Início Carreira docente (ECD) Continuar a roubar os profs: um dia de manha do Governo…….

Continuar a roubar os profs: um dia de manha do Governo…….

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Valerá a pena comentar a notícia do Correio da Manhã sobre salários dos profs?

Já o disse aqui, muitas vezes: se acham a educação e os professores, caros, experimentem a ignorância.

Tenho atrás de mim, 3 gerações de professores (além da minha mãe, os meus bisavós, avós e tios-avós, eram todos professores). Cresci no meio deles. Do Estado português espero cada vez menos. Lembro-me que tive de berrar no Hospital Público da minha terra para que a minha tia, professora reformada, de 100 anos, não morresse num corredor, numa maca, depois de uma vida de contribuinte e cidadã exemplar.

Não me canso de agradecer aos enfermeiros sensíveis (que merecem bem o seu salário) que perceberam que a dignidade, nem quando morremos, termina. Creio que ela, a minha mãe ou meu tio,  também professor, morreram com algum orgulho por terem descendência na docência, que não os envergonhava no desempenho. Mas, gente conservadora, eles, ou mais à esquerda, como a minha mãe, já não estavam para aturar manhas de governantes e contagiaram-me com uma descrença dos poderosos, que considero muito saudável e construtora.

Degradar a imagem dos professores: sinal do nosso atraso

A história do nosso contributo para o país não é muito falada, entretidas que estão as editoras com livrinhos de “famosos”, mas talvez valesse a pena contar histórias, como a da minha tia que, aos 20 anos, nos anos 30, levou a primeira sanita para uma aldeia do interior, onde foi a primeira professora, urbana isolada na montanha, com uma turma de 65 alunos, de onde só saía pelo Natal e pela Páscoa, para uma longa viagem de horas para a cidade que incluía descer encostas de calhaus e passar um rio de bote (caminho que hoje demora 45 minutos).

O monumento ao professor primário, que muitas terras, de interior ou do antigo litoral pobre, ainda hoje ostentam é bem merecido. Na imagem fica o de Sesimbra, em frente à escola, oferecida pelo Conde Ferreira no século XIX.

Mas, monumentos e palavras bonitas não encheram a barriga deles, nem vão encher a nossa. Os tempos mudaram e hoje, já damos de barato que digam mal de nós e acho que já só queremos justiça e menos demagogia nos jornais.

Não vamos custar mais uns quantos milhões com a esmola do descongelamento parcial. DEVEM-NOS uma data de milhões.

Trabalhamos estes anos todos, desde 2005, em condições cada vez mais difíceis e até nem berramos muito por nos cortarem ao salário recebido, por pagarmos a mais pelo desconto para ADSE (que vai aumentar as consultas, para mais), pela sobretaxa, pela má gestão das escolas (muitas vezes de incompetentes serventuários dos governos), pelos reflexos no clima escolar da crise social, pela desorganização instalada ou por tudo o resto, até as recorrentes ofensas nos jornais.

Aliás, a falta de respeito por nós é só mais uma página de uma longa história (que conheço das conversas familiares, de tempos difíceis, que recuam até há mais de 100 anos).

O Estado e os Governos caloteiros…

Quando escolhi ser professor (algo que alguns acham que não se pode sublinhar, porque “para professor só vai quem não arranja outra coisa para fazer”) tinha uma certa expetativa (baseada na leitura da lei) no contrato que o Estado fez comigo.

O Estado incumpriu, em números redondos, com as suspensões da carreira, desde 2005, em cerca de 200 euros mensais brutos, até 2009; mais 200, até 2013, e outro tanto até agora. Isto é, uns 11 mil euros , nos 4 anos do primeiro período; 22000 no segundo, e 33000, no terceiro. Isto é, entre 2005 e 2017, teria a receber o correspondente a um pequeno apartamento por conta dos impulsos salariais de escalões suspensos do passado. Entreguei esse valor ao Estado em trabalho, mas o Estado não paga, nem reconhece isso. Aliás, caloteiro encartado, quer enterrar essas dívidas passadas, sem sequer negociar.

