Rubricas


Dar voz aos alunos

Se os professores e o pessoal não docente são consultados institucionalmente pelos sindicatos que os representam, sobretudo no que se refere às relações laborais ou em matérias da competência das diversas associações (profissionais…), já os alunos manifestam falta de auscultação por parte da tutela, em assuntos que lhes dizem diretamente respeito.

As escolas vão colmatando esta falha pois, frequentemente, os diretores reúnem em assembleia com os delegados de turma (algumas vezes no contexto do Parlamento Jovem) e com as associações de estudantes, relativamente a assuntos escolares para os quais a sua ação tem competência, resolvendo grande parte dos problemas ao considerar as opiniões e sugestões de quem conhece bem a sua escola: os alunos.

É, justamente, por esta razão que realço a iniciativa do Ministério da Educação que, no âmbito do Currículo para o Século XXI, decidiu ouvir os alunos do 1.º ao 12.º ano, durante uma conferência onde estiveram presentes dezenas de discentes interessados em opinar sobre matérias fulcrais do seu quotidiano, como seja, currículo orientado para o essencial, desenvolvimento do espírito crítico, espaço de debate para a educação formal e não formal, o currículo e a matriz direcionada para a cidadania.

Foram apontadas algumas soluções para favorecer o processo ensino-aprendizagem e preparar melhor o aluno para a vida ativa: redução da carga horária (quer dos alunos, quer dos professores), flexibilização curricular, redução de alguns conteúdos para aprofundar outros de maior relevância, alteração das metodologias tradicionais, articulação vertical e horizontal entre as diversas áreas curriculares (espaços de debate alargado, assembleias-gerais de alunos, visitas de estudo, trabalho experimental, trabalho de pesquisa individual ou em grupo…), interdisciplinaridade e exploração de temas transversais; desta forma, alguns dos constrangimentos indicados pelos participantes seriam menos visíveis, indicando-se como exemplos: sobrevalorização dos testes, excessiva carga horária, áreas muito específicas e fechadas, pouca importância dada à relação professor/aluno imprescindível para um clima de abertura, sentido crítico, iniciativas empreendedoras, primando por uma constante e salutar interação entre si.

Aulas mais práticas e com recurso às novas tecnologias (tablet, telemóveis…), turmas mais pequenas, algumas tardes livres, aulas de 60 minutos, intervalos maiores, conteúdos mais apelativos que os preparem para o futuro, participação em projetos fora do tempo escolar, aprendizagem de língua gestual, inserção de áreas diversificadas tais como robótica, xadrez, teatro, poesia, dança… são algumas das características do ensino e das escolas do futuro.

Para isso, pedem professores simpáticos, motivados, criativos, bem preparados, talentosos, exigentes, compreensivos, empáticos, perseverantes, capazes de abordar temáticas para além do currículo e que “nunca desistam dos seus alunos, mesmo que isso seja difícil”. Na verdade, pretendem superprofessores, aqueles que todos os dias estão ao seu lado.

A visão dos alunos nunca deve ser menosprezada, antes valorizada e, simultaneamente, complementada com atitudes do poder governamental indiciadoras da aposta que, de uma vez por todas, estamos à espera: descongelamento das carreiras, diminuição do número de alunos por turma, atribuição às escolas do número suficiente de funcionários… enfim, tudo a que têm direito.

Saibam, caros alunos, que devem continuar a estudar e a esforçar-se, cientes de que a pedra basilar é o trabalho. Os professores estão ao vosso lado!

As famílias devem reconhecer que a escola é um lugar de aprendizagem e de construção do vosso futuro. Devem estar sempre ao lado dos professores, que tudo fazem para que os alunos atinjam os seus objetivos. Estão também na escola pública os professores mais bem preparados, mais habilitados e mais experientes… dos melhores!

Com as opiniões de todos, as decisões que se tomarem só podem ser positivas, nunca colocando qualquer interesse acima do cerne da educação: o aluno.

Filinto Lima

Professor/Diretor

In Jornal de Notícias


A geração Peter Pan

Falar sobre educação, um tema tão polémico e actual, apresenta uma dificuldade acrescida. Educar implica uma enorme panóplia de ferramentas, de estratégias e de engenhos que só descobrimos quando são necessários. Não quer isto dizer que sejamos iguais uma vez que os desafios, apesar de serem idênticos, apresentam muitas variáveis.

