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a crise demográfica e os alunos perdidos

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Escrevo a partir de duas notícias que surgem nas capas dos jornais de hoje. Aparentemente distintas, aparentemente sem ligação direta ou evidente, mas que considero determinantes e essenciais ao futuro de medidas de política educativa. De um lado a crise demográfica, presente no JN, outra no público sobre alunos dados como perdidos.

Mais que qualquer medida de política educativa a crise demográfica é um atentado à escola e a qualquer medida de política educativa.

A notícia dá conta de uma realidade que é dado adquirido em muitas, em demasiadas escolas do interior do país. Uma realidade que foge à generalidade do senso comum, restringida que está ao pequenos aglomerados populacionais, que compõem o interior do país. Se é certo que a visibilidade da crise demográfica se tem feito sentir (e ver) essencialmente ao nível do pré escolar e do primeiro ciclo (onde não existe oferta ou se encerram escolas e se constroem centros escolares) seria perfeitamente normal que essa mesma crise subisse pela escolaridade acima e se repercutisse nos anos e níveis subsequentes. Quando se chega ao secundário qualquer escola do interior se confronta com aquilo que tem em mãos, a escassez de alunos, e o ditames de uma legislação feita para centros urbanos capital de distrito e que determina mínimos por curso ou opção.

Outra notícia dá conta de, por intermédio de políticas educativas, se apostar na recuperação de um conjunto de alunos cuja tendência (estatística) seria, a partir do insucesso, o abandono precoce, ou, pela lei, terminar a escolaridade a marcar passo. São alunos que, entre dificuldades específicas de aprendizagem, denotam, essencialmente, desinteresse, alheamento quando não uma significativa indiferença à escola. São alunos que se tornam desafios pedagógicos, escolares e profissionais no sentido de os incluir (ou manter) no sistema educativo, de se lhe criarem sentidos ao trabalho escolar e à ação educativa.

Entre uma e outra das notícias, entre demografia e indiferença reside, em muito, o desafio de grande parte do país, de toda aquela parte que está afastada de uma qualquer  capital de distrito.

Ao nível da demografia, o condicionar ofertas ao nível do secundário coloca problemas de escolha, de limitação de opções, de condicionar percursos. Ao nível dos desafios pedagógicos, sejam eles em tutoria ou outros, o desafio passa por manter o aluno na escolaridade em processo dito normal.

Em ano de concurso docente a invisibilidade demográfica será o elemento mais presente nos respetivos concursos. Mas não menos será a organização da escola ao insucesso e às formas de lhe responder local e contextualizadamente. Uma e outra das opções ir-se-ão repercutir, de forma direta, no concurso, apesar de não surgirem em nenhum dos campos. Contudo, uma e outra das realidades estarão presente no concurso, mediante a não disponibilidade de lugares, a limitação de mobilidades, no condicionar possibilidades.

Uma e outra das notícias são os desafios da escola portuguesa nos próximos tempos. Desafios em identificar modos e formas de o interior não fechar, de existirem alternativas e ofertas no ensino secundário, de incluir e não excluir alunos. Desafios de se pensar a organização escolar à luz de cada realidade social.

Manuel Dinis P. Cabeça

20 de março, 2017

Coisas das aulas

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