E, agora, iniciaria mais um escalão de carreira em que me vai passar a dever mais uns 200 euros mensais. Isto porque a lei diz que é assim. E o Estado até chega a dizer que não quer pagar tudo já, do que deve do 1º dos 3 escalões anteriores (dívida que contabilizo desde 2005 e que aumentou para o dobro em 2009).

Em termos simples, devia hoje ganhar entre 500 a 600 euros brutos mensais mais do que ganho. E no período em que trabalhei, sem receber o salário bruto a que tinha direito, ainda paguei mais impostos, taxas e sobretaxas e outras alcavalas, sobre o que realmente recebia, que era menos do que o que a lei dizia ter direito.

Inveja social não é rumo de política….

O Correio da Manhã ativa a inveja social. Quem ganha 580 euros, acha que os professores, licenciados com muitos (21) anos de serviço, como eu, que ganho 1222 euros mensais líquidos (com parte do subsídio de Natal adicionada), ganham muito (2 vezes o salário mínimo). Mas o salário mínimo é que é miserável.

Desculpem a gabarolice, mas quantos dos tão imberbes assessores do governo (que ganham muito mais) têm 21 anos de experiência no setor público, 4 especializações (na área em que se trabalha) em instituições do ensino superior (feitas mesmo a estudar…) e 7 anos de trabalho como dirigentes? (Além de experiência real no setor privado que abandonei, por conta das promessas incumpridas do Estado). E na classe docente, ao contrário do que diz o governo, formação, vidas e currículos assim é coisa que não falta.

Além de que os nossos resultados e produção, em comparação internacional, falam pelo nosso trabalho.

E não lamento a escolha de carreira, porque gosto dos alunos e de ensinar. Não tenho é carreira…

A “privada” e a pública….

Na “privada”, como ainda há tempos dizia um senhor da CIP (esquecendo-se do ridículo que é a palavra também querer dizer “sanita”), ou melhor, corretamente dito, no setor privado, muita gente destaca: “mas houve quem na crise perdesse o emprego”. Pois houve.

Mas a perda de uns não pode ser fundamento para desgraçar os restantes, até porque a minha perda de salário real e potencial também ajudou a que nem tantos o perdessem e ainda pagou muita coisa que não precisava de ser paga.

Além disso, houve muitos docentes contratados que também ficaram desempregados (milhares), nestes anos, e que, por isso, também perderam o emprego. Aliás, eles desaparecerem do sistema, ainda fez com que os que lá ficavam trabalhassem muito mais e as condições das escolas piorassem muito.

Se um empresário privado quiser cortar ao salário tem grandes problemas jurídicos com o mesmo Estado, que o fez a milhares, há mais de 10 anos, sem grande drama e quer continuar a fazer.

Os bons alunos realmente não aturam isto…

Andam muito preocupados com os bons alunos, que não querem ser professores. Se este não fosse um blogue bem educado, este bom aluno, mandava-os a um sítio em linguarejar bem minhoto… (20 no acesso ao ensino superior é ser-se bom aluno? Em 1989, não havia reportagens nos jornais para os 20, nem gostaria de falar disso, mas agora já nem me contenho, atingiu-se o limite da falta de vergonha).

Só um estúpido, hoje, aceitaria as promessas futuras do Estado sobre carreira, condições de trabalho e salário. Há 22 anos, fiz (estupidamente, sei hoje) um contrato com o Estado que este incumpre alegremente há 12, e quer prosseguir.

Na Finlândia, de que tanto falam, pagam com justiça e o Governo não faz spin e manobras manhosas nos jornais contra os professores, por estes quererem respeito pelo que lhes prometeram.

E não digo mais nada, porque, como diz alguém que me é próximo, há sempre a alternativa de mudar de trabalho ou emigrar para ter o salário justo.

Muitos já o fizeram e as notícias que mandam até são boas. E podia fazê-lo (posso sempre fazê-lo), mas o Estado, antes, vai ter de começar a cumprir o contrato que firmou comigo, até porque, dizer para me ir embora, equivaleria moralmente ao que disse Passos, esse que a geringonça, indignada com ele, ía superar….

E pois! Está a superar!

Esse, afinal, cortava e não se lamuriava por isso….

Afinal não viraram a página?

António Costa e Tiago Brandão Rodrigues, Centeno, o PCP e o Bloco que se deixem de tretas….

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