Qualquer educador deseja que o seu educando se transforme num adulto bem resolvido e capaz de enfrentar aquilo que a sociedade lhe proponha. É sabido que somos imperfeitos mas tentamos sempre melhorar e com o trabalho em conjunto os resultados podem ser animadores.
O que vou relatar é precisamente o contrário do que se pretende e este é o espaço adequado para o fazer. Este mau exemplo é o resultado prático da falta de respeito, de consideração e sobretudo de valores, em que a nova geração de adultos se enquadra. Quero deixar bem claro que um caso não faz um todo e que as pessoas podem mudar a sua conduta. No entanto é tão grave que deve ser partilhado para evitar mais erros futuros.
Esta é a história de Ana, nome fictício, que depois de concluir o ensino secundário e ter entrado no ensino superior, decidiu dar outro rumo à sua vida. Foi uma aluna regular, nunca tendo ficado retida e, acima de tudo, interessada em tudo o que tinha para aprender. Começou a trabalhar em part time, no secundário e fez o seu pé de meia. Tinha em mente um determinado curso e entrou para o mesmo. A universidade é bem diferente do secundário e nem todos conseguem acompanhar.
Depois de um ano terminado, optou por outra área que também não a satisfez. Teve a coragem suficiente para admitir que não era aquilo que queria e tomou outra decisão. Abriu um negócio. A experiência que tinha ganho a trabalhar foi de extrema utilidade e foi colocada em prática, da melhor forma que sabia. Correu bem e estava satisfeita. Além do seu, criou mais outro posto de trabalho. Uma autêntica mulher de negócios.
Esta semana foi surpreendida por uma carta oficial sobre um assunto que desconhecia por completo. Uma coima, de valor bem elevado, por algo que nunca lhe passaria pela cabeça. A carta estava bem documentada e não tinha como contra argumentar. Reportava-se a uma situação ocorrida há mais de 6 meses e que a ex-funcionária tinha sido responsável.
Uma das funções atribuídas era encerrar a loja e deitar fora o lixo, o que não parece apresentar grau de dificuldade de maior. O que aconteceu foi que colocou documentos identificativos, de menor importância, mas sem serem devidamente acondicionados, à vista de todos. Os eco-pontos têm uma abertura mas nem isso ela teve em conta. No chão, sem mais nem menos. Alguém terá reportado à Câmara e um fiscal tomou conta da ocorrência.
Esta situação é muito grave. Confia-se nas pessoas, porque são adultas, na sua noção de responsabilidade e depois os resultados são estes. Não teve a menor consideração nem respeito pela sua empregadora. Não há profissionalismo nenhum a exercer seja o que for. Agora a Ana tem de assumir a responsabilidade pelo que aconteceu e pagar o que não devia. Onde está o bom senso? Isto não se ensina só na escola mas também em família e no dia a dia.
Esta pessoa foi muito negligente e irresponsável deixando quem a empregou numa circunstância muito pouco agradável. Esta atitude demonstra uma total ausência de valores. Mas que sociedade ésta que estamos a formar? De inúteis e incompetentes? De eternas crianças que não querem aceitar que cresceram? Colocar o lixo num recipiente é tão óbvio e mesmo assim não foi capaz de o fazer? Mas o que passa pela cabeça destas pessoas?
Uma entidade patronal não é uma mãe ou um pai que tem de andar sempre a ver o que os filhos fazem. Um adulto tem de ser responsável pelos seus actos e ser rigoroso e cumpridor. Interrogo-me sobre o que terá acontecido mais e que ainda possa “saltar” para a Ana. Ela não merece e nem se pode defender. Assume e honrará o compromisso, como tem feito desde sempre. Não é justo nem está correcto. Posso colocar algumas hipóteses sobre a ocorrência mas são meras especulações e não me compete, tão pouco.
Recordo uma conversa de uma mãe sobre a sua filha. Queixava-se que não gostava do emprego que tinha, que era muito duro ( nas suas palavras ) e que merecia mais. A filha nunca tinha concluído o ensino obrigatório mas “sonhava” com um cargo superior. É basicamente assim que se está a pensar neste momento. Não interessa o que sabem mas sim o que querem. Muitos querem o céu, o impossível. Todos os trabalhos são honrados e devem ser bem executados.
A geração Peter Pan está aí e não é nada bom. Este exemplo é uma consequência da permissividade, da laxismo, do desculpar porque é pequeno. Era uma adulta e devia ter noção de responsabilidade. Não sei por onde andará agora e o que fará mas se continua com a mesma atitude é dramático. Ninguém quer executar as chamadas tarefas “menores” mas elas são necessárias. Uma sociedade só pode sobreviver se todos trabalharem em conjunto, para o bem comum.
Proponho um mero exercício: imaginemos que os trabalhadores que recolhem o lixo deixavam de trabalhar. Rapidamente este se acumularia, o cheiro seria nauseabundo e tornar-se-ia insuportável circular nas ruas. Muito em breve as doenças tomariam de assalto a sociedade e seria uma catástrofe. Agora retiremos todos aqueles que trabalham nos supermercado. Depois de esgotadas as mercadorias nas prateleiras seria o caos, já para não falar nos roubos que seriam permitidos porque os caixas não existiam. Como seria?
Mais uma vez reforço a ideia de que todos os trabalhos são honrados e que devem ser desempenhados com afinco e profissionalismo. Cada profissão tem o seu lugar e o seu valor. Numa escola estão representadas várias actividades profissionais que são executadas por pessoas diferentes. Sabendo que os assistentes operacionais estão em deficiência, podemos ter uma pequena ideia de como seria um mundo sem todas as peças da engrenagem.
Margarida Vale

