Rubricas


Topo e Fundo | Pré-escolar e flexibilização pedagógica.

No Topo: Universalização do pré-escolar a partir dos 3 anos

Não é propriamente uma novidade, pois o alargamento da rede pública de educação pré-escolar, de forma a abranger todas as crianças a partir dos 3 anos de idade, já constava do programa do governo. Mas a aprovação de duas resoluções no Parlamento que não só relembram ao governo o seu compromisso, a cumprir até ao final da legislatura, como lhe dão indicações claras acerca de como o deve fazer, é significativa: mostra que esta medida estruturante para o nosso sistema educativo reúne o mais amplo consenso entre todos os partidos com assento parlamentar.

Universalização não significa frequência obrigatória: o Estado fica obrigado a garantir uma oferta educativa com capacidade para receber todas as crianças entre os 3 e os 5 anos, mas as famílias são livres de inscrever, ou não, os seus filhos. O objectivo é conseguir uma taxa de pré-escolarização próxima dos 100%, o que só se consegue com a gratuitidade da componente educativa e um pagamento da componente de apoio à família ajustado ao rendimento familiar.

A frequência universal da educação pré-escolar é condição fundamental para garantir uma escolarização de sucesso para todos. A base de quase tudo o que precisamos de saber na vida adquire-se no jardim-de-infância: a fazer amigos e a descobrirmo-nos a nós mesmos, a cooperar e a competir saudavelmente, a ouvir os outros, a exprimir opiniões e a fazer escolhas. O infantário é o local onde, brincando, também se aprende, e onde se adquirem competências sociais que irão servir pela vida fora: cumprir regras de sociabilidade e convivência, ser tolerante com as diferenças, compreender e respeitar os outros.

 

No Fundo: A trapalhada da flexibilização pedagógica

Quando, num estudo recente, se contabilizaram cerca de 40 mudanças curriculares nos últimos dez anos, entende-se o sentimento de desconfiança generalizado sempre que se fala em reformas educativas: cada governo quer deixar a sua marca, e o actual não é excepção. Desde cedo se percebeu, sobretudo no secretário de Estado João Costa, um ímpeto reformista que levou a conceber um conjunto de mudanças que passariam pelo reequilíbrio das matrizes curriculares e por mexidas nos programas para os tornar mais exequíveis com um novo “paradigma” educativo: uma organização escolar flexível, com tempos para a articulação interdisciplinar, o trabalho de projecto e maior atenção ao desenvolvimento das competências de cidadania.

Contudo, as mudanças desejadas esbarraram, por um lado, na forma apressada como o ME as quis implantar, e por outro, nas resistências surgidas de vários quadrantes, pelo que a reforma prevista para arrancar no próximo ano vai afinal ser substituída por uma experiência-piloto num conjunto de escolas voluntárias. E a flexibilização já não é “curricular”, mas apenas “pedagógica”, pois entretanto se assumiu que no currículo não se mexe. Pelo meio, tivemos o ensaio de uma vaga de fundo em apoio da reforma educativa, materializada numa inédita carta aberta de 14 associações de professores, que logo suscitou fundadas suspeitas de ter sido concebida no próprio gabinete do secretário de Estado.

No final, voltou-se ao velho e fiel “paradigma” de todas as reformas e contra-reformas educativas em Portugal: quando a confusão é demasiada, empurra-se para as escolas, e a sua autonomia, a resolução dos sarilhos e contradições a que os confrontos e protagonismos.

 

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa.


Comentários da Semana | Susana Ferreira, Virgínia Pacheco e Carina Marques 2

Os filhos mentem aos pais e a Escola é que se lixa…

Susana Ferreira Mas isto não é novo, pois não?… Já a minha mãe e a minha avó, quando crianças, mentiam aos pais para ocultar/suavizar os disparates que faziam..
É natural nas crianças… O que é , de facto, novo e assustador são estes pais tão pouco preparados e insensatos para fazer a leitura e triagem do discurso dos filhos… Em última instância, as maiores vítimas desta deseducação dos filhos, serão os próprios pais, pois terão que aturar imbecilidades até ao fim da vida…
Virgínia De Assis Pacheco Concordo que seja público e “universal” a partir dos três anos, mas atualmente com um corpo docente cada vez mais envelhecido, com 25 crianças onde temos pouca ajuda e de fraca qualidade, com crianças que mesmo de 5/6 anos não conseguem vestir um casaco e nem para comer e/ou ir à casa de banho tem autonomia, só podem estar a gozar com todos os intervenientes (crianças, pais e docentes). Não podem querer “despejar” crianças de três anos nas escolas, sem primeiro criarem condições para isso!! Quando tudo começar a correr mal, porque nestas condições não vai correr bem, ainda vão ter o descaramento de culpar as educadoras e as escolas!!
Carina Marques Este ano tive um aluno porque insultou um colega dentro da sala e eu ralhei…levantou-se, tentou empurrar-me e levantou-me a mão, dei-lhe uma palmada na mão… Ligou à mãe a dizer que lhe dei uma “chapada” na cara. A mãe chegou e foi primeiro falar com o menino. Chegou ao pé de mim a dizer que eu bati no filho e que lhe marquei a mão. Eu respondi que não vinha para a escola para ser insultada, desrespeitada e muito menos agredida por um aluno. Eu não bati no filho, eu apenas baixei-lhe a mão e sempre que ele ousar levantar a mão para mim eu vou baixar-lhe a mão, ela que fizesse o que entendia. Nunca mais miúdo algum reagiu assim para mim, a má educação é desculpada por ser aluno com NEE. Tenho a dizer que é um aluno do 1º ciclo, que já insultou e bateu em vários colegas e adultos na escola. O ano passado o professor titular assistia a todas as aulas de inglês porque a colega estava grávida e tinham medo da reação do miúdo. Comigo já o avisei, se me toca leva….e resultou …estes miúdos não têm limites e acham que podem fazer o que querem.

Pare, Escute, Olhe… e Pense!

Não. Não é o slogan da Prevenção Rodoviária Portuguesa. É mesmo para todos nós, um pequeno alerta sobre aquilo a que se tem assistido na Educação, nos tempos recentes.

Todos nós sabemos que o sucesso de um tratamento médico(exemplo) está dependente da correção com que é efetuado o diagnóstico. Já passámos pela ida ao hospital com uma infeção bacteriana e ser-nos diagnosticada uma virose. Quando isso acontece, bem podemos aguardar em casa, que a febre não baixa e a dor de garganta não desaparece.

