era como numas apertadas duas horas desde que chego a casa até que durmo, conseguirei encaixar tudo o que me faz falta: relaxar um bocadinho, tomar banho, jantar, conversar com os meus pais, brincar com o meu mano e afagar Bobby, o meu cão, que esteve o dia inteiro à minha espera…não será fácil! Está visto que brincar com a minha casinha de bonecas, ouvir uma história, bem tranquilamente no colo da mãe ou mesmo cortar as unhas dos pés terá de ficar para o fim de semana!
Contas, contas e mais contas! A minha mãe diz que, nesta idade, a gente devia era somar afectos! Eu não entendo lá muito bem o que ela quer dizer, só sei que, no fim de resolver as contas todas está na hora de dormir e já quase não dá tempo para todos os beijinhos que eu costumo dar ao pai… (ele a contar e a rir-se, a dizer, por favor, já chega, já me dói a bochecha e eu sempre a dar mais um e mais um e mais outro, afinal até sei somar!)
Entretanto, eu acho que já encontrei uma solução para o meu problema. Vou dizer à professora que o Bobby comeu os meus trabalhos de casa. É original a desculpa, não acham? De certeza que ainda ninguém se lembrou disso e que me safo…
COMPARTILHE

11 COMENTÁRIOS

  1. Muito mau,mas é o Mundo que temos: ninguém cresce e é tudo a fazer de conta! É tudo uma seca, um tédio, e trabalhar no duro, que é o que espera a maioria, menos uns quantos que nasceram em liteira de ouro, e olham o mundo no seu onirismo pós-moderno! Como faz falta o velho Torga: ” Viver não é para covardes, morrer muito menos!”

    • Este texto foi elaborado por um adulto. Existe uma pré primária em que os alunos deviam ser preparados para o primeiro ano e, não, continuar a pensar que a escola é o mundo dos Nenucos e Legos. Cada coisa a seu tempo. Regras têm de ser ensinadas. Nenhum professor do 1o ano tortura os seus alunos. Todos conhecem o tempo de concentração de uma criança de seis anos. Os TPC? Criar responsabilidade. Cada criança tem o se tempo de aprendizagem. Está na hora de parar de achar o professor o ” mau da fita”. Vamos acordar para a vida?

  2. O Mundo não está para festas! Na China há 1,386 bilhões de pessoas… já dominam grande parte do que fazia a superioridade do Ocidente. Lá a competição , os exames, o dever confuncionista, obriga-os a darem o melhor… Quem se irá preocupar com a velha e Europa e o seu hedonismo decadente? Não se augura nada de bom para uma geração de estufa…

  3. Quiseram a igualdade de género no trabalho, quiseram que as mulheres tivessem vida profissional a par dos homens, quiseram a “horrorosa escola a tempo inteiro”, quiseram o trabalho a desoras para ganhar mais e para consumir mais, enfim, quiseram despejar as crianças na escola, nos ATLs, nas atividades, como se os educadores/professores pudessem substituir a família, as mães, os pais, não podem! Agora, é preciso um bode expiatório! Professor tem costas largas! Vejam os países desenvolvidos e ricos, Suíça, Suécia, Noruega, Finlândia onde durante as tardes as crianças andam pelos parques com as mães! Saem da escola pelas 15 horas! Aqui, só falta exigirem que as escolas/espaços educativos estejam abertas de noite e aos fins de semana!

    • Na Suiça talvez os filhos das suiças passeiem com as maes nos parques….e os filhos de nós os emigrantes passam da escola para amas…ou ficam na escola ate mais tarde ,para as maes irem fazer mais umas horas de limpezas….haveria muito a dizer sobre o ensino por cá

  4. A Maria Pereira disse tudo. A sociedade está a ter o que pediu. Claro que quem não se enquadra, ou quem chegou à conclusão que é melhor deixar de lado o exercício profissional para criar os filhos também sofre. Muitas vezes opta por ensino doméstico ou, se não pode, dá o máximo apoio que pode aos filhos, vai buscá-los para almoçar e logo que acabem as aulas. Mas, na generalidade das vezes, olhadas de lado e vistas como priviligiadas, sem entenderem que pelos filhos pode ter deixado muitas outras coisas de que gostava e que o dinheiro comprava, mas que para aquela mãe não têm valor suficiente para que quase não veja os filhos. Essencial é comer, vestir, pagar as despesas já assumidas. O resto é acessório, opção.
    Conheço mães que como eu poderíam abandonar, pelo menos temporariamente, a profissão para criarem os filhos. Economicamente falando. Mas não querem. Outras trabalhariam apenas em part-time, mas não deixam.
    As coisas mudam em função dos nossos sonhos. O problema é que vivemos num mundo em que a maioria cresceu privada de acreditar e perceber que o sonho comanda a vida. É preciso mudar a cabeça e o coração para mudar a sociedade.

  5. Deve ter sido mesmoooo uma criança do 1º ano a dizer aquilo tudo!! Com aquelas palavras??!!
    Deixem-se de tretas.. eu tive o mesmo impacto na minha vida e não sou traumatizada..
    Protegem tanto as crianças que estamos a construir uma geração de agarrados “às saias da mãe” completamente dependentes e sem qualquer tipo de autonomia.

