Início Rubricas Deprimidos Altamente Funcionais

Deprimidos Altamente Funcionais

1438
1

Ora aqui está mais um artigo que não me importava de não ter de escrever.
No entanto, a realidade é esta. Pelo menos a avaliar pela duzinha de escolas por onde tenho andado nestes últimos anos e pelo feedback que me dão outros colegas colocados noutros agrupamentos pelo país fora, aquém e além mar.

Num NOVO período crítico de negociações (?) em que a tutela se prepara para MAIS UMA VEZ machadar a classe a talho de foice, evidencia-se-me, SEM NOVIDADE, infelizmente, uma classe entristecida, desgastada e deprimida. Não tenho números – não os há para a realidade que vou descrever, por motivos que já se tornarão óbvios. Por conseguinte, é apenas uma opinião. Vale o que vale.

O problema deste tipo de patologia é que é invisível e silenciosa.
Se pensarem nas imagens a que associam uma pessoa deprimida certamente vos ocorrerá alguém que chora sistematicamente, tem relutância em sair da cama, não sente volição para nada, está constantemente prostrado e abatido sem conseguir encarar o “mundo real”. Provavelmente é aquela mesma pessoa que liga a dizer que não pode ir trabalhar e que, quando vai, empurra as tarefas num desalento de obrigação impingida.
Por tudo isso, podem passar-nos ao lado os outros.

Os que impreterivelmente cumprem com o serviço,
dão o seu melhor e são responsáveis e eficientes.

A dor destes não alarmiza, não grita e, por isso, pode ser desvalorizada.

Na gíria dos distúrbios mentais chamam-lhes Deprimidos Altamente Funcionais e eu conheço muitos professores assim.

Porque têm um exemplar sentido de responsabilidade, porque respeitam o superior interesse dos alunos, porque são perfeccionistas por natureza, têm escrúpulos em falhar ou em faltar ao dever, porque o dinheiro escasseia e não se compadece com baixas clínicas, porque têm vergonha de pedir ajuda, porque não têm sequer noção do seu estado debilitado…

Deixam-se andar… 
Funcionam!!!

Sob pena de arruinarem a sua (já ameaçada) saúde mental!

Não é que o mesmo problema não ocorra noutras esferas profissionais. O que quero dizer é que, no ensino, devido à própria natureza das funções que desempenhamos, no geral, os professores tardam em abandonar o barco. Mesmo se se estiverem a afundar na sua tristeza.

Marta Pereira

COMPARTILHE

1 COMENTÁRIO

  1. Eu fui,anos a fio uma dessas deprimidas funcionais. Agarrei-me a tudo. Até que desmaiei e fui parar ao hospital a acharem que eu estava a ter um enfarte. A partir daí a máscara caiu. Ainda tentei voltar a colocar… Mas o estar numa escola de idiotas não ajudou muito. Estou, pela primeira vez, em muitos anos, de baixa. Os meus antigos alunos preocupados. Para eu, que tudo levava à frente, estas de baixa é possuo atingi o limite. E conseguir passar nas juntas da segurança social… Consegui a primeira(para a qual fui chamada 15 dias após o primeiro dia de baixa)… Não sei quanto mais tempo consigo… Porque, para aquela gente, isto é pra ir trabalhar, seja como for.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here