No ensino, também nós, professores, verificámos que não bastava a leitura do Processo Individual do Aluno, que nos chega de um ciclo anterior, para aplicar as estratégias que o possam levar ao sucesso- generalizou-se o emprego da avaliação diagnóstico.

Na Educação, mudado o Partido, mudada a política. Normal. Mas existem “diagnósticos” e até corretos, feitos pelos próprios governantes, de que a “Escola precisa de estabilidade, reflexão, avaliação da necessidade de mudança”. Só depois, virá a MUDANÇA- tem sido afirmado.
Os sindicatos promoveram inquéritos aos sócios acerca do que consideram prioritário alterar; o Conselho Nacional de Educação também tem bem feito o seu trabalho de diagnóstico e previsão; os blogs de educação têm dado o seu contributo; as Associações/ Federações de pais não deixaram de comunicar os seus alertas e as suas preocupações.

Como se entende a febre governativa em emanar orientações descoordenadas para a comunicação social, para debate público em que cada um diz o que lhe apetece, esteja ou não, ligado à Educação?? Segue-se o exemplo do futebol em que quem está no campo e quem está na bancada pode ser treinador?
Quem lucra com este estado de coisas? Que desenrolar se aproxima?

Relembrando algo que consensualmente foi diagnosticado como ‘mudança prioritária’:

–  extensão do Currículo;

–  inadequação de conteúdos letivos, à faixa etária dos alunos;

–  existência de turmas mistas, no 1.º ciclo;

–  elevado número de alunos por turma;

–  elevado número de alunos por professor;

–  não respeito pela “quantidade” de alunos com NEE, por turma;

–  clarificação de critérios pedagógicos para elaborar horários;

–  Gestão Escolar e o (não)funcionamento dos Conselhos Gerais;

–  indisciplina;

–  envolvimento/responsabilização parental na vida escolar;

–  formação de gestores;

–  formação de docentes;

–  simplificação da “burocracia” e incremento de boas práticas pedagógicas;

–  existência de psicólogos escolares em rácio adequado;

–  prática da mediação de conflitos;

– … … … … …
Não falo da estrutura física e do funcionamento das instalações escolares, do envelhecimento do corpo docente, da falta de assistentes operacionais…

Haverá alguma relação- é uma simples questão- entre todas as ‘prioridades consensuais’ e a necessidade de VERBAS para as implementar???
A fúria documental inovadora- é uma outra simples questão- será oportunamente concentradora de atenções e fomentadora de debates estéreis?

PARE, ESCUTE, OLHE… e PENSE!

Fátima Ventura Brás


Sobre a liberdade (Leitura e escrita)

Há muitas definições de liberdade. Há definições gerais e há definições muito próprias, porque isto da liberdade esbarra sempre na caixa dos nossos valores e das nossas morais internas.

Ler e escrever são os nossos principais instrumentos de liberdade. Quanto mais hábeis formos nestas competências mais ampliamos o nosso entendimento do mundo. Aprendemos a ler e a escrever para nos tornarmos mais livres, livres para aumentar o leque de escolhas do nosso futuro, livres para comunicar mesmo quando não concordam.

 

Vamos olhar para o início, para as bases da liberdade.

Desenvolver estas competências não são tarefas simples. Recordo-me de um professor que tive na Universidade que me dizia. “Se acham que saber ensinar a ler e escrever é só ensinar o “B” “A” “BA” podem sair por aquela porta. Não estão aqui a fazer nada” É necessário conhecer e dominar todos os aspetos que antecedem e monitorizam esta atividade.

A oralidade é um caminho natural de aprendizagem informal. Aprender a ler e a escrever não é um percurso natural. Há um caminho a percorrer de apropriação de estratégias que necessitam de uma aprendizagem formal, de um ensino explícito, consistente e sistematizado. Não há milagres, não há vacinas, não há comprimidos. É um trabalho de identificação, sistematização e consolidação.

Para aprender a ler é necessária uma ligação afetiva com a leitura e é por isso que o trabalho desenvolvido no pré-escolar e em casa com a família é essencial. O pré-escolar não serve para ensinar a ler e escrever, isso seria um erro crasso. Felizmente tem Orientações Curriculares e não Metas, o que permite um trabalho mais livre, mais consistente e um dos mais importantes. É importante criar o gosto pela leitura por histórias, folhear livros, começar a identificar rimas, trabalhar a organização espacial, trabalhar a psicomotricidade, pois esta tem um impacto gigante na aprendizagem formal.

Embora leitura e escrita sejam indissociáveis, a escrita exige mais estratégias do que a leitura uma vez que não é uma transcrição isomórfica da oralidade. Há várias competências em jogo: capacidade caligráfica; competência ortográfica e particularidades da pontuação.

Muitas vezes ouvimos falar num “dom natural da escrita”. No meu entender esta premissa é um mito. Não acredito em dons naturais. Há aprendizagens, perfis de funcionalidade e contextos culturais que ampliam os conhecimentos na competência escrita. Nem todos partem em igualdade de circunstâncias e por isso é necessário um olhar atento e individual à entrada das crianças no 1ºciclo. As representações gráficas e os conhecimentos que trazem são diferentes e por isso não é legítimo, na maior parte dos casos, que todos à mesma hora, no mesmo espaço, estejam a aprender exatamente o mesmo. Como também não é legítimo delegar mais tempo a conteúdos que serão repetidos no 2ºciclo em detrimento de um trabalho contínuo e consistente sobre ler e escrever.

Trabalhar ferramentas de liberdade é um desafio. As areias na engrenagem – as dificuldades específicas de aprendizagem dificultam o processo. Se não existir uma intervenção atempada há liberdades que ficam pela metade. E esse não é, nem pode ser, o objetivo da escola.

A escola tem de ser um espaço de promoção de liberdade. Aquela liberdade em que as caixas individuais guardam um espaço (grande) de aceitação do outro.

Maria Joana Almeida


Vai filho… Vai viver a vida… 2

Os pais são um grupo curioso para ser analisado. Aqui a palavra pais, no plural, refere-se aos dois progenitores, mãe e pai. Num conjunto são engraçados mesmo que não estejam de acordo em muitos assuntos. No entanto há pelo menos um em que todos os esforços se conjugam: o futebol.

