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Chumba ou passa?

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Após conclusão dos Conselhos de turma as decisões de transitar ou reter alunos votando notas, discutindo pontos de vista, acusando uns, ilibando outros, marcaram o ritmo das várias reuniões.  Quero, assim, recordar um texto que escrevi há um ano mas que podia ter sido escrito no final deste ano letivo.

“Inicio este texto admitindo, atualmente, a minha dificuldade em conseguir posicionar-me neste tema, independentemente das óbvias relativizações a ter em consideração nesta decisão sensível. E sei que não consigo posicionar-me porque o foco não deverá ser o “chumbar” ou “passar”, mas sim, o que fazer para tentar ultrapassar as dificuldades sentidas.

Admito ter passado de um posicionamento bastante rígido em relação à não transição para um modelo que considero hoje “mais equilibrado”. Um estudo de 2016 revela que Portugal está na categoria de países onde os alunos mais “chumbam.” E também está na categoria dos países que mais associa o chumbar ao baixo estatuto socioeconómico.

“Portugal é de todos os países da Europa aquele que mais associa chumbar com um baixo estatuto socioeconómico e cultural da família. Na Holanda, sendo um país onde chumbar é uma prática corrente, existe praticamente paridade de chumbo entre classes sociais mais e menos abastadas. As escolas portuguesas parecem estar a ser incapazes de fazer um trabalho de nivelamento de oportunidades, principalmente se nos lembrarmos que é até ao 6º ano que a maioria dos chumbos acontece.” http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-01-30-Chumbar-melhora-as-aprendizagens-

Se a escola serve para diminuir diferenças entre estratos socioeconómicos e permitir as mesmas oportunidades, percebemos que muitas vezes falha nesse objetivo.

Existem muitos aspetos que se devem ter em consideração na decisão de transitar ou não transitar um aluno: as aquisições, o perfil psicológico do aluno; o acompanhamento da família e o ano de escolaridade em que se encontra. Considero que quando estamos perante uma situação onde claramente o aluno demonstra ter competências mas em casa não consegue um apoio suficientemente bom, não deverá pagar o preço pelas condições em que e onde nasceu e pelas respostas deficitárias.

Numa recente “discussão” que tive há pouco tempo verbalizaram o seguinte: “O(a) aluno(a) não pode pagar por aquilo que a escola não é capaz de dar. A não ser que o aluno seja completamente irresponsável no seu processo de aprendizagem. Quem se esforça mesmo com limitações não deve ver o seu caminho cortado.”

A marca de uma retenção não é facilmente contornável, depende de vários fatores e por isso devemos questionarmo-nos em que medida é que esta visão pode promover o sucesso do aluno?

Recordo-me do caso de um aluno que revelava ainda muita imaturidade e agitação psicomotora. Este seu perfil reflectia-se, naturalmente, no seu desempenho escolar. A preocupação dos pais e professores traduzia-se no alheamento aos conteúdos abordados. Foi retido no mesmo ano (7ºano). No final do ano em que esteve retido, o aluno conseguiu ultrapassar as suas dificuldades principalmente pela grande sensibilidade dos pais que compreenderam que o mais importante era encontrar uma estabilidade emocional que não estava a ser conseguida e dos professores que (importante salvaguardar que se mantiveram) desempenharam uma função motivadora e nunca castradora. As notas passaram, sem qualquer “água benta” para níveis positivos e muito positivos. Este caminho foi possível pelo projeto em conjunto do aluno, pais e escola.

Da mesma forma que olhamos para o não transitar como um rótulo negativo e um peso psicológico para o aluno, também o devemos olhar para uma transição desmedida sempre assente na premissa de não “ficar para trás” a todo o custo. Cada caso é um caso e se tenho dificuldade em ter uma visão taxativa na decisão de transitar ou não, também a tenho em rotular a retenção taxativamente como algo extremamente negativo e sempre dramático.

A questão que se deve colocar é: Não transitando o aluno haverá condições para trabalhar as competências e potenciar as vivências necessárias para progredir com mais segurança? A decisão tem de ser sempre a longo prazo e nunca de um ano para outro avaliando naturalmente todas as variáveis.”

 

 

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1 COMENTÁRIO

  1. O problema do chumbo muitas vezes não é o chumbo em si, é remeter o chumbo para a repetição de algo que não correu bem. A repetição por si só não muda nada, como também é verdade que transitar um aluno sem bases ou falta de atitude não garante o sucesso no ano seguinte, até premeia o que não deve ser premiado.
    Avaliar é seguramente o ato mais difícil dum professor e os finais de ano podem ser particularmente penosos…

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