Início Editorial Critérios de avaliação que avaliam o que não é lecionado

Critérios de avaliação que avaliam o que não é lecionado

4074
12
COMPARTILHE

A ideia que o comportamento, a assiduidade, a pontualidade, o empenho e afins, devem contar para a avaliação é algo que me anda a fazer refletir há já algum tempo.

Pergunto-vos:

Os professores de matemática, filosofia, geografia, história, português, educação física, etc, lecionam conteúdos sobre o comportamento/assiduidade/pontualidade/esforço?

Esses conteúdos são abordados/colocados nos testes de avaliação, na apresentação de trabalhos, na realização de trabalhos de casa, nos exercícios escritos e orais?

Os alunos estudam, preparar-se ou preocupam-se para adquirir  esses conceitos?

A resposta é não, não e não. Então por que raio é que os professores avaliam algo que não lecionam?

A resposta de muitos será “porque é algo que afeta/condiciona o sucesso escolar”. Ok, de acordo, mas a qualidade da internet, as faltas de material, o frio/calor que se faz sentir na sala de aula, a fome que vem de casa, etc, tudo isso afeta o desempenho escolar e ninguém avalia isso, pois não?

Os critérios de avaliação existem para avaliar, mas acima de tudo existem para condicionar a avaliação às ideologias da Escola/Ministério de Educação.

E depois temos os exames, com rankings que comparam a nota de um exame com a nota interna. Nota essa onde a parte cognitiva não ultrapassa os 60, 70%… Mas faz de conta que é tudo igual e fazem-se grandes reportagens com aberturas de telejornal, passando dias a analisar resultados, resultados que todos sabemos são incomparáveis… E depois é ver diretores/professores a condicionarem as suas estratégias de gestão/ensino para subirem uns quantos degraus no ranking da imagem… A chumbaram alunos para não afetar a média da escola. É o ensino do faz de conta…

Mas deve o comportamento e os restantes itens que referi contarem para a avaliação?

Depende de que escola queremos… Atualmente a esquizofrenia é total, criticamos o modernismo de uma escola mais flexível, menos restrita nos conteúdos, abordando diferentes áreas da formação do aluno (o tal perfil do aluno), mas depois queremos avaliar aquilo que ninguém dá, aquilo que é suposto vir de casa. Meus caros, onde está a coerência???

Sou apologista que a escola é muito mais que ensinar 2+2, sou apologista que a escola tem um papel central na formação transversal do aluno,  louvo a criação da disciplina para a cidadania, mas discordo que os professores avaliem algo que simplesmente não faz parte do currículo, algo de que não falam e não lecionam. Se queremos formar alunos “completos” temos de abordar estes temas e não apenas quando dizemos “tens falta porque chegaste atrasado”, “está calado”, “onde está o livro Manuel?”. Falta substância e tempo para o ensino da cidadania em sala de aula.

A escola atual mente na avaliação e tenho perfeita consciência da gravidade da afirmação que estou a fazer.

Os critérios de avaliação são feitos à medida para chumbar ou passar alunos. Não existe coerência, não existe uma política de fundo a médio/longo prazo, a avaliação é uma falácia que muda consoante as políticas educativas ou as ideias do diretor.

Se o problema é os chumbos, que se acabem com os ditos de uma vez, haja coragem e a escola simplesmente faça o seu papel de ensinar/formar. Ao fim de 12 anos de escolaridade, quem sabe, sabe, quem aproveitou, aproveitou, quem não quis saber, quisesse… Os pais devem ser os “fiscais” dos seus filhos e não os professores, a escola é obrigatória porque os pais não conseguem obrigar os seus filhos a cumpri-la.

Ficam os resultados da sondagem ComRegras sobre o peso que o comportamento deve ter na avaliação.

COMPARTILHE

12 COMENTÁRIOS

  1. ”…quem sabe, sabe, quem aproveitou, aproveitou, quem não quis saber, quisesse…” Se assim fosse sabe quais os alunos que seriam mais prejudicados? É essa a função dos professores da Escola Pública? O que diz , desculpe lá Alexandre Henriques, é muito reaccionário… Até eu estou corado !

    • Então deve ter gostado…
      Eu sou apologista de dar todas as oportunidades aos alunos, mas eles também têm um papel a desempenhar e não cabe aos professores fazerem o que é da sua competência.
      Eu defendo um sistema de ensino mais tecnológico, mais flexível na forma de ensinar e na sua avaliação, mas NUNCA defendi o facilitismo. E este é o ponto que muitos como o Afonso Costa não conseguem compreender.