Normalmente estão convencidos que os seus rebentos são todos uns craques e que têm o futuro assegurado como jogadores de futebol. Se bem o pensam melhor o fazem. Queixam-se da vida, complicada, mas para acompanhar os filhos estão sempre disponíveis. Ainda bem. É vê-los, muito cedo, antes das 8 horas, à porta dos clubes desportivos, com os meninos vestidos a rigor. Aos fins de semana, seja dito, porque durante a semana os atrasos são frequentes.
Encontramos de todos os tipos. Pais que acompanham os filhos mas só estão lá, outros nem querem saber, é só mais uma actividade e ainda outros que levam tão a sério o futebol que tudo fazem para serem notados. Não são os pequenos que são os atletas, são os pais que se tornam os protagonistas.
Primeiro não gostam do equipamento porque isto ou porque aquilo e depois vem a parte mais complexa da questão: discordam dos treinadores em tudo. Eles é que sabem e não os técnicos. Querem assistir aos treinos e dão opinião sobre todos os assuntos. Nitidamente estão a atrapalhar.
Aproveitando a deixa, porque não olhar para os manuais e igualmente opinar sobre eles? Quantos são os pais que o fazem? Quantos sabem qual é a matéria e a podem analisar correctamente? Não está em causa o conhecimento de cada um mas sim o interesse que demonstram, o que é muito diferente. 
Seria caricato ter os pais a assistirem às aulas dos filhos e expressarem os seus ditos. Camões não escrever nada disso, uma equação é estúpida, tira-se o X e está resolvido, a escala de Ph não serve para nada, o inglês só serve para engatar babes e outras pérolas semelhantes. ( tudo isto é ficção e é meramente ilustrativo do ridículo que seria se acontecesse ).
Uma das funções dos progenitores é ensinar a abrir as asas e voar. Quer isto dizer que devem  fornecer o essencial para que os seus pupilos possam sobreviver em todas as circunstâncias. Dar o peixe no prato, sem espinhas e cortado aos pedaços é muito mau caminho. É preciso mostrar que existem dificuldades. Não é o que acontece.
Assim que começa o jogo dão instruções, gritam ordens, definem tácticas e os seus filhos ficam divididos entre os conselhos técnicos e os dos não especialistas. É uma pressão contínua e mal direccionada, que baralha e pauta-se por resultados menos bons. Não respeitam os técnicos porque lhes estão a passar, claramente, um grande atestado de incompetência e muito menos os seus descendentes porque os perturbam.
Gostava de ver tanto entusiasmo para o estudo, para as matérias que podem e vão fazer a diferença no futuro deste jovens. Não venham com a desculpa que não sabem ou que não têm tempo porque o dia tem sempre 24 horas e estas podem ser usadas para o estudo curricular e para o futebol. Basta que se queira e o tempo estica-se e alarga-se até onde se quiser.
Recordo-me de um episódio ocorrido com um pai que teve um resultado pouco simpático. O aluno estava com dúvidas numa matéria e perguntou ao pai. Este, como não sabia e não queria ficar mal visto, inventou. A resposta, como se calcula, estava errada e depois atribuiu as culpas a quem o ajudava a estudar. Nunca dele. Isto não se faz porque quem não sabe aprende ou então admite. Para ficar bem perante o filho acabou por o fazer passar uma humilhação.
O desporto é importante mas o conhecimento é que poderá fazer a diferença. A conjugação dos dois é o passaporte para a segurança, para a eficácia e para o sucesso. Não vejo o mesmo furor nem a mesma garra para estudar com os filhos ou se dispor a ouvi-los com toda a atenção.
A sociedade perfeita, constituída por jogadores de futebol e respectivas esposas não existe a não ser nos jogos e nem poderia existir. Fazem falta todas as profissões, sobretudo aquelas onde o imediato é preciso e não devem ser, de modo algum, desprezadas. Olhando nessa perspectiva a escola não tem valor algum a não ser que seja para praticar futebol. As matérias escolares não têm importância?
Será que estes pais se apercebem do mal que estão a fazer aos filhos? Além da pressão exercida e da desorientação que provocam, demonstram uma tremenda falta de respeito para com aqueles a quem são entregues os alunos. Ninguém é melhor do que ninguém e todos são importantes para o contrabalanço. O futuro é agora e não depois e apresenta várias possibilidades.
Deixem os filhos crescerem, estejam presentes mas aceitem que existem outras pessoas importantes na vida deles. O exemplo do futebol é simplesmente uma metáfora da vida mas aplica-se a inúmeras situações. O sucesso e a necessidade de reconhecimento acabam por ser palavras vãs se os educadores não prepararem os seus educandos para uma vida real.
A vida é dura, não se podem colocar paninhos quentes e andar sempre com a mão por baixo. Quanto mais rija for a educação mais preparado fica o aluno. Sim, nestas coisas da vida somos todos alunos e professores, uma vida inteira e sem descanso. É uma formação contínua que nunca se esgota e sem certificados nem diplomas.
Margarida Vale

No Topo: Adiamento da flexibilização curricular | No Fundo: O decreto – recauchutado – dos concursos

Hoje inauguro uma nova rubrica que me dá especial satisfação. “Topo e Fundo” de seu nome e estará a cargo de António Duarte, autor do excelente blogue Escola Portuguesa. Basicamente o António irá focar dois temas que na sua opinião merecem estar no topo e no fundo. Bem-vindo ao ComRegras António 😉


No Topo: Adiamento da flexibilização curricular

A semana que agora finda não trouxe grandes novidades nem em notícias especialmente boas para a educação portuguesa. No menos mau pode ainda assim destacar-se o adiamento da flexibilização curricular, que em 2017/18 deverá funcionar como projecto-piloto em apenas 50 escolas ou agrupamentos.

Após meses de informações vagas, confusas e contraditórias, em que ora se garantia querer aliviar a carga horária dos alunos, ora se falava em novas áreas curriculares; se prometia o reforço das horas destinadas a disciplinas que tinham ficado “descalças” para a seguir afiançar que não se iria tirar tempos ao Português ou à Matemática; alguém no ministério, ou segundo alguns jornais o próprio primeiro-ministro, percebeu o tremendo erro que seria avançar  precipitadamente com a flexibilização dos currículos em cima das eleições autárquicas.

Depois de Tiago Brandão Rodrigues ter assegurado no Parlamento que a flexibilização dos currículos não é para já, e de o próprio presidente ter como “evidente e assente” ser essa a intenção do governo, espera-se agora que o adiamento possa ser aproveitado para melhorar as ideias iniciais, discuti-las com os professores e outros agentes educativos e, sobretudo, centrar as alterações, graduais, ponderadas e minimalistas, naquilo que precisa efectivamente de ser melhorado, evitando a mudança permanente que tanto tem desgastado a educação em Portugal.

