Início Editorial “Vou deixar de ser professor, estou farto disto…”

“Vou deixar de ser professor, estou farto disto…”

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Há dias recebi uma mensagem em privado de um professor recém chegado e que estava a ponderar seriamente abandonar o ensino. A indisciplina na sua escola é tão grande que o colega está pronto a atirar a toalha ao chão. Só que a indisciplina é apenas uma parte do problema, pela experiência adquirida, o principal motivo da insatisfação dos professores não está na sala de aula, não está nos alunos, está sim em toda uma conjuntura que formou uma tempestade perfeita e que levou os professores à beira do limite.

Reconheço que eu próprio já pensei em desistir e acredito que muitos também o pensaram, por quê? Por tudo isto:

Os professores não se sentem valorizados

Qualquer profissional gosta de ser reconhecido profissionalmente, é queixa frequente dos professores a forma como os pais lhes apontam o dedo e afastam as suas responsabilidades. A própria comunicação social tem muita responsabilidade, ainda no sábado passado fomos brindados com a capa do Expresso, onde indiretamente disseram que os professores são limitados intelectualmente, como se as médias fossem o mais importante para se ser professor, médico ou jornalista…

E toda a gente se lembra da capa do Correio da Manhã onde em letras vermelhas dizia que descongelar os professores custava 600 milhões por ano. Custava…

Os ministros de Educação são outros dos carrascos da má reputação dos professores, foram eles que alimentaram a imagem do professor responsável por tudo o que falhou na Educação, ignorando toda a sua responsabilidade e relambório de legislação. Maria de Lurdes Rodrigues será sempre o exemplo máximo do diabo que veste prada e é muito preocupante ver essa senhora voltar ao palanque, convidada por tanta gente e com tanto tempo de antena.

Uma carreira destruída 

O tema está quente, e o Rui Cardoso do blogue DeAr Lindo já denunciou o que nos querem fazer e que podem ver na imagem em baixo. O que foi no passado uma carreira interessante, hoje não passa de uma lembrança… Não é por acaso que recentemente se soube que os estudantes não querem ser professores.

A greve do próximo  dia 15 é um dia importante para os professores e para o seu futuro, não podemos falhar, não podemos falhar a nós próprios.

Papéis, reuniões, papéis e reuniões

Depois do toque de saída começa o absurdo, a escola é muito complicada, cheia de procedimentos e rituais que já não fazem sentido se é que alguma vez fizeram. Pergunto-me tantas vezes para quê isto??? Tudo para depois no final do ano ir para o arquivo morto. Falta liberdade aos professores, falta confiança nos professores e quando tanto se fala de autonomia para as escolas, falta falar na autonomia para os professores.

Trabalho de manhã à tarde e à noite

A carga de trabalho de um professor é brutal e enquanto noutras profissões as horas extraordinárias são pagas, ou basta picar o ponto para desligar do trabalho, nos professores, ninguém desliga e quem “paga” é sempre a família…

Diretores e a falta de democracia interna

Muitos são uma mais-valia, mas outro tanto são responsáveis por um clima de desautorização docente, esquecendo-se que também eles são professores, colegas e só depois diretores. É preciso regressar a uma escola plural e não centrada numa única cabeça.

Infraestruturas

Não querendo fazer o papel de ingrato e as obras feitas em muitas escolas foram uma bênção, é verdade que continuam a existir muitos problemas. Um mero exemplo é a internet e o sistema informático que é frágil e que está obsoleto.

Municipalização Escolar

Será o fim da independência da escola aos partidos políticos, se a entrada do Conselho Geral veio tremer essa independência, a municipalização tirará a que falta.

A reforma que não pára de fugir

É inevitável o sentimento de revolta de quem projetou a sua aposentação e a vê fugir há uma série de anos. A motivação de quem estava a 2 anos da reforma e de repente leva com mais 10 em cima, abana qualquer um. O envelhecimento docente é muito preocupante, quer para os próprios, quer para o sistema de ensino.

Este ano estou a 100 km, para o ano a 200 km e depois não sei, nem sei se tenho emprego…

A instabilidade profissional de milhares de professores por si só é suficiente para travar o sonho de se ser professor. Nada justifica o que continua a acontecer, ano após ano existem milhares de professores a galgar kms para trabalhar, partindo famílias ao meio com custos pessoais muito elevados, ficando por conhecer a real dimensão do sofrimento docente.

É uma vida de casa às costas e não existe um professor que não saiba o que isso é, se aos 25 a coisa até tem piada, com 30, 40, 50 anos perde a graça toda. É preciso estabilizar o corpo docente e dar-lhe as devidas oportunidades de terem uma vida normal e digna. Sim, é de dignidade que estamos a falar.

Por isso muitos já foram e muitos mais irão abanando a cabeça e dizendo estou farto disto, vou-me embora… Eles vão, vão de coração partido e a docência ficará apenas como uma lembrança e um sonho que nunca foi…

Deixo-vos com o seguinte artigo que me foi enviado pelo Luís Braga e que deve merecer a vossa atenção.

Alexandre Henriques

“Nós não somos vistos como profissionais”: o educador explica por que deixou a sala de aula

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