    Acordem.. por o futuro está ai e vai ser horripilante.

  6. Que exagero!
    Todos nós passámos por isso e não nos fez mal nenhum!
    A vida é assim mesmo. Temos de nos habituar às mudanças e aos novos desafios. É isso que nos faz crescer e amadurecer…
    Tornemos as nossas crianças adultos disciplinados, trabalhdores e capzes de enfrentar o mundo!

  7. Tenho dúvidas se será isso que uma aluna do 1º ano pensa e sente. É evidente que o texto não foi escrito por ela, mas quem o escreveu certamente tentou passar os sentimentos de que se apercebeu.
    O problema é a sociedade que foi criada: pais super ocupados e o dia cheio de actividades para os alunos ou pais super desocupados e o dia cheio de actividades para os filhos. Não há espaço nem há tempo para os pais estarem com os filhos. E os que têm tempo, muitas vezes não estão com eles por opção.
    Muitas vezes se disse que os pais queriam uma escola/armazém para “depositar” os filhos e que estendesse as actividades para além do tempo lectivo. Ao princípio parecia que a coisa ia correr bem, até se começarem a ver as consequências: as escolas não estão preparadas para isso, o sistema escolar não consegue dar resposta e muitas vezes são contratadas empresas que se deparam com os mesmos problemas. A ideia de “depósito” passou por “osmose” para os profissionais, ou seja, se não se consegue dar resposta, é preciso é ir entretendo os moços, porque não se fazem milagres.
    Para além disso estamos aqui a falar de famílias que têm posses para dar o que quiserem aos seus filhos e os apaparicam com tudo o que pedem. Grande número de crianças que passam pela escola é para lá que querem ir e é lá que aparecem nas férias, porque a escola é a única instituição onde lhes prestam atenção e onde se sentem aconchegados.
    A escola, para além de ensinar a ler e escrever, tem como um dos objectivos principais, preparar para a vida e a vida não são “flores”.
    Como o futuros das nossas crianças não parece auspicioso, quanto melhor estiverem preparados mais fácil será.
    A responsabilidade ensina-se de pequenino quer para com a família, quer para com a escola, quer para com os outros, quer para como ambiente e o mundo. E apesar de, enquanto adultos isso nos custar, só assim os pequeninos estarão preparados para enfrentar a vida adulta.
    Quanto à escola, sou completamente contra a “fichite” (doença contagiosa instalada nas nossas escolas), mas essa também é uma consequência das opções educacionais e políticas dos nossos governantes.

  8. …Desde os três anos, na Ucrânia, que as crianças vão para a escola ter aulas de língua-materna, matemática, música e educação física. «Como são pequenas, só têm 20 minutos de cada disciplina», explica Alla, garantindo que estão «sentados a trabalhar e isso é normal». Aos quatro, russos e ucranianos aprendem a ler e a escrever. Se não o souberem, ficam para trás, ou «chumbam», uma vergonha nacional coisa a que – pasmam-se os imigrantes – «ninguém liga nenhuma aqui».

    Explicar que só no final do 4.º ano é exigido que os alunos portugueses saibam ler, escrever e contar, torna-se difícil de traduzir. Porque o fosso que divide a educação nacional e a das memórias dos imigrantes do Leste é, de facto, de tamanho «extra large». «Prefiro nem falar disso», diz Julia Gundarina, uma professora russa que apesar de estar cá há cinco anos e de «gostar tanto» que nem pensa em voltar para casa, assume que «a educação é o pior de tudo». Estranham, sobretudo, a maneira como se ensina, a falta de ordem, a «balda» generalizada. «Na Rússia os professores são mais exigentes», diz num português ainda mal arranhado, mas suficiente para perceber que importa não ferir as susceptibilidades.

    Preferiram mudar de estratégia e criar alternativas. «A educação e a indisciplina nas escolas é um dos principais problemas da integração», diz Sérgio Treffaut, realizador brasileiro que produziu e dirigiu o documentário «Os Lisboetas». «Os imigrantes de Leste queixam-se muito destes aspectos. Acham que a escola, aqui, é demasiado banal», diz. Há quatro anos, abriu no Restelo uma escola russa, que Júlia dirige. Há cinco, Alla Litkovest abriu uma escola ucraniana no Estoril. Mais de 120 estudantes estão no Restelo, desde ontem de manhã, em aulas que só fecham em finais de Junho. As turmas de Alla não ultrapassam as 20 crianças e regressam hoje ao trabalho.

    Começaram com o objectivo de ensinar língua e cultura russa e ucraniana, mas alargaram a sua área de actividade. Ensinam os que acabaram de chegar a falar português e a aprofundar conhecimentos aos que frequentam a escola normal. Aos sábados, vindos de Setúbal, de Torres Vedras e de todos os arredores de Lisboa, as crianças passam nove horas seguidas na escola. Compensam num dia as falhas de uma semana de trabalho. «Ficam cansadas», garante Júlia. Na segunda-feira voltam à escola portuguesa. Para descansar mais um pouco…

    Fonte : ” Jornal Expresso”

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here