 

No Fundo: O decreto – recauchutado – dos concursos

O novo decreto-lei dos concursos mantém, no essencial, o quadro legal criado pelo anterior governo do PSD/CDS: a entrada nos quadros com base em mecanismos como a “norma-travão” e a vinculação dita “extraordinária” e não como um direito decorrente das sucessivas contratações, o favorecimento dos professores oriundos do ensino privado em detrimento dos que sempre serviram a escola pública, a persistência de critérios injustos na ordenação de candidatos e a ausência de compromissos concretos com um apuramento real de vagas existentes nos quadros das escolas ou com a criação de novos grupos de recrutamento para professores que, como é o caso dos de língua gestual, se tornaram essenciais nas escolas.

O facto de nenhum sindicato se rever no diploma agora publicado é um sinal claro de como os processos negociais com os sindicatos continuam a ser vistos como formalismos legais e não como um imperativo democrático de busca de soluções e compromissos. Continua-se a legislar contra os professores em assuntos do seu interesse e, em matérias de incidência orçamental, a Educação continua a ser a mesma não-prioridade que já era com o governo anterior.

Resta ainda a esperança de uma apreciação parlamentar do decreto-lei, já solicitada aos partidos com assento parlamentar pela Fenprof, mas também aqui não há lugar para grandes esperanças: nem os partidos à direita deverão estar disponíveis para reverter regras dos concursos que seguem a linha do que eles próprios criaram, nem mesmo os partidos à esquerda do PS se mostram dispostos a correr o risco de tentar votar alterações que possam comprometer as expectativas dos 3200 professores que o ME se comprometeu a vincular este ano.

 

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa.


“Cheguei a casa e encontrei a minha filha no quarto com o namorado…” 2

Desta vez não é um pergunta, mas uma situação que coloquei à psicóloga Inês Marques da Oficina de Psicologia, no âmbito da rubrica “Perguntas de Palmo e Meio“. Ficam os seus conselhos e o meu desejo de nunca vir a passar por uma situação destas…


“Cheguei a casa e encontrei a minha filha no quarto com o namorado…”

Beautiful woman with hands on face and red nails

Um bom primeiro passo em qualquer situação potencialmente constrangedora é respirar fundo, antes de dizer ou fazer seja o que for. Perder o controlo em nada resolve a situação ou previne situações futuras.

Depois…. Bem, depois, depende da situação, da idade da filha (para poder adequar o discurso), daquilo que são as regras da vossa família e da vossa casa e que são do conhecimento de todos. Mas, ao mesmo tempo, descomplique (um pouco e na medida do possível) e seja objetivo na forma como aborda o tema.

Assumindo uma situação constrangedora e a quebra de alguma regra definida em família (por exemplo, podes trazer o teu namorado cá a casa mas com o nosso conhecimento e não queremos que fiquem sozinhos, de porta fechada, no teu quarto) é importante:

– não perder o controlo;

– não envergonhar a sua filha e o namorado (eles já estarão suficientemente envergonhados por terem sido “apanhados” a quebrar uma regra);

– dar espaço à sua filha e ao namorado para se expressarem, dizendo o que pensam e sentem;

– conversarem sobre o sucedido, deixando claro como se sente, o que aconteceu e não devia ter acontecido e o que espera que aconteça daí em diante.

No fundo, e assumindo que “apanhou” a sua filha não cumprindo algo que já tinha sido falado e era claro para ela, aborde o tema como abordaria a quebra de qualquer outra regra familiar.

 

O diálogo será a melhor forma de clarificar o que correu mal e de prevenir situações futuras.

 

Inês Afonso Marques

Psicóloga Clínica

Coordenadora da Equipa Infanto-Juvenil

Oficina de Psicologia


Os alunos são donos do seu futuro. Bom ou mau… Escolham!

O segundo período está a caminhar para o fim a passos largos e o terceiro período passa a correr. Quem está no 9º ano tem que tomar uma decisão quanto antes. Entre as hipóteses que existem, e são várias, a escolha nem sempre é fácil. Surgem as dúvidas, as indecisões e as ideias românticas de um futuro que todos desejam bonito e  assegurado. Legítimo mas irrealista. O futuro constrói-se, a pulso, com sangue, suor e lágrimas.

As opções no ensino geral são muito claras: quatro áreas específicas que não apresentam dúvidas de maior. Para se tornar mais simples vou só usar os nomes com que são conhecidas, ciências, artes, economia e humanidades. Ciências será a porta de saída para as engenharias e a saúde, basicamente. Economia oferece, igualmente, o campo das finanças e gestão. Artes relaciona-se com apetência e competência específica, como o design, a pintura e tudo o que remete ao tema. Humanidades acaba por ser um campo mais alargado, dando acesso a línguas e letras em geral.
Os cursos profissionais disponibilizados pelas escolas secundárias variam consoante as zonas e as exigências locais. Existem ainda outros cursos, das ditas Escolas Profissionais, que oferecem uma visão diferente e mais apurada sobre o mercado de trabalho. Certas escolas secundárias não podem ser melhores nas suas ofertas por indisponibilidade de recursos, o que já não acontece nas escolas especializadas. É tudo uma questão de opção e de vontade de aprender.

As escolhas são sempre difíceis de efectuar e a imaturidade aliada a um mundo cada vez mais facilista, acaba por resultar em caminhos errados e penosos para os alunos. Querer ficar com os amigos ou com os colegas é um contra-senso, uma vez que a vida faz-se de desafios e situações reais. Não são as amizades que irão prover o futuro nem colocar o pão na mesa. É a capacidade que cada tem de agarrar o que for preciso, que o prepara para a vida.

Custa ver alunos a desperdiçar vocações indo por caminhos diferentes só porque alguém lhes sugeriu ou porque a pressão social é forte. Não são os testes que lhes ditarão o futuro mas sim o profissionalismo e o conhecimento que terão daquilo que escolherem. Todos são importantes e necessários e o que é preciso é que existam bons profissionais, sejam em que área for.

Na passada semana vimos o chão da Avenida de Ceuta abater. Uma cratera gigantesca e assustadora mas felizmente não engoliu nenhum carro. Tinha 9 metros de profundidade mas a informação que passou na RTP, canal oficial e público, era surreal: Buraco com 9 metros quadrados de largura. Aqui está um exemplo de mau profissionalismo ou falta dele.

