Início Editorial “Chega meninos, estou farto! Se não vai a bem vai a mal…”

“Chega meninos, estou farto! Se não vai a bem vai a mal…”

328
30
COMPARTILHE

Ando chateado com uma turma que estou a lecionar, não é a primeira vez que acontece nem será a última e apesar da tolerância/paciência que tive ao longo do 1º período, as atitudes e níveis de maturidade continuam aquém do exigível, pelo menos para os meus parâmetros.

Sintomas:

– baixos níveis de concentração;

– atitudes infantis entre pares e para com o professor;

– interrupções sistemáticas de quem está com a palavra, seja aluno ou professor;

– afastam-se/levantam-se/viram-se de costas durante as explicações/orientações do professor;

– conversas paralelas;

– desinteresse pela disciplina;

– ignoram as advertências do professor;

– risinhos e comentários inapropriados;

e, a mais grave de todas…

– total inconsciência da gravidade das suas atitudes.

Ou seja, são alunos que não são maus miúdos, mas encaram a escola como algo que ela não é, um recreio. Este é um exemplo claro da pequena indisciplina, algo tão comum nas nossas escolas. Mas apesar de não haver atitudes graves, como violência física ou psicológica, a pequena indisciplina é tão ou mais perturbadora para o processo de ensino-aprendizagem. As pausas constantes para chamar a atenção, para focar novamente os alunos, para melhorar o seu desempenho, fazem gaguejar o motor da aprendizagem e ficamos com a sensação que passámos metade da aula com coisas estúpidas, supérfluas, sem sentido, como o diz que disse e birrinhas de palmo e meio…

Não pensem que não tentei contornar a situação, já e por vários caminhos:

– diálogos individuais e coletivos sistemáticos (e quando digo sistemáticos é mesmo em todas as aulas);

– advertências/repreensões;

– castigos de cariz pedagógico;

– exercícios com forte componente lúdica e competitiva, de modo a incutir uma maior motivação pela disciplina;

– ordem de saída da aula (por duas vezes);

– comunicações à diretora de turma.

Ou seja, tentei a bem, principalmente a bem, e apesar da “tampa” que me saltou de vez em quando e de ter tido um efeito anestésico para algumas aulas, rapidamente os vícios antigos regressaram. Sei que os “cavalinhos selvagens” quando mudam de ciclo demoram algum tempo a serem “domados”, normalmente a coisa chega ao ponto que pretendo, mas desta vez a anormalidade teima em ser normal.

O que vou fazer? O que posso mais eu fazer? Essa é a questão… o que posso mais eu fazer??? Sei que me estou a expor publicamente e haverá certamente um de vós que vai achar que devia ter feito “assado” ou “cozido”, mas fiz aquilo que achava mais correto, não desisti ou ignorei, continuei a trabalhar apesar da frustração e irritação que esta situação me tem causado.

Vou fazer algo que não gosto de fazer, vou “quebrar” aquela turma e não vou dar-lhes tempo sequer para respirarem. Chega do professor compreensivo, comunicativo, bem disposto que gosta de ensinar a brincar. As aulas não devem ser uma “seca”, as aulas não devem ter um ambiente repressivo, intolerante, ditatorial, em que os alunos se sintam incomodados, afinal, estamos a falar de miúdos que ainda não possuem os “filtros” devidamente calibrados.

As primeiras aulas deste segundo período serão semelhantes a um “regime militar”, com o cumprimento das medidas disciplinares que constam no Estatuto do Aluno/Código de conduta. Estes miúdos precisam de entender que para atingir o sucesso é preciso estar focado, concentrado e levar as coisas a sério. Precisam de entender que também eles têm uma profissão, que devem ter brio e que só assim é possível aprender, mas aprender mesmo, sem utilizar a escola como um passatempo ou algo que se vai fazendo… Os alunos precisam de assimilar um princípio básico da sociedade, que as suas atitudes têm consequências, sejam elas boas ou más…

Os pais, a sociedade em geral, gastam muito dinheiro e depositam muitas esperanças nestes jovens que são o futuro de amanhã. No entanto, parece que alguns destes “futuros” vivem numa bolha de irresponsabilidade, num ambiente demasiado confortável quando tanto está em jogo.

É preciso “abanar” certas cabeças, cabeças que pensam que o mundo se resume ao snapchat, facebook e mais alguns irmãos digitais…

Vai doer e não me vai trazer qualquer satisfação, mas é para seu bem, mesmo que só se apercebam disso daqui a umas semanas, quando voltar a afrouxar os níveis de intolerância e o sorriso surgir mais algumas vezes.

Alexandre Henriques

30 COMENTÁRIOS

  1. Assim são os meninos imaturos do 1.º Ciclo. A maior parte do tempo não é gasto a lecionar. É destinado a educar, a disciplinar.

    Quando me farto, costumo dizer:
    – Não estou aqui para gostarem de mim. Estou aqui para trabalhar! Por isso, vamos trabalhar!!!

