Da profunda estupidez humana e da escola no meio…


[Um Valor:] A solidariedade voluntária, na medida em que é a marca do amor pelos outros; pelos que não conhecemos nem julgamos, pelos de quem não esperamos nada, principalmente qualquer agradecimento; a solidariedade com direito a notícia no jornal e entrevista na televisão, essa é um anti-valor e só exprime a insuportável vaidade dos ricos que são tolos.

Daniel Serrão

 

Reparo nas notícias que surgem com o espanto que já não sinto. Num tempo em que a sociedade dá mais valor ao não estar do que à presença sabemos a razão da emergência de uma violência animalesca entre alguns grupos de jovens. É o resultado do abandono. Tememos dizer isto porque não queremos assumir as culpas.

Enchem-se os meios de comunicação, virtuais ou não, de comentadores e especialistas para dizer que a culpa é de todos menos sua ou de ninguém e menos dos miúdos que são vítimas de tudo ou que é dos miúdos e de todos menos de quem devia olhar por eles. A violência é resultado sempre do abandono. Não do acto de abandonar mas da desistência da imposição de regras e de se ensinar aquilo que não é natural no ser humano. Se formos pensadores que assentam na ideia que a sociedade é o resultado de uma evolução humana que permite a civilidade dos comuns num lugar comum então percebemos que a relação entre as duas coisas é evidente. Não é o conhecimento, de per si, que cria cidadãos. É a aprendizagem de vida em comum. E uma palavra que caiu em desuso e tanta falta faz ser recuperada pela escola: respeito. E não me digam que não se ensina o respeito pelo outro, por nós mesmos, pela comunidade e acima de tudo pelos valores universais de não-violência e dignidade. Estas palavras já não se usam, eu sei. Mas como pai sei que é isso que quero que os meus filhos saibam. As palavras e os sentidos, mas acima de tudo, as acções que elevam o espírito e o ser humano a uma condição de civilidade. O abandono que hoje se vive de tudo isto dá no que hoje nos chega a casa por via de mais um vídeo ou de uma manifestação de barbárie entre jovens. A verdade é que há uma mancha imensa de miúdos que aprenderam a viver sobre estas regras. Mas também é verdade que há muitos que perderam esse caminho porque, aos poucos, alguém, algum momento, desistiu deles colocando num papelinho qualquer a indicação: sinalizado – e descansou com isto sem mais nada fazer. Somos frutos destes tempos. Mas somos também nós os conceptores deste tempo. A violência que assistimos e que dissecamos até ao momento seguinte surgir não desaparece porque outra notícia emerge. Continua lá. Até deixarmos de desistir e ir resolver a coisa com a força dos valores que um dia nos fizeram mais humanos…

João Lima

Pai

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