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CNE muda o discurso e alinha com o Ministério da Educação

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Em primeiro lugar tiro o chapéu a uma senhora com 75 anos que aceita o desafio de presidir o Conselho Nacional de Educação.

A pedagoga Maria Emília Brederode Santos substituiu, em outubro, o ex-ministro David Justino, que seguramente não deixou saudades na 5 de outubro. A sua primeira entrevista, mostra uma evidente aproximação com a linha ideológica do secretário de Estado João Costa e o seu ministro Tiago Rodrigues (a prioridade dos nomes não foi inocente).

Gostei do que li, não vou escondê-lo, sou um crítico de um ensino centralizado no Português e Matemática e que se esqueceu da importância das Expressões. O ensino precisa de ser muito mais que contas e letras (não se ofendam por favor) e a escola não pode continuar exame ó dependente, valorizando rankings, sacrificando alunos e suas aprendizagens apenas para ficar bem na fotografia.

Também gostei da ideia de uma intencionalidade educativa para crianças dos 0 aos 3, a creche pode reforçar o seu papel no desenvolvimento social e cognitivo das nossas crianças, mas para isso, o Governo tem de dar condições para que TODAS as crianças usufruam de um ensino pré-escolar de qualidade e gratuito.

Fica um excerto da sua entrevista.

No seu seu texto defende o “reforço da intencionalidade educativa junto das crianças dos 0 aos três anos”. Quer isso dizer que deve existir um currículo para crianças tão pequenas?
Tudo isto são assuntos a analisar. Claro que não pode ser confundido com a ideia de um currículo escolar, mas a intencionalidade educativa já existe porque todas as creches têm de ter uma educadora de infância. É mais uma questão de se tomar consciência da importância disso. Porque há muito a tendência de se pensar que dos 0 aos 3 anos o que é preciso é que as crianças estejam bem alimentadas, estejam seguras, bem cuidadas. Mas também é importante conversar com elas, brincar com elas, contar-lhes histórias, ler-lhes poesias e é chamar a atenção para isso sem que se caia no excesso de estimulação.

Em Portugal há o compromisso de se universalizar o pré-escolar aos três anos de idade até 2020, mas o último Estado da Educação aponta para uma redução da proporção de crianças a frequentar este nível. Tem algumas pistas para explicar o sucedido?  
Não, mas penso que devíamos ir ver, analisar, porque só constatar não chega. O Estado da Educação é um retrato, assim como alerta o Ministério da Educação e a Assembleia da República para determinados problemas, também nos deve alertar a nós próprios para tentar, sempre que possível, perceber o que as coisas significam.

Falando do estado da educação, como é que define hoje a escola em Portugal?
Como uma escola que fez uns avanços extraordinários, pelo menos no que é medido pelos testes internacionais e em certas disciplinas, mas receio que também esteja um pouco cristalizada e tenho pena de que tenha perdido a riqueza curricular. As pessoas, os meninos, são tão diferentes e há quem possa dar o melhor de si de outra maneira que não só na matemática e na língua materna.

Era importante que houvesse uma muito maior variedade de actividades e de aprendizagens. Por [uma questão de] justiça individual, já que toda a gente merece desenvolver-se em vários aspectos, mas também por justiça social, porque enquanto existem meninos cujas famílias valorizam a música e o teatro e os levam a essas actividades, há outros que não têm essa possibilidade. E, já que a escola é a única rede que chega a toda a gente, deveria proporcionar a todos essas aprendizagens e esse contacto com outras realidades.

Considera então que nas escolas existe pouco espaço dado ao conjunto das expressões?
Sim. Há pouco espaço dado às expressões artísticas, à educação para a cidadania, às tais questões transversais de que já falei.

Mas isso não aconteceu sempre?
Não, começou a acontecer quando os testes internacionais começaram a realizar-se. Estes testes foram e são importantes para nos ajudarem a situar e para ver que progredimos mas, como se situam só em certas áreas, também tiveram esse efeito redutor.

Que também foi potenciado pela generalização dos exames?
Penso que sim. Considero que de vez em quando é importante haver exames, mas quando se introduz esta avaliação tem de se ter consciência dos efeitos perversos que por vezes esta tem, como o de valorizar só determinadas áreas que são mais facilmente examinadas.

A função dos exames e da avaliação pode ser múltipla. Mas como pessoa da educação estou mais interessada nas informações que me podem dar para melhorar. Se um menino mostra dificuldades na resolução de um teste o que me interessa é tentar identificar quais são essas dificuldades, e porque é que existem, para poder intervir imediatamente para melhorar.

Fonte: Público

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3 COMENTÁRIOS

  1. E por falar em rankings, onde estão?
    Já pedi os ficheiros ao JNE e ainda não há autorização para os divulgar.
    Nunca houve um ano assim.
    Por que será?

  2. A parte mais importante, que dá cabo do delicodoce, não aparece… Aquela em que esta educação tão boa, tão amiga das criancinhas, tão modernaça, tem um objetivo: servir o novo paradigma económico que se avizinha! Isso no meio de tanta maravilha é mesmo um pormenorzinho…

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