  2. Colega:
    Para que não se sinta “só”, devo dizer-lhe que ” também estou no mesmo barco”! Estou cansada, saturada e farta, fartinha de já ter este problema há vários anos seguidos. Este ano letivo pedi afetação para outra escola dado que pensei que talvez mudar de ambiente me fizesse bem, “des-stressasse” e ainda que com alunos de outro meio totalmente diferente talvez conseguisse continuar a gostar de fazer o que faço – ENSINAR! Infelizmente tal não aconteceu e penso que tenho mesmo que utilizar as práticas antigas dos regimes ditadores, ignorando toda a pedagogia que sempre usei, aplicar regras com as quais não concordo, enfim… fazer do processo ensino-aprendizagem tudo o que à partida está errado! Claro que desmotiva, entristece e parece que desistimos de dar o nosso melhor! Mas se é este o público que se apresenta à nossa frente, o que podemos fazer após anos e anos e anos de batalhar? Marchar, marchar e continuar a marchar.

  3. Pois, hoje, numa turma do 3º ciclo que tem alunos com a capacidade para serem excelentes, pedi cadernetas e enviei recados para casa. Ralhei muito contra o meu hábito de tentar que se interessem porque as coisas são interessantes. O que me fez saltar a tampa: um aluno mediano, que não trabalha há várias aulas, sempre a tentar conversar com os colegas que o rodeavam. Tentei que sossegasse e que tomasse atenção. A certa altura respondeu-me que não ficasse preocupada que resolvia os exercícios da aula na explicação…

    Foi o motivo do ralhete: a maior parte dos meus pequenos não tem vergonha de gastar o dinheiro ganho a duras penas pelos pais em explicações que não servem para melhorar, só servem para repetir o que já foi dito nas aulas-

  4. Quando a única “arma” (a avaliação) é medida em percentagem de sucesso ou insucesso e os orçamentos escolares dependem disso. É o que dá. Não há política de mérito, pois alunos com 8 negativas chegam ao final do 3 período com 2 e transitam de ano…
    Tenho pena do aluno que realmente se importa e esforça para chegar ao mercado de trabalho e ser ultrapassado pelos conhecimentos do papá do menino que esteve para reprovar…
    Assim vai o país e está agora a começar, a longo prazo serão catastróficas as consequências desta faltada de exigência em prol de euros e dos horários zero que há por preencher…
    Força colega! Está sempre a tempo de mudar eu mudei para não me sentir cúmplice deste desastre em que se tornou a educação…

  5. Quando a única “arma” (a avaliação) é medida em taxas de percentagem de sucesso e insucesso em prol de euros, o resultado só podia ser este. Meninos que tem 8 negativas e chegam ao final do ano apenas com duas e transitam de ano por causa dessas ditas taxas…
    Apenas tenho pena dos bons alunos que se esforçam muitas vezes em situações muito complicadas e quando iniciam a entrada ao mundo laboral são ultrapassados por esses mesmos meninos que estiveram para reprovar uma datas de vezes, pois o papá tem uns bons conhecimentos…
    É este o estado da educação e do país em prol de euros a mais nos orçamentos anuais, para manter horários zero e projectos fantasmas para o Prof. A/B e C que também é amigo do gerente do mega agrupamento…ou da mesma cor politica.
    Sei que é difícil, mas o colega está sempre a tempo de mudar e no meu caso, de me deixar de sentir cúmplice deste sistema “teatral”. Ganhei muito mais em saúde e sanidade mental do que nos euros que vinham no recibo!
    Prefiro ouvir durante 8 horas os sons dos códigos de barras do que ser cúmplice de politicas meramente capitalistas. (fui professor durante 10 anos)
    Força!

  6. Depois desta descrição/desabafo surge-me apenas um pensamento: tomara que nunca venha a ser professor do meu filho!!! Agressividade, coerção, castigos, culpabilização…. Não acho que seja a via de alcançar alunos “disciplinados”. Enquanto não se conseguir que eles queiram estar na escola, na aula, com vontade de aprender, não é com atitudes destas que se chega lá! Bem sei que ser professor não é fácil, mas experimente escutar, observar, dar atenção, tentar compreender cada um deles e perceber o que é preciso para os motivar. Quem sabe assim os resultados sejam diferentes. Desta maneira ou de outra, desejo boa sorte.

    • E eu também espero que nunca seja mãe de um aluno meu. Mas o que é que a senhora sabe sobre a minha forma de dar aulas. Tirou-me o raio-X numa página foi??? O que é que acha que fiz ao longo do 1 período???

    • Daniela, por este comentário se vê que você é a culpada por o seu filho ser igual ou pior que estes pequenos ditadores que abundam em todas as escolas. Se educasse como deve ser não escreveria o que escreveu (tenho a certeza).