Não é isto que se pretende. O que se deseja é uma sociedade repleta de pessoas competentes e aptas a arregaçar as mangas e colocar as mãos na massa, quando for preciso. E por falar em massa, também foi na passada semana que o Secretário de Estado de Educação falou dos Cursos Profissionais e fez um paralelo com o Curso de Pastelaria e o de Línguas, e que deu azo a interpretações erradas.

O que ele quis dizer é que estes cursos estão a ser desvalorizados quando são, obviamente, essenciais e necessários. Bolos todos gostam de comer mas esquecem-se de quem os faz. São profissionais como qualquer um outro. Olha-se de lado como se estivessem numa situação de inferioridade. Interessam os fins mas os meios ficam esquecidos.

De igual modo outras profissões são ignoradas mas essenciais para o bom funcionamento da sociedade, como os canalizadores, electricistas, pedreiros, carpinteiros e outros ofícios tradicionais que existem por algum motivo. Não estou, de modo algum, a fazer a apologia dos cursos profissionais, o que pretendo é fazer ver a sua importância e o lugar que merecem.

Claro que continuam a ser necessárias pessoas com cursos superiores como os médicos, os advogados, os engenheiros, os professores e tantas outras profissões. Ensino superior ou ensino profissional? Todos juntos são a força que provoca a a evolução e o aumento dos conhecimentos. A vida não pára e estão sempre a aparecer novas variantes, novos quebra cabeças que têm de ser resolvidos.
Posto isto, seria bom que se tivesse em linha de conta a realidade e o mundo onde se vive. Será que sabem quais as profissões dos seus pais? O que efectuam para lhes fazer chegar o que necessitam? O que verdadeiramente são? São inúmeras as actividades que asseguram a educação dos filhos e que fazem marchar esta roda enorme, gigante, que é o mundo.
Margarida Vale.

A minha maior preocupação enquanto professora, é a minha sanidade mental… 4

A sociedade vê a classe docente como uma privilegiada, bem paga, que pouco faz, que resiste à mudança, que se recusa a ser avaliada e ainda exige uma idade de reforma antecipada. Esta é uma perceção generalizada distorcida e por isso, importa desmistificar algumas ideias feitas acerca da profissão e dos seus profissionais e num texto, que não se pretende exaustivo, tentar explicar as razões do descontentamento dos mesmos e a sua cota parte de responsabilidade para a sua atual situação.

Ser professor, para uma maioria, não é tarefa fácil. O professor é o único profissional, que diariamente, atende 25 ou 30 “clientes” ao mesmo tempo, de hora a hora, com diferentes exigências, necessidades e aprendizagens e às quais tem de responder com celeridade e da melhor forma possível. Este ensina, ouve os seus alunos, resolve problemas emocionais, psicológicos, de higiene, alimentares, disciplinares, sociais e ainda prepara aulas e cumpre com todos os requisitos burocráticos inerentes e exigíveis às suas atuais funções. Como eu costumo brincar, o professor tem uma dúzia de “gavetas” no cérebro, muitas abertas em simultâneo, com uma panóplia de problemas diferenciados, que vai resolvendo, que nunca têm fim e dos quais não desliga, mesmo tendo terminado o seu horário de trabalho. Não pode fazer todo o trabalho na escola porque o tempo não estica, nem as escolas foram concebidas com as condições para o desenvolver. Trabalha no meio de um ruído ensurdecedor e onde, não raras vezes, a sua integridade física e moral não estão salvaguardadas. É retrato diário vê-los a circular pelos corredores e escadarias das escolas, muitas vezes entre empurrões e correrias das crianças, carregados com a pasta dos livros, computador, colunas e outra infinidade de materiais, a maioria paga pelo seu bolso. Como não bastasse o desgaste e o stress diário do exercício da função, ainda temos um grupo significativo de pais, que pouco ou nada, colaboram com a Escola. Temos ainda, aqueles que não entendem que a Escola não é de todos, mas para todos, que os professores não são seus funcionários e que não têm legitimidade nem competências para nos dizer como devemos fazer o nosso trabalho. A nossa entidade patronal, o Ministério da Educação, adotou a filosofia do capitalismo selvagem, descapitalizando as escolas, quer no que respeita aos recursos materiais, quer relativamente aos recursos humanos. Alimenta-se da precaridade de um número substancial de funcionários. Reduziu não só drasticamente o número de professores, como o número de auxiliares de educação. Temos encarregados de educação a suprir necessidades básicas nas nossas escolas. O Ministério da Educação redefiniu, a seu belo prazer, a componente letiva dos seus profissionais, sabendo que estes pelo seu sentido de responsabilidade, cumpririam com todas as exigências, a expensas da sua vida pessoal e sem qualquer valorização monetária ou de outra natureza. Por falta de vontade ou cedências, recusa-se a optar por um modelo de colocação docente racional, justo e acabar com o excesso de direitos adquiridos de uma minoria. Mantém o congelamento e a progressão da carreira argumentando questões orçamentais, quando todos os dias assistimos ao desbaratar dos nossos impostos, ao desvio de dinheiro e à recapitalização da banca. Gasta dinheiro em programas para fins estatísticos de escolaridade, onde não se prevê uma certificação séria de competências, em tutorias que não resolvem os problemas dos alunos, em projetos de capacitação parental, em professores, atirados a meio do ano, para as escolas, para resolver problemas que carecem de abordagens antecipadas e de medidas concretas. Gasta ao pagar as sucessivas baixas dos professores porque perante a impraticabilidade de reduzir a idade de reforma, não entende reorganizar o trabalho docente e reduzir o número de turmas por professor, a partir de uma certa idade. Prepara-se para alterar as cláusulas contratuais dos professores relativamente à progressão, continuando a poupar à custa destes, em vez de ganhar coragem e tabelar um salário digno igual para todos os docentes. Fala de mérito, mas é incapaz de pensar num modelo sério de avaliação para professores, Dividiu a classe em professores titulares, partindo do pressuposto que tempo de serviço é o equivalente a mais competência. Criou um modelo eletivo do órgão de gestão das escolas, que em algumas delas, levou à instalação de verdadeiras oligarquias. Autonomia das escolas passou a ser sinónimo de municipalização. Desdobram-se ano após ano, em discursos, entrevistas, portarias, a propósito da importância da educação, mas apenas assistimos à vaidade pessoal, a um querer deixar o seu nome para a posteridade. São incapazes de construir um modelo educativo sólido e duradouro. As reformas são feitas a retalho, de forma parcelar, de acordo com interesses individuais e partidários, recorrendo a experiências com os nossos alunos e professores.

