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A constituição das turmas

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O artigo que se segue é da autoria de Eduardo Sá. O conhecido psicólogo e psicanalista levanta uma série de questões pertinentes sobre a constituição das turmas, tocando em algumas feridas. Porém, o facto de não “viver” na escola leva-o a não referir dois aspetos importantes que menciono no final.

A TURMA A

Os nossos filhos estão, por esta altura a regressar às aulas. Com o frenesi de reencontrar amigos, professores, rotinas, lugares, o cheiro dos livros novos, o material imaculado, etc. E a nova turma, claro. Falemos, hoje, da forma como se constituem as turmas.

Fará sentido que, depois de constituída uma turma, ela acompanhe, por vários anos de escolaridade, os nossos filhos? Qual será a mais-valia de uma turma que se constrói no jardim de infância (acreditem, não é enfático; isto existe!) e os acompanha até ao 9.º ano de escolaridade, por exemplo? Alguém ganha que, dentro de uma turma, se definam vários papéis, de forma informal, tais como: “o certinho”, “o distraído”, “o preguiçoso”, “o rebelde”, ou “o inteligente”, e assim se mantenham por vários anos? Porque é que parece ser prejudicial, aos olhos de quase todas as escolas, que cada turma “se divida em três ou em quatro” e esses diversos meninos se organizem, todos os anos, em novas turmas, obrigando-os a todos a reorganizar os seus lugares num grupo, a empenharem-se a conquistar um novo espaço e um novo papel no contexto dos novos colegas da turma, obrigando-os assim a crescer com a diversidade e com a pluralidade? Porque é que, por mais que quase todas neguem essa espécie de desigualdade, a Turma A de imensas escolas pareça ter meninos agrupados de forma muitíssimo pouco aleatória, considerando os respetivos apelidos e a sua ascendência social? Será que uma escola ganha quando separa os meninos de “classe A” dos “NEE’s” (como, tantas vezes, de forma tão escandalosamente discriminatória, são referidos os meninos com dificuldades escolares)? E o que é que lhes traz como experiência amiga do futuro uma escola que assume ter turmas a “duas velocidades”, disciplinas de “categorias” diferentes e áreas de estudo de “1.ª” e de “2.ª” às quais são atribuídos professores, claramente distintos, considerando as suas competências, a sua experiência e a sua formação pedagógica? Como pode uma escola ser educativa e democrática quando, ao mesmo tempo, discrimina? Como pode ser um bálsamo que democratiza o mundo à boleia das desigualdades que acentua? Pode a forma como se constituem as turmas ajudar a enviesar a relação das crianças com a escola e, em vez dela ser vivida como um local onde se cresce com a pluralidade, criar-se uma tendência para a unicidade que dá a muitas turmas uma aragem de “apartheid” e de “xenofobia” muito pouco amiga do mundo em que os nossos filhos vão crescer? Será um prenúncio de sensatez que a alunos com melhores resultados se atribuam professores com mais recursos educativos e aos alunos com maiores dificuldades professores menos experientes, por exemplo? Como pode uma escola ser, ao mesmo tempo, séria na forma como reúne recursos e os estimula no sentido do conhecimento e batoteira, considerando o modo como separa e divide? Poderá esta forma de crescer na escola tão pouco versátil e tão pouco aberta à transformação e à mudança e à pluralidade ser um local onde se aprende a conviver com a vida e com todas as pessoas que ela nos traz? Como pode uma escola ir acentuando a exclusividade ao mesmo tempo que se reclama inclusiva? Como pode uma escola esquecer que a vida é, ela própria, “o ensino público” que a escola, pública ou privada, nunca será, se alimentar estes vícios de forma que torna os meninos diferentes na forma como lá chegam e, ainda, mais diferentes, quando de lá saem? Não poderá uma escola amiga das “turmas A” correr o risco, perigosíssimo, de estar a formar, contra a vontade de todos, estudantes da “classe B”?…

Acrescento então dois aspetos relevantes que não constam da sua análise:

  • a discriminação dos alunos com necessidades educativas especiais, é na minha opinião uma afirmação profundamente injusta tendo em conta a evolução que ocorreu na Escola Pública  nos últimos anos. Eduardo Sá esquece-se ou desconhece, o preço que alguns alunos ditos “normais” estão a pagar pela imposição de uma inclusão muitas vezes feita sem os recursos necessários.
  • O elevado número de alunos por turma é  um problema efetivo que dificulta a aprendizagem e potencia a indisciplina em contexto de sala de aula. A redução há muito defendida e unânime entre os professores resolveria muitas das questões colocadas.

2 COMENTÁRIOS

  1. Como já estou habituada a dar opiniões, sem que mas peçam, mais uma vez …
    Então, transcrevo parte da minha participação na Consulta Pública de Março de 2016:

    “2. “Na constituição das turmas prevalecem critérios de natureza pedagógica definidos no projeto educativo e no regulamento interno do estabelecimento de educação e de ensino, competindo ao diretor aplicá-los no quadro de uma eficaz gestão e rentabilização de recursos…é respeitada a heterogeneidade das crianças e jovens, podendo, no entanto, o diretor, após ouvir o conselho pedagógico, atender a outros critérios que sejam determinantes para a promoção do sucesso e para a redução do abandono escolar…”

    Nesta determinação legal, nem diretor, nem DGEstE, ao aprovar a constituição de turmas, (generalizando), têm apresentado as devidas preocupações pedagógicas. Apenas tem interessado o facto da(s) turma(s) apresentar(em) o número máximo de alunos, mesmo quando mistas e com Necessidades Educativas Especiais em número superior ao permitido. Os critérios de formação, a definir pelo C. Pedagógico, ou não o são, ou não são conhecidos por quem constitui as turmas- falando na experiência no Agrupamento a que pertenço.

    2.1. Proponho, para clarificação desta situação de fundamental importância no trabalho dos docentes e no sucesso dos alunos, que só seja permitida a constituição de turmas mistas, em anos de escolaridade, nas escolas com menos de 4 lugares, sendo o número médio de alunos por turma, de 20(vinte).
    Em cada grupo/turma, para se obter um nível aceitável de rendimento no trabalho diário, formam-se sempre, dois, três… subgrupos com trabalho individualizado. Acresce ainda a estes subgrupos, a existência de Necessidades Educativas Especiais, que requerem um acompanhamento atento e disponível do professor.

    2.2. Apesar de prevista na Lei, a constituição de Grupos de Homogeneidade Relativa não é tida por prática corrente nas escolas, cujo funcionamento me é conhecido. Sugiro que, após período de Avaliação Diagnóstica (normalmente as duas semanas iniciais no ano letivo) ou, em qualquer altura que se verifique necessário, se reúna o Conselho de Docentes de Estabelecimento e se integrem alunos em outras turmas/grupos com características semelhantes de aprendizagem. Esta estratégia, será, segundo penso, a mais adequada para provocar a motivação do aluno e levá-lo a ultrapassar dificuldades, que poderão inclusivamente ser temporárias (por exemplo, após um período de doença).”

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