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Da zona J à I (das Ideias)

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Um título que é algo particular. Diz respeito à designação daquela que foi, no ano letivo passado, a minha direção de turma e aquela que é, este ano, a minha direção de turma.

Quase certo que aqueles que este apontamento visa não terão acesso a esta escrita, sejam eles os docentes envolvidos, os alunos ou os encarregados de educação. Chegará a outros, espero e com votos de outros bons exemplos.

Habitualmente escrevo sobre políticas educativas. É esse o meu mundo de escrita e trabalho. O mais das vezes com pretextos assumidamente crítico, não fosse eu da área das ciências sociais onde a crítica está presente do princípio ao fim, faz parte intrínseca da pensamento. Desta feita escrevo com um sentimento de reconhecimento, de regozijo, de algum prazer mesmo.

O ano passado, novinho na escola, caído ali nas últimas colocações por via da possibilidade de me aproximar de casa, foi-me entregue uma direção de tuma de 7º ano. Parecia não ser nada de monta. Contudo, ficou conhecida, ainda o ano letivo de então não ía a meio, como a zona j. Um profundo desinteresse de uns quantos que não poucas vezes virava agressão, tensão, conflito. Um total alheamento de outros que fazia com que em sala de aula estivessem apenas de corpo presente mas de alma e cabeça ausentes. Outros com dificuldades que remetiam para eventuais necessidades educativas especiais, com uma caligrafia que indicava problemas de disgrafia. Outros ainda, nomeadamente alguns dos que ali tinham chegado recentemente, como eu, por via de transição de ciclo, a copiarem comportamentos, a assumirem mimetismos disruptivos, desviantes. Resumindo, foi fase complicada para todos os envolvidos, para a minha pessoa enquanto diretor de turma, para os alunos desorientados e alheados, para os professores da turma sem resposta, para os pais/encarregados de educação constrangidos pela situação, mesmo para a gestão da escola, confrontada com situações algo inusitadas. Foram inúmeras as reuniões disciplinares, as participações, médias muito abaixo do normal, média por disciplina que ninguém se lembrava alguma vez de ter tido. Situações que levaram ao abandono da escola por parte de uns, a processos por abandono, e a um sem rol de papéis e escrita nos quais me ia afogando. Disso dei conta à coisa de pouco mais de um ano atrás.

O ano letivo transato terminou para mim com um sentimento de perda, de incapacidade, de impotência perante as situações. Do total da turma do ano passado, 5 alunos ficaram retidos; outros entraram na nova turma, também repetentes. Este ano íamos ver o que dava. Turma diferente, ainda que a coluna permanece-se quase a mesma. Mas tinham saído elementos assumidamente perturbadores. Na conversa de início do ano letivo foram consensualizados, com a turma, dois grandes objetivos, ninguém ficar para trás, contrariar a ideia da zona j.

No concelho de turma saíram e entraram docentes, mas optámos por manter a estratégia de então, ajudar à criação de sentidos (à ideia sobre) trabalho escolar àqueles que ali tinham ficado. Apostar em alguma flexibilidade curricular por parte dos docentes (ainda antes do alarido), mediante a tentativa de diversificação de instrumentos e momentos de avaliação, de conteúdos, de estratégias de trabalho. A maioria dos professores foi insuperável. Arriscaram, experimentaram, alguns com o receio expresso nos olhos quando trocávamos ideias. Mas assumiram.

Os pais não desistiram, assumiram o percurso complicado. Já tinha sido complicado para eles, mas não era pelos pais que a estratégia iria falhar. Foram (têm sido) inexcedíveis. 

E, chegados ao fim do 2º período letivo, do 2º ano de trabalho aí estão resultados. Média da turma acima da média do ano de escolaridade. Se é certo que ainda existem 3 alunos com possibilidades de retenção no final, também é certo que existe recuperação efetiva, um progresso assinalável. Inclusivamente a média por disciplina subiu e, em alguns casos, ultrapassou outras turmas. Casos de alunos que desde sempre tiveram nível 1 a algumas disciplinas se veem na iminência de transitar, de terem nível três.

O ano ainda não terminou. Terminou apenas um dos momentos de avaliação. Mas valeu a pena. Vale sempre a pena quando se insiste e persiste, quando se confunde teimosia com resiliência, quando elogiamos e valorizamos o que de bom existe em cada um e se experimenta, e se arrisca a fazer diferente. Valeu a pena. Vale a pena.

Manuel Dinis P. Cabeça

10 de abril. 2017

Coisas das Aulas

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