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Desabafo de alma em 3 episódios: fui à catequese Turma mais….(III)

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Mais Burocracia e engenharia social

No final do vídeo, que tenho vindo a analisar estes dias, e que constituiu ponto relevante de um programa catequético  para me converter à Turma Mais, fica a minha dúvida herética central:

Se os grupos de nível são tão bons, em doses homeopáticas de 6 semanas, porque não consumir a droga em dose canónica de ano letivo inteiro?

Promover o sucesso, até dos que já o têm, é uma posição ideológica que resulta clara do vídeo.  Chama-se a isso elitismo.

Para os que me acusem de escrever estes textos com um preconceito ideológico (no meu caso anti-elitista), acho que essa clareza explica o meu ponto de vista: se carrego nas tintas do anti-elitismo é porque o compêndio metodológico, que consumi no vídeo, mesmo cheio de falinhas mansas, não esconde o seu elitismo (que é talvez da pior espécie para se combater: não consciente).

74907741_c2d59deb64Como também no vídeo não se esconde o seu lado burocratizador e até as ambições de engenharia social, ao invocar intenções de “mudar o figurino social da relação nas turmas” (já agora segregando-as?)

E até posso admitir a boa intenção dos colegas (mas, de boas intenções…). Na África de Sul, quando Mandela foi preso, havia muitas teorias explicativas polidas para o apartheid (ex: “desenvolvimento separado”) mas a realidade da coisa era mesmo o que era e tresandava.

A quantidade de vezes que se usa no vídeo a palavra “uniforme” ou a preocupação patente e dominante com o uniformizar dos descritores e a caça ao “cada professor a fazer da sua maneira”, mostra o esplendor burocratizador deste calibre de inovações (bem velhas).

No campo da gestão escolar, os “inovadores” em causa posicionam-se também claramente, proferindo, com aparente inocência, algumas teses arriscadas sobre contratualização e gestão por objetivos. Nem Peter Drucker, nem talvez até Frederick Taylor, diriam que as suas ideias sejam moderadas.

Marcha em ordem unida

EMIA_Bastille_Day_2007

O clímax disso é o entusiasmo excitado (lá vem mais uns saltinhos na pantalha) com que falam de grelhas e descritores uniformes, armas contra os perigos, que o seu discurso faz parecer escândalo, da ação subjetiva dos professores.

A autonomia profissional é, como eles diriam no seu linguarajar sugestivo, um “domínio atitudinal” que não interessa nada, destruído que seja pela coletivização em equipas e por uma churrascaria bem provida de grelhas de monitorização de tom soviético.

Não é por se lhe chamar ecossistema (palavra que até se usa num dos quadros do vídeo) que uma burocracia ronceira, dominadora e ignorante da individualidade, passará a ser coisa diferente.

Uniformidade processual é o quadro mental dos protagonistas do vídeo: “todos usam os mesmos descritores” (e dizem até, com voz embargada, a dada altura, que se superará o passado “em que cada um faz da sua maneira”,). E tudo regado, até ensopar, com muita medição em “grelhas” e monitorização constante.

O sucesso das aprendizagens é, por isso, para quem assim fala: não um processo criativo, interior ou de valorização individual, mas sim uma canseira de papéis e descritores.

Horatio_Pig_Bronze_-_Rundle_MallA isto respondo só com uma frase que ouvi de um professor que respeito muito, também pela ironia: “não é por muito pesar o porco que o porco engorda….”.

Valores e atitudes: não perturbem….

Centrando uma das prioridades do seu método na questão dos valores (o “domínio atitudinal”, como dizem os autores do vídeo, na sua linguagem castiça) creio que é aí que se vêem as maiores fragilidades da teoria que gera este exercício audiovisual.

E nem me estendo muito. Não há que temer que tanto discurso sobre valores e atitudes resulte em algo consistente.

Veja-se só um dos exemplos, num dos quadros em que os autores mostram um indício dos seus próprios valores. Na dita monitorização dos valores, um dos descritores para os alunos é “não perturbo”.

Não perturbar dificilmente se poderá dizer que seja um comportamento com valor elevado, ou de cidadania, em qualquer escala. Um cidadão morto, em princípio, também não perturba, mas as suas atitudes serão as que se sabem.

Tudo isto, bem embrulhadinho num discurso recheado de objetividade e “auto-regulação” (mais regulação que auto) e parece que temos uma teoria que resultará em ações “iguais para todos os professores” e “procedimentos uniformizados”.

Nada disto terá a ver com cidadania, criatividade ou até com liberdade individual dos alunos, mas soará bem a muitos ouvidos, sequiosos de respostas fáceis para problemas difíceis.

Postos em sossego e sem perturbar lá teremos o sucesso pré-fabricado.

Pelo meio, umas referências bibliográficas com uns 20 anos (1998), um esquema da organização escolar, com níveis múltiplos, a parecer um organograma de uma organização em sovietes, com forte lógica hierárquica, e uns deslizes de linguagem revolucionários curiosos: “está-se a construir uma nova cultura de escola” e a “promover o sucesso dos alunos à guarda do conselho de turma”.

As palavras são o que são e, realmente, preocupa-me uma cultura que se baseie na separação, consagrando e formalizando a desigualdade.

Serei zeloso….

7223016820_5093ed0ee3_bQuanto ao vídeo, como já se percebeu, só me convenceu realmente do contrário do que era o seu objetivo.

E perante o problema de ter de por em prática tal coisa, à qual, como se adivinha, por razões ponderosas de consciência cidadã, científica e profissional, me oponho, seguirei o caminho legal que resta a um professor, despojado da sua autonomia profissional: cumprirei as ordens legítimas que sobre isso receber.

E, mesmo não a tendo legal ou realmente, até vou conceder legitimidade a decisões de órgãos pedagógicos que decidiram sem me ouvir (a mim ou aos professores restantes).

Neste caso, adoptarei uma estratégia, zelosa e precisa, inspirada por uma frase das memórias do General Ulysses Grant, vencedor da Guerra Civil Americana e, depois, presidente dos EUA:

“I know no method to secure the repeal of bad or obnoxious laws so effective as their stringent execution.” (Tradução livre minha: Não conheço melhor método para assegurar a mudança de leis más ou odiosas do que garantir a sua execução zelosa).

Serei assim um zeloso aplicador do sistema da Turma mais, até às suas mais drásticas consequências, já que, por estar tão mal concebido e assente em tão maus princípios, contrários à lógica democrática, que devia ser a da escola portuguesa, levado ao rigor máximo da sua aplicação, evidenciará naturalmente os seus óbvios aleijões e defeitos. Perante o indiscutido  triunfo da ideia só essa solução radical garante que seja, como deve, abandonada no futuro.

Quando se sente solidão, e perante esta esplendorosa mediocridade, só resta a resistência passiva. E dizem que funciona.

Veja aqui a 1ª parte e a 2ª parte

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