Não à Municipalização da Educação! Menos Poder para os Diretores! 1

Esta é uma das posições mais consensuais entre os docentes – o não à municipalização da educação sai cheio e encorpado nas escolas de Norte a Sul do país, ditado pela maioria dos professores que não quer ouvir falar disto nem se dourarem muito a pílula. E, no entanto, a municipalização da educação está em marcha agora travestida de descentralização.

A Fenprof está atenta e contra, nem podia ser de outra forma. E já prometeu lutar com as armas de sempre – as manifestações, as greves – se o Governo não negociar a descentralização de competências e um novo modelo de gestão para as escolas.

Hoje dou a palavra a Mário Nogueira:

“Fica claro para a Fenprof que, se por causa disto, se por causa de contrariar este caminho de municipalização, tiver que voltar com os professores à rua, tiver que promover lutas que podem passar pelas mais diversas formas – ainda que sejam greves, não importa – contra o processo de municipalização, o Governo pode contar com uma oposição fortíssima da Fenprof, porque esse processo merece uma oposição fortíssima dos professores”

“Não vamos ficar nem a olhar, nem a pensar que por ser um Governo diferente do anterior o processo pode não ser tão mau como o anterior. O que para nós está em causa é o processo, não quem o concretiza.”

O Público dá-nos ainda conta de um outro assunto consensual entre os professores: 92% dos professores quer que os directores tenham menos poder, revela o Inquérito da Fenprof realizado a 25 mil docentes.

Municipalização da educação pode levar professores de volta à rua e à greve

Menos poder para os directores, defendem 92% dos professores

É ainda notícia de hoje o modelo de acesso à universidade e o facto de continuar a existir inflação de notas nas escolas privadas.

Sapo

Escolas públicas e privadas querem alterar acesso à universidade

JN

Escolas privadas continuam a inflacionar notas no secundário

Anabela Magalhães


Comparação das Classificações Internas no Ensino Secundário (Privado Vs Público)

Costuma-se dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras… mas, para além de constatar o óbvio, que no ensino privado se paga para obter boas médias, os números do ensino público deviam fazer refletir o grau de dificuldade dos exames ou da exigência interna. Lembro que na classificação interna entram outros factores que normalmente “puxam” as notas para cima, como o comportamento, assiduidade, etc.

(carreguem na imagem para aceder ao estudo da DGEEC)

Escolas privadas continuam a inflacionar notas no secundário

(JN)

“Existe um desalinhamento persistente e especialmente marcado entre os subsistemas público e privado independente. Aos alunos de estabelecimentos públicos são, em média, atribuídas classificações internas mais baixas do que aos seus colegas do subsistema privado que, posteriormente, obtêm resultados iguais nos exames nacionais”, indica o estudo, publicado no “site” da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência (DGEEC).


Faz sentido reprovar um aluno apenas por mau comportamento?

Na semana passada lancei uma sondagem com o intuito de conhecer a vossa opinião sobre uma questão que me tem causado alguns conflitos de consciência.

Eis o resultado:

Um aluno deve reprovar por mau comportamento, independentemente do seu aproveitamento?

As respostas foram significativas e mostram um claro empate técnico, mostrando mais uma vez que as questões disciplinares são tudo menos consensuais.

O assunto é importante e deve ser analisado. Se por um lado temos aqueles que têm o bom senso de não reprovar um aluno apenas pelo seu mau comportamento, ou episódio infeliz, por outro lado temos os defensores de que a escola é muito mais do que 2+2 e o sucesso de um aluno mede-se não só pelo seu desempenho académico, mas também pelas suas atitudes e valores.