  2. Eu compreendo. O problema é que há uma percentagem de alunos que, de facto, não quer aprender… Mas, nisso, estou de mão dada com a atual governança, não lhe pode virar a cara… Esses alunos já chegam à escola com uma desvantagem social enorme…
    O que já não admito é que se passem todos por decreto, porque alguns pobrezinhos, coitados, não chegam lá… Isso, alto lá , é absolutamente discriminatório, com uma capa de politicamente correto; com o argumento que todos têm direito ao sucesso; com o chavão do trauma e da segregação dos que reprovam. Tudo isto escondido nos cifrões!!!!
    A Escola Pública não tem de assumir o papel dos políticos: criem-se condições para as famílias mais carenciadas; promova-se a qualidade de vida dos cidadãos e os ordenados de escravos! Não se entregue à escola uma missão que só servirá para a estatística e para a poupança…
    Querem ser verdadeiramente nórdicos? Ou é só na chalaça da burocracia e do processo? Reduzam o número de alunos por turma , mas muito, onde há maiores com dificuldades; criem equipas multidisciplinares com técnicos altamente qualificados. Coloquem Assistentes Sociais nas escolas! Ou só querem brincar aos finlandeses, fingindo que são altamente colaborativos, transdisciplinares; modernaços? Ninguém refaz a história! Ninguém nos há-de tornar dinamarqueses… Temos de lutar com o nosso processo histórico; com as nossas idiossincrasias; com o fardo centenário do nosso analfabetismo… Quem se interessa um pouco por Etnologia sabe que a Cultura não se muda por decreto, nem há processos curtos de mudança, mesmo no modo revolucionário… Mas essa era uma outra e longa conversa!

    • Não se muda a cultura mas muda-se a língua e muda-se comportamentos. Hoje ninguém acredita na escola e até a desprezam graças à política de facilitamos dos sucessivos e péssimos ministros de educação e políticas desastrosas.

  3. A ideia é interessante, e gosto de posts “provocatórios”, pois obrigam-nos a reflectir e a questionar algumas certezas que já tínhamos por inquestionáveis…

    Parece-me que a generalidade dos professores começa cada ano lectivo, justamente, por abordar, com os alunos, as regras de funcionamento das aulas, o que se espera que os alunos façam, como devem interagir uns com os outros e com o professor para que as aulas sejam proveitosas para todos, o material necessário que devem trazer, as regras de pontualidade a cumprir, etc.
    E no decurso do ano vão-se fazendo as advertências aos que não cumprem ou dando o reforço positivo aos que o merecem.

    Neste sentido, acho que o domínio do que vulgarmente chamamos “as atitudes” pode e deve ser avaliado, embora com um peso inferior à parte cognitiva.
    Quanto às razões por que fazemos isto, penso que são fundamentalmente duas:
    Valorizar o empenho dos alunos e os bons comportamentos, sobretudo quando os alunos estão conscientes que isso interfere positivamente na sua avaliação, tende a melhorar a sua concentração e empenhamento nas tarefas e contribui para reduzir a indisciplina.
    A parte atitudinal influi positivamente nas notas da maioria dos alunos e contribui, portanto, para a redução do insucesso…

    • Sim António, mas já existem mecanismos internos para “incentivar” a assiduidade. O que a escola fez foi avaliar o que já existe em decreto.
      Um abraço.

  4. Os professores preparam os alunos para a vida ativa. É o objetivo abrangente e fundamental do ensino/aprendizagem. Se fosse apenas para passar o tempo e fazer o que fazem em casa, não valia a pena o ESTADO gastar os milhões.
    Experimente falar com alguém que está a utilizar o telemóvel, a falar com o vizinho, a arrastar a cadeira onde se senta, e diga-me se conseguiu.
    Da mesma forma, se um cidadão for para o seu local de trabalho fazer tudo isto ou não fazer nada, revelar desorganização, falta de motivação, desinteresse, falar desordenadamente e ter comportamentos desajustados, não irá passar das sucessivas entrevistas de emprego. Infelizmente é o que já se está a passar porque a grande maioria dos alunos não deveria ter saído do 1° ciclo, ou seja, nem sequer aprenderam as regras básicas de cidadania, de convivio, de hábitos de organização e de trabalho, incluindo outros. Por estas razões é que se diz que a ESCOLA deveria chamar novamente os pais para aprender aquilo que não sabem transmitir aos seus filhos!

  5. Não vou discutir, aqui e agora, a questão da avaliação das ditas “atitudes e valores” (é uma discussão interessante, reconheço). Relembro, no entanto, que é por causa dessa avaliação globalizante que existe a escala de 1 a 5 (parece que muita gente começa a esquecer-se). Vou apenas dizer que, infelizmente, não fazemos outra coisa senão ensinar tudo isso e a tempo inteiro. Nós ensinamos e educamos, e a nossa ação vai muito para além do que está nos programas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here