    • O politicamente correto é uma grande treta… Eu queria ver a caríssima senhora, com o devido respeito, a lecionar uma hora de algumas turmas que conheço: não estamos sequer a falar do tipo de comportamentos que aponta o Alexandre Henriques mas de alunos altamente indisciplinados e violentos. Comigo não têm hipótese , por determinadas caraterísticas físicas, e algum treino específico que tive… Com colegas que não reúnem determinadas caraterísticas, ou são mais frágeis, a coisa não é bonita de se ver… Só lamento que não haja medidas concretas para proteger alguns professores…E estamos a falar de excelentes professores muito abertos ao diálogo, etc e tal…

  7. Tenho um neto a “estudar ” na Visconde de Juromenha e é raro o dia que o Dir. de Turma não se queixe do que é dito em cima não é por falta de chamadas de atenção em casa, não é por falta de castigos,é sim (a na minha modesta opinião ) o ensino depois do 25 de Abril de 74 passou do 8 para o oitenta. Os Prof. perderam a autoridade não se pode dar uma palmada, não se pode fazer uma chamada de atenção mais ríspida, não sou a favor da palmatória nem da cana da india mas digo uma boa palmada SIM.Obrigado Senhores Professores por aturarem esta geração de meninos quase entregues a si próprios e que mal falam com os pais. !!!

    • Uma boa palmada? O senhor devia ter vergonha do que está a dizer. O ensino devia sim levar uma grande volta porque está exatamente igual a como se encontrava no 25 de Abril. E este país está cheio de gente retrógrada como o senhor que acha que é à porrada que se resolvem problemas. E depois a nova geração é que está perdida! Que vergonha!

      • Concordo que não deve ser à palmada que se resolvem as coisas… mas o que leio são coisas como a que a senhora escreve. E se sugerisse algo? Eu gostaria muito de saber o que iriam fazer certos pais frente a 26 alunos que não ligam nada, que ignoram completamente o adulto que está diante deles!!! A sério que gostaria, diga, como devemos proceder na sala de aula, com 26 destes exemplares sempre assim?! Esse é que é o desafio. Por isso não critique – seja parte da solução! Pelo menos, o leitor anterior fez uma – que você concorde ou não, já é outra coisa 🙁

  8. No geral, e é indiscutível, muito transversal a nível nacional esta imaturidade, mas não era assim há 20 anos, havia muitos sargentos mas muita mais indisciplina, a diferença é que naquele tempo os alunos eram outros, ou seja, nós. Claro que agora todos irão dizer, pois mas o meu pai dava-me cabo do canastro, e eu digo, hoje em dia até para ir ao pão temos medo do bicho papão e vamos nós. Se calhar, somos adultos mas, imaturos. Tenham mais alguma paciência e fé, uma dia eles ou o ensino pode mudar.
    Nota: Acho que foram estes alunos que tiraram excelentes resultados no pisa e outros, como é do vosso conhecimento e trabalho. Parabéns para os que trabalham nesse sentido.

  9. Este texto reflecte exactamente o que se passa na turma do 7°ano da escola do meu filho.
    A infantilidade e irresponsabilidade de alguns prejudicam seriamente o sucesso escolar de outros, que estão motivados e empenhados no processo de aprendizagem! E, surpresa, miúdos repetentes colocados todos nesta turma, enquanto que outras saem incólumes das entradas de novos alunos de ano para ano!
    Se os professores já não sabem o que fazer, que diremos dos pais que vêm o seu educando a batalhar para conseguir aprender nas aulas no meio da desestabilização ???!!! Há que impôr e fazer cumprir regras, mesmo que isso signifique suspensão desses alunos, pois uns não têm que ser prejudicados pelo mau comportamento de outros!!! Chega!!! É necessário mudar!!!

    • “pois uns não têm que ser prejudicados pelo mau comportamento de outros!!!”
      E esta afirmação deve estar bem presente no consciente dos professores e diretores…

  10. Caro colega,
    li o seu texto e não poderia ficar indiferente.
    está certíssimo… o caminho do diálogo é o melhor… caso resulte… se não resulta resta o seu plano B e acredite que tem que ser firme nessa meta e irá dar resultados.
    Muitos desses alunos não aprenderam o essencial: cada escolha acarreta a sua respetiva consequência.
    E faz muito bem falar, partilhar … e meio caminho para se resolver o lugar de algumas “pedras” que semeiam pelo caminho…e fazer delas um pequeno futuro castelo…

  11. Obrigado pelo texto brilhante… julgava-me sozinho nesta “selva”, mas consegui sentir-me totalmente compreendido.
    Todas estas palavras não se aplicavam somente 1, 2 ou 3 ciclo, estas palavras aplicam-se a todos os níveis, inclusive no ensino profissional e até mesmo no primeiro ano de universidade!
    Considero esta descrição e grave problema social!

  12. A DT do meu filho queixa-se que a turma dele é igual e que já não sabe o que fazer. E o que noto cá em casa é que quando estudo com ele para os testes parece que nunca ouviu falar da matéria.
    Gostava que pudesse partilhar depois o que fez com os seus alunos este período e se resultou para que possamos de certa forma dar dicas aos nossos professores.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here