É este contexto de precaridade, de instabilidade, de desgaste, de desvalorização de desrespeito e de falta de seriedade e de credibilidade por parte da tutela que conduziu à desmotivação, ao desleixo, apatia e inércia de alguns, à fadiga de muitos, à sobrevivência do mais forte e do mais bem relacionado, ao aumento do desrespeito e da intolerância entre pares, à salvaguarda dos interesses individuais, à defesa de situações e posições indefensáveis, ao abuso de poder, à desconfiança, ao deixa andar, aos silêncios e aos medos. Feridos na sua dignidade, expostos a todo o tipo de ataques, fragilizados no exercício das nossas funções e sem uma rede de apoio sólida, facilmente reagimos mal a qualquer chamada de atenção para o papel que desempenhámos e como já foi dito inúmeras vezes, perdemos a consciência que a mudança começa por nós e ao nível local, ou seja, dentro das nossas escolas. Uma classe, da nossa dimensão, não tem de se sentir diminuída, nem esconder que tem, como em qualquer profissão, um número insignificante de professores que nunca deviam estar na profissão, que tem outros tantos, que se aproveitam da confusão e do brio profissional da maioria, para não cumprirem as suas funções e usam a incompetência como estatuto, além de todos aqueles que recebem o mesmo ou um melhor salário e pouco fazem. Muitas das injustiças, problemas e exigências que nos são feitas nas escolas, não resultam de qualquer diretiva da tutela. Cabe-nos a nós exigir a distribuição equitativa do trabalho, regras claras aplicadas a todos, ser ouvidos, denunciar, opormo-nos e unirmo-nos contra os abusos e as ilegalidades de uma minoria. É importante que impere o respeito, a responsabilidade e a empatia. Que aprendamos a confiar profissionalmente uns nos outros e que nos valorizemos. Um professor não deve precisar de ser vigiado para cumprir com o seu trabalho, nem deve precisar de ser obrigado por decreto, a aperfeiçoar as suas competências ou aquelas que resultam das mudanças e da evolução da educação. Somos nós, com as nossas experiências e perceções individuais divergentes que temos de ter capacidade para pensar, para além de tudo o que nos dá jeito, nas soluções e respostas à realidade com que nos deparámos todos os dias, ter uma visão global e um plano estratégico comum, para um projeto educativo centrado nos nossos alunos. Importa também “calçar os chinelos” dos encarregados de educação e de quem assume o órgão de gestão na escola. É o diretor/presidente que assume para o bem e para o mal o que se passa na escola. É um cargo solitário e para o qual é exigível uma capacidade extraordinária para lidar com um universo tão alargado e diversificado de seres humanos.

Penso que temos duas soluções, ou deixamos o barco afundar de vez, ou arranjamos maneira de nos unirmos e lutar pela nossa valorização, dignificação e higiene mental. Se efetivamente, é importante a questão do congelamento e progressão na carreira, para mim, a maior preocupação é com a minha sanidade mental. Sempre que olho para alguns colegas, fico atormentada, com o momento em que serei eu a arrastar-me pelos corredores, demasiado medicada ou quando ficarei mentalmente incapaz, como resultado do exercício desta profissão.

Cassilda Coimbra.


Centro comercial escolar

A Marta Pereira é professora e autora do blogue Marta à Vista. Sempre que se justifique, irá partilhar com os leitores do ComRegras os seus pontos de vista sobre a Educação. Acreditem que vai valer a pena.

Fica a sua primeira partilha bastante pertinente…


Esta semana, SÓ esta semana, assisti a duas operações de venda privada em escolas públicas e aquilo fez-me uma certa confusão. Os paizinhos desembolsaram, no mínimo, dezoito euros e noventa num livro e num pacote de experiências de química e ciência. A terem comprado apenas uma de cada das amostras disponíveis.
Estou a falar de uma colecção com cento e tal exemplares, cujo protagonista é um famoso rato de origem italiana e poderosa ferramenta de distribuição editorial. E de uns brinquedos educativos para pequenos cientistas que, supostamente, transformarão as suas casas em verdadeiros laboratórios científicos.
É sabido que sou uma verdadeira entusiasta da leitura e que cá em casa até há um bioquímico. Portanto, o meu problema é outro. Nada a obstar ao estímulo, à curiosidade, à imaginação ou ao conhecimento científico dos meias-lecas.
A questão é:
Será legítimo que a Escola Pública se servilize a estes interesses lucrativos privados? Não haverá na Escola recursos para fazer o mesmo sem entrar nestes esquemas que, a mim, me parecem ter motivações que passam pouco pelo desenvolvimento integral da criança?
É só a mim que esta comercialização da escola pública incomoda?
Será mais fácil para os paizinhos descarregarem uns euros de má consciência para serenarem o consumismo emergente dos gaiatos do que chamarem os agrupamentos à pedra?
E, por outro lado, qual o interesse dos senhores directores nesta negociata de mão cheia?
Qual o papel dos professores neste processo mercantil? Vendilhões do templo, que serão expulsos se não alinharem? Legitimadores fidedignos do processo?
 
