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Desabafo de alma em 3 episódios: fui à catequese Turma mais….(II)

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Turma Mais: a excelência, os burocratas articulados e as melgas

Ontem comecei a abordar aqui, em geral, a forma como encaro a catequese no projeto Turma Mais.  Tal doutrinação passou mal no filtro das minhas visões heréticas do que seja excelência.

Hoje vou tentar comentar o instrumento de mais fácil acesso a essa catequese: um vídeo protagonizado por professores da escola que, pelos vistos, inventou a coisa. No fim, fiquei com a sensação que será como quem tenta martelar parafusos ou caçar moscas com metralhadora….(ou melgas, já verão porquê).

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Infelizmente, como funcionário do Ministério da Educação (a quem este não reconhece real autonomia profissional, para lá dos atos que os seus impulsos centrais possam rigorosamente controlar) terei de participar numa coisa dessas este ano.

Imposto o projeto à minha escola (não fui sequer realmente ouvido sobre ele, antes de decidida a sua aplicação), foi-me recomendado que, para entender melhor do que se trata, visse esta lição magistral, pomposamente chamada de webinar.

Não conhecia os colegas que o protagonizam, até ver o vídeo pela primeira vez (aqui pode ser vista a sua biografia). Por solidariedade profissional e em reação ao meu próprio constrangimento ao vê-los, creio ser meu dever dizer que não se deviam ter prestado a este papel.

É penoso ver os mais de 17 minutos de duração.

Não falemos do obtuso cenário geométrico, do genérico musical, supostamente dinâmico (estilo Dallas, anos 80)  e da locução reverberada (que reforça a má dicção da locutora) em eco de poço.

O tom pastoso, pontualmente animado com saltinhos e bamboleios  dos intervenientes, fez-me lembrar alguns anúncios de telecomércio que, há uns anos, Herman José parodiou num dos seus programas (Mike & Melga, para os que não se lembrarem).

Mas, mais que a forma (que é relevante em assuntos pedagógicos porque serve a transmissão do conteúdo), interessa realmente o conteúdo.

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Servirá o dito webinar, na perifrástica forma de falar de quem o fez: “para facilitar a apropriação da metodologia”. E, mesmo com uma estética discutível, ficam claros os seus problemas.

Organização de turmas ou redução de alunos por turma?

Mudar a organização das turmas é um dos pilares da dita metodologia.

Para explicar bem uma metodologia é preciso explicar bem os seus pressupostos. E, embora se mostre no vídeo um quadro em que as turmas de partida para o projeto têm todas entre 26 a 30 alunos, passa-se por cima da referência a esse “detalhe”, que é um pressuposto relevante.

O projeto gera-se assim num contexto com turmas de 26/30 alunos.

Num resumo publicado no site da Universidade de Évora, diz-se mesmo que “o limite será o de 4 turmas de origem (com um máximo de cerca de 112 alunos), por cada TurmaMais.”

Isto é, 28 alunos por turma de origem. Passo ao lado do rigoroso “cerca” que também dá para 29 ou 30… (afinal 30, são só mais “cerca” de 8).

Turmas de 20, ou menos, ainda justificam o projeto e sua estonteante “dança de alunos” em ciclos de 6 semanas?

Talvez mesmo os que o defendem digam que não (mas esse detalhe escapou à verborreia do vídeo).

5375603380_2f3c0b6aa0_bE tornando visível essa lacuna da “facilitação da apropriação” talvez se clarifique a real origem política e ideológica do projeto: em vez de promover a efetiva redução do número de alunos por turma,  tenta ser um paliativo para a realidade de turmas com 26 ou até 30 alunos.

Talvez as hesitações indesculpáveis do atual ministro, na consagração da redução de alunos, expliquem assim o sucesso que a turma mais está a ter, como estrela da sua política de promoção do sucesso.

Tudo isto, mesmo embrulhado com uma fofinha conversa sedutora sobre articulação, equipas, partilha, etc não esconde o lado de crença mal sustentada ou de reinvenção da roda, que transpira da arenga.

E se, em vez do “vira-corridinho” dos “grupos temporários de homegeneidade relativa” se reduzissem em geral as turmas de partida para “cerca” de 20 ou menos?

Faria falta toda esta cansativa parafernália reorganizativa? E não seriam os alunos melhor servidos?