Será que os critérios de selecção para o Plano Nacional de Leitura estão comprometidos com mais alguma coisa para além do simples prazer pela leitura, da cultura literária e do desenvolvimento linguístico? Porque não anda, então, a Menina do Mar da nossa Sofia, ou os Bichos do nosso Torga a circular pelas nossas escolas, a fazer furor com golpes de marketing para ofuscar miúdos e graúdos? Onde param os nossos clássicos infantis, uma Luísa Ducla Soares, um José Jorge Letria? Por que razão não tem o nosso António Mota, que até vem às escolas e encanta os miúdos, uma projecção editorial tão grande? Por que razão – decente- vem este, como outros, autores à escola sem vender livros ANTES da visita, sob o pretexto de autografar os exemplares à sua chegada?
A mesma impressãozinha comichosa já me havia feito o famigerado Key For Schools, o ditoso exame de inglês de uma empresa britânica, que ia tornar os nossos alunos fluentes e competentes na língua estrangeira, atribulando as rotinas escolares e a logística das nossas escolas……..
Houve ainda, aqui há tempos, uma empresa psico-pedagógico-orientada que aplicava – nas escolas – uns super testes psicotécnicos (?) com valências vocacionais (?) e que permitiam ainda avaliar a competência linguística na língua inglesa e o domínio de estratégias de estudo (???). (Não me perguntem; não cheguei a ver as ditas cujas provas).
Depois eram convocadas umas reuniões de pais – na escola – onde eram apresentados os resultados trágicos (pfff) dos meninos nas provas que eles tinham aplicado e que eles tinham avaliado, God Knows How!
Diagnosticadas as enormíssimas dificuldades dificuldades e carências, era oferecia a fórmula para o sucesso, que consistia numas aulas de estudo acompanhado e de inglês aos sábados, sob módicas quantias que os pais, confrontados com tais resultados, estavam, em grande escala, dispostos a pagar. Aulas e sessões de estudo a virem a ser concretizadas ao sábado – na escola!
Ora a empresa usaria as instalações da escola pública, usaria os recursos que o erário público financia (luz, computadores, quadros interactivos, fotocópias, marcadores, sei lá eu!) e havia captado clientes, sublinho: clientes, exactamente no habitat natural do público alvo
Moral da história:
A coberto de valores tão dignos como
o gosto pela leitura
o espírito científico
ou
o sucesso académico
vale tudo e a escola vira casa da sogra.
Marta Ferreira, professora e autora do blogue Marta à Vista

Melhor do que lançar professores de apoio, é evitar turmas com vários anos de escolaridade

Os alunos de turmas com vários anos de escolaridade, para terem um aproveitamento igual aos de turmas com um único ano de escolaridade, precisam de ter na sua constituição alunos com capacidade de trabalho autónoma. Em geral isso não se verifica.

A turma é constituída na maioria dos casos por alunos transferidos, repetentes e alunos com necessidades educativas especiais. No inicio do ano, assiste-se à transferência dos melhores alunos, pois os Encarregados de Educação percebem que numa turma em que o professor precisa distribuir a sua atenção por vários anos de escolaridade, fica com uma capacidade limitada de aprofundar as matérias e de chegar a todos os alunos que revelam dificuldades.

Nos cenários mais dramáticos, essas turmas têm na sua constituição, alunos que pela sua constante atitude rebelde, impede os outros de ouvir o professor. A atenção já tão rara em casos de turmas normais, revela-se catastrófica e pode chegar a causar a exaustão e desespero do docente.

Duilio Coelho, professor e autor do blogue 1º Ciclo


Centros Qualifica

O governo lança hoje uma das suas promessas eleitorais, a aposta na formação de adultos, por intermédio dos centros qualifica (notícias 1 e 2).

À semelhança de qualquer área da educação esta não foge à regra de ter sobre elas considerações marcadamente ideológicas e valorativas. Isto é, todos temos uma ideia sobre o que é, como deve/devia ser, qual a sua importância ou qual o seu papel/objetivo. Acresce que vem na sequência, primeiro, dos centros novas oportunidades (CNO), bandeira de um governo de Sócrates quase que banido dos livros. Depois na sequência dos centros de qualificação e educação profissional (CQEP) do governo anterior. Se lhe juntarmos o facto de uma qualquer segunda oportunidade não ser bem vista então teremos o caldinho montado para tecer todas as consideração. Mais, mesmo ao nível das escolas esta realidade ou não é conhecida, a não ser nos seus contornos mais gerais e genéricos, dando, por vezes, oportunidade a preconceitos ou, então, é assumidamente desvalorizada e algo desconsiderada na organização letiva e escolar.

Trabalhei com adultos por três vezes ao longo da minha carreira profissional. Primeiro ainda na configuração dos cursos gerais e/ou complementares noturnos. Depois no âmbito do ensino recorrente e, mais recentemente, há dois anos a esta parte, no âmbito dos CQEP. Direi sem entrar em detalhes que são três realidades completamente distintas, sobre qualquer ponto de vista, tendo apenas em comum o facto de se dirigirem a uma população que, por diferentes razões, primeiro abandonou a escola e que a ela regressou.

No âmbito do serviço que me foi atribuído no contexto do CQEP, reconheço a grata surpresa que tem sido trabalhar com estas pessoas, aprender com elas, conhecer outras dimensões da escola e da realidade concelhia onde o centro se integra. Assumo um duplo olhar sobre estas funções. Por um lado enquanto formador numa das áreas chave. Por outro, enquanto curioso da escola na perspectiva de perceber e historicizar o insucesso. Ou seja, por intermédio dos registos autobiográficos destes agora adultos, perceber o que conduziu ao insucesso, até que ponto existem hoje recorrências dessas situações, a existirem como as poderemos gerir? Quais os momentos marcantes do insucesso? Quais as considerações tecidas sobre a escola ou sobre o professores ou sobre o trabalho dos professores? Reconheço que é um mundo que paulatinamente tenho vindo a descobrir – e que me encanta.

A maior parte das pessoas que abandonaram a escola fizeram-se por via de dificuldades económicas e sociais. Os anos 70 e 80 do século passado estão marcados nos textos das pessoas, as dificuldades sentidas, a necessidade de braços para apoiar a família, o abandono para que os mais novos pudessem prosseguir. Mas o abandono também se deve a coisas ainda atuais, ao desinteresse, à indiferença à escola e, em particular, ao trabalho de sala de aula, às rotinas e procedimentos às quais não se perspectivam objetivos, lógicas, compreensão. A maior parte das pessoas que abandonaram a escola ficaram marcadas pelo primeiro ciclo (o único ciclo de ensino que todos valorizam, destacam). Grande parte das pessoas aponta, como uma das chaves do seu insucesso, a mudança para a escola grande (a então C+S), a escola da cidade e o que isso acarretou (transportes, deslocações, levantar cedo, chegar tarde, novas companhias, professores indiferentes).

De modo a não me alongar e sem grandes considerações nesta área, pergunto se não seria interessante que as escolas onde se situam os centros pudessem conhecer mais e melhor aquela que é a sua própria história? Até que ponto não seria importante olhar atrás e sem qualquer pretensão saudosista, gerir aquelas que são situações ou circunstâncias recorrentes do insucesso. Incluindo os comportamentos.

Manuel Dinis P. Cabeça, 06 de março, 2017

coisas das aulas


Top Comentários | Cassilda Coimbra, Cecília Domingos e Adosinda Paulos

Eis os comentários com mais likes desta semana.


FERLAP – “A Escola não é dos Professores” | E eu digo que a FERLAP precisa de confiar mais nos professores…

Cassilda Coimbra A Escola é dos Professores sim, são eles que estão certificados para o exercício pedagógico e não os encarregados de educação, que apesar de muitos usarem o argumento que pagam impostos, não faz deles a entidade patronal dos docentes. Se assim fosse, também definiam as regras dos hospitais, centros de saúde, tribunais e por aí fora. Os alunos têm direito a ter voz activa e por isso devem estar devidamente representados, assim como os encarregados de educação, no âmbito das suas funções e das suas competências. Seria muito mais proveitoso, por exemplo, que a FERLAP se preocupasse com a negligencia parental que põe em risco a segurança e o direito à educação de muitas crianças e jovens. Se a FERLAP quer estar em pé de igualdade com os professores, partilhe as mesmas responsabilidades, assuma as mesmas consequências e ajude a construir as soluções. O que me parece a mim, é que está na hora de os professores se comportarem de acordo com o seu actual estatuto. Se são meros funcionários a entreter meninos, talvez esteja na hora de o pôr em prática. Para tal basta decidir que as crianças deixem os livros em casa, tragam apenas o telemóvel e o tablet e nós só temos que os ver a brincar e entregá-los no fim do dia aos pais. Ficam todos os problemas de educação resolvidos, quer para pais, quer para alunos e até para nós.

30 gostos· 27/2 às 21:23


 

Cecília Domingos Professor SEMPRE na baila! Já que não podem descarregar nos patrões as frustrações do dia a dia, atiram-se aos professores. São os pais que temos!
14 gostos· 27/2 às 21:03

Professor, o meu telemóvel custou 900 euros… Sou um topo de gama…

Adosinda Paulos E ainda se riem dos telemóveis dos professores ,afirmando serem arcaicos; aqueles que conseguem usar tal vocábulo! Muitos a receberem RSI pago por nós!
14 gostos· 28/2 às 18:51

 


Livro da Semana – Maria

07

Sinopse

Rodrigo Alvarez conquistou os leitores com Aparecida, a história da padroeira do Brasil, que já vendeu mais de 150 mil exemplares. O autor está de volta com seu novo livro Maria – A biografia da mulher que gerou o homem mais importante da história, viveu um inferno, dividiu os cristãos, conquistou meio mundo e é chamada de Mãe de Deus.

Opinião (por Roberta Frontini)

Opinião completa aqui – http://flamesmr.blogspot.pt/2016/07/livro-maria.html

Quer vocês sejam católicos, não católicos, ateus, agnósticos, religiosos ou não, há uma coisa inegável: Maria é uma das mulheres mais influentes da história da humanidade. Talvez alguns de vós questionem esta minha afirmação, mas basta pensarmos numa coisa muito simples e que foi expressa na própria capa deste livro: Maria dividiu o “tempo”. Como? Existe um “antes” e um “depois” por causa de Maria. Por causa de ter feito nascer aquele que é considerado o filho de Deus, nas escolas e no mundo inteiro referimo-nos aos anos usando a expressão “antes” e/ou “depois” de Cristo. E este é apenas um aspecto da influência de Maria. Existem muitos outros. Bastará pensar também, por exemplo, que Maria é um dos nomes mais utilizados no mundo. Olhem à vossa volta e pensem quantas pessoas vocês conhecem que se chamam Maria, e quantas vezes achamos que sabemos o nome de uma pessoa e, mais tarde, descobrimos que ela também tem o nome Maria incorporado. É absolutamente inegável o poder que esta mulher teve, sem que talvez ela alguma vez tenha tido consciência disso.

(…)

Aprendi imenso com esta obra e relembrei coisas que já não me lembrava, especialmente sobre o Império Romano e sobra as distinções entre as várias religiões. Como é que Roma que tantos cristãos perseguiu e tanta gente matou acaba por se tornar numa das cidades mais importantes para o cristianismo? Porque é que pessoas como Lutero acabaram por se destacar da igreja católica e “criar” outras religiões, e que papel teve Maria nisto tudo e de que forma continuou a ser vista? Tudo respostas que facilmente lhe serão respondidas com este livro.

(…)

Um excelente trabalho de pesquisa por parte do autor que não se focou apenas na Bíblia e que procurou deixar uma recolha de factos bem relatados, trazendo ao mundo um livro de importância histórica inquestionável!


Vinculação de 3 mil ou de 30 mil professores.

O diploma de concursos docente e a vinculação extraordinária foram promulgados pelo Presidente da República. A informação foi acompanhada das razões da sua promulgação com algumas ressalvas incompreensíveis e demagógicas . Logo a abrir, o tema da sustentabilidade do Estado que “não pode assegurar o emprego de todos” . Com certeza que o estado não pode empregar todos os professores, mas como estado de direito ,  também não pode manter o serviço público de educação , recorrendo à contratação de professores ano após ano sem lhes dar o direito à vinculação. E é o próprio estado como empregador que promove esta injustiça, como se não tivesse que respeitar as leis, sejam as que criou para os empregadores privados sejam as diretivas europeias relacionadas com esta matéria. Neste aspecto os professores contratados, são tratados como se vivessem num fosso democrático, em que não possuem os mesmos direitos que os restantes cidadãos. E embora não haja emprego para todos, pelos vistos é uma preocupação premente a “transição de professores que asseguram ou asseguraram o ensino privado contratualizado.”  diretamente para o ensino público retirando lugares a quem já leciona no ensino público há décadas.

Os 3200 professores a vincular, parecem muitos, mas ainda continuarão a existir demasiados professores sem vínculo definitivo, que possuem longos anos de serviço público , precisamente devido ao arrastar da resolução desta questão. Neste ano letivo já existem 30 mil professores a contrato, e destes por volta de 10 mil com mais de dez anos de serviço. Obviamente que com 10 anos de serviço, estes professores são necessidades permanentes e são essenciais para o funcionamento do sistema educativo. O que estado deveria primeiramente fazer,  era tentar resolver a sua integração definitiva nos quadros e repor as injustiças e ilegalidades perpetradas há décadas. Ao contrário do que se afirma, o diploma de concursos não é equilibrado pois é bastante insuficiente na resolução  da precariedade docente

 

Como contribuinte e encarregado de educação gostaria que os meus impostos fossem aplicados num serviço de educação público de qualidade, e este também passa por não manter professores em precariedade durante anos a fio. Não é desta forma, sem respeito pelos professores, que se promove a estabilidade essencial ao bom funcionamento do sistema.

 

Álvaro Vasconcelos, professor contratado.