E se se reforçassem simplesmente os tempos para trabalho de equipa, dentro e fora da sala de aula, no âmbito dos conselhos de turma originais, reduzidos em número de alunos? (Aliás, para os anunciados “resultados extraordinários” – Teolinda Magro dixit no vídeo- onde estão os tempos extraordinários para reuniões, que a “coisa” exige, nos horários de trabalho dos docentes?).

Noutro vídeo explicam como espremer melhor o tempo de trabalho dos professores que, afinal, andam folgados, mas passemos adiante, por agora.

Se a droga é boa porque não reforçar a dose?

Ninguém aflora no vídeo um problema de tipo social que é muito patente em crianças mais pequenas.

Porque é que para “se promover o sucesso de todos os alunos” e se “reforçar a partilha” e sentido de equipaentre os professores, se tem de desarticular, em ciclos de 6 semanas, parte importante das relações sociais dos alunos dentro das suas turmas e isolá-los, em parte do dia, por níveis de sucesso?

Havendo tanto discurso e norma sobre a importância da continuidade pedagógica (dos grupos turma e professores), nas transições de ciclo e ano, como se defende a descontinuidade em ciclos de 6 semanas, no mesmo ano letivo e na mesma turma?

Sem isso, a “coisa” eram turmas de nível e a máscara faz falta.

Aliás, deixem-me ser do século XVIII e afirmar a  minha suspeita de que se, em vez de separados por níveis, os alunos fossem aleatoriamente distribuídos pelos grupos, os efeitos seriam semelhantes. O que provaria que a “tecnologia organizativa turma mais” não serve para grande coisa (mas  provaria que a redução do tamanho dos grupos de alunos, sim). Não sei se alguém fez a experiência de ter um grupo de controle deste género. Mas gostava de ver….

E nem falemos dos efeitos de etiquetagem, para pais e alunos, de estar num grupo de turma mais de “alunos excelentes” (que para os autores do vídeo podem ser de nível 4 -!!!) ou noutro dos grupos. Remeto de novo para a posição, que alguns dirão ideológica (mas atraente, reconheçam) do texto da mãe que citei ontem.

Promover o sucesso para todos os alunos?

Esse é um dos dogmas mais cantados nesta endoutrinação. Vendo bem os papéis e outros documentos essa é então a máscara.

Os autores do vídeo defendem-se, logo no início, com alguma candura ineficaz, da acusação potencial de estarem a fazer turmas de nível encapotadas.

Na sua ingenuidade sociológica, fazem algumas afirmações curiosas. Por exemplo, que o seu projeto visa promover o sucesso para todos os alunos. O corolário desta ideia é muito evidente.

O projeto gera necessariamente desperdício de recursos (iludindo quem julga que melhor os aproveita) porque, em vez de apostar claramente no apoio ao sucesso de quem precise de ser apoiado, embarca na ilusão (não demonstrada) de que em grupos de nível (sejam temporários ou não) se podem atender melhor as necessidades até dos que já tem sucesso.

Simplifico a ideia cândida (que se adivinha) por trás de toda a complicação da “tecnologia organizativa turma mais” : se os “bons” estiverem com os “bons” (ainda que um pouco de tempo) vão ser melhores e mais felizes.

Se lhes dermos umas semanas num ambiente só de colegas “bons ou melhores” vão melhorar ainda mais….

Quem disse? Há até provas do contrário.

A contrario os “maus” com os “maus” , não irão piorar? Ou a magia não funciona ao contrário?

Quem tal propõe para o sucesso dos bem sucedidos devia tentar rir-se com o cartoon do Calvin (abaixo) sobre utilidade marginal decrescente.

Talvez aí comecem a perceber porque tantos jovens consomem comprimidos contra o stress e ansiedade e percebam a pergunta provocatória do início desta parte do texto.

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Mas alguém gasta dinheiro em bombeiros para fazer uma viçosa floresta crescer mais?

Ou põe-nos nos sítios onde ela já está a arder? (continua)

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1 COMENTÁRIO

  1. Caro Luís ,

    Já agora, pergunto, um Pai não devia ter conhecimento, de que o seu educando ao estar inscrito nesta escola, o método seria este da TURMA MAIS ?!? pela informação que recolhi no agrupamento, “retiram os melhores alunos da sala” mas a rodar… uma treta assim…
    Nós Pais não temos nada a dizer ? temos de concordar…

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