Muitos foram os que disseram (e bem) que o comportamento já vem contemplado nos critérios de avaliação, deduzindo que a questão nem sequer se devia colocar. Porém, é possível que em pouco mais de 2 semanas um aluno passe de aprovado a retido, mesmo tendo classificação máxima a todas as disciplinas. Como? Basta ser suspenso por mais de 10 dias ou ser “expulso” da aula durante 3 semanas a uma única disciplina…

O que diz o Estatuto do Aluno:

Artigo 18.º
Excesso grave de faltas

1 — Em cada ano letivo as faltas injustificadas não podem exceder:
a) 10 dias, seguidos ou interpolados, no 1.º ciclo do ensino básico;
b) O dobro do número de tempos letivos semanais por disciplina nos restantes ciclos ou níveis de ensino, sem prejuízo do disposto no número seguinte.

Artigo 19.º
Efeitos da ultrapassagem dos limites de faltas

5 — As atividades de recuperação de atrasos na aprendizagem, que podem revestir forma oral, bem como as medidas corretivas previstas no presente artigo ocorrem após a verificação do excesso de faltas e apenas podem ser aplicadas uma única vez no decurso de cada ano letivo.

8 — Cessa o dever de cumprimento das atividades e medidas a que se refere o presente artigo, com as consequências daí decorrentes para o aluno, de acordo com a sua concreta situação, sempre que para o cômputo do número e limites de faltas nele previstos tenham sido determinantes as faltas registadas na sequência da aplicação de medida corretiva de ordem de saída da sala de aula ou disciplinar sancionatória de suspensão.

Haverá quem afirme que a suspensão não é o caminho e é frontalmente contra. Não sou dessa opinião, considero que a consequência para uma atitude incorreta deve existir e o que está contemplado no estatuto do aluno para as “indisciplinas” mais gravosas é a suspensão de 4 a 12 dias.

A prevenção, o trabalho de proximidade com alunos e famílias são seguramente o melhor caminho, mas este por si só não é suficiente para mudarmos mentalidades e atitudes. Chega o ponto em que todas essas estratégias poderão ter falhado e o diálogo tem muita força mas pode ter sido insuficiente. Conciliar prevenção com punição trará seguramente mais resultados do que apostar em apenas uma destas variáveis, fora as muitas outras que existem mas que não vou abordar neste texto.

Vamos a casos concretos:

1º Período – aluno agride professor, é suspenso 12 dias, resultado… está retido e ainda o ano agora começo.

3º Período – aluno está “tapado” por faltas, não tem negativas, mas é reincidente em comportamento incorreto, até tem uma pena suspensa de dias de suspensão na tentativa de “segurar” o aluno para evitar males maiores… O aluno “não se aguenta” e rouba ou agride violentamente um colega, basta ser suspenso 1 dia para ficar retido.

“Que se lixe, tivesse juízo…”

Compreendo o desabafo que alguns possam ter ao ler as situações referidas, acreditem, também o disse muitas vezes… Mas também é verdade que a probabilidade de um aluno retido reincidir em comportamento incorreto é mais elevada, logo, convém analisar estes casos não apenas de frente, mas de diferentes lados.

Um aluno que ultrapasse o limite de faltas tem a oportunidade de voltar à legalidade se tiver sucesso numa prova destinada para o efeito. Mas um aluno que ultrapasse o limite de faltas por dias de suspensão, nem sequer tem direito à dita. E convém não esquecer que um aluno menor de idade e que esteja reprovado por faltas, terá de se apresentar na escola mas não poderá frequentar as aulas…

Estão a ver os problemas que este tipo de situações pode causar a uma escola? Imaginem que têm não 1, mas 5 ou 10 alunos retidos por excesso de faltas/motivos disciplinares… temos todas as condições para a criação de um pequeno gangue dentro da escola…

Um aluno que tenha a “pena” máxima de suspensão, os tais 12 dias, terá praticamente 1 ano, seja antes ou depois, para mostrar que tem/teve os conhecimentos necessários para transitar de ano. E já nem abordo a questão dos anos intermédios… Sou da opinião que eliminar estes alunos, por tudo o que referi, trará mais problemas do que benefícios.

Então o que fazer?

Simples, permitir a realização da prova de recuperação como acontece com os restantes alunos. Se mesmo assim o aluno voltar a reincidir em conduta grave, então o caminho só pode ser um, o da reprovação.

Sou apologista da recuperação dos alunos em todas as suas vertentes, mas a paciência da escola e da restante sociedade deve ter limites. Os alunos não são apenas vítimas, são o resultado de uma série de consequências, mas também fazem escolhas e essas são-lhes propostas todos os dias. As suas escolhas erradas não lhes dão o direito de prejudicar terceiros que querem e precisam de aprender. O cumprimento de regras é essencial para uma escola de qualidade, só assim podemos terminar com uma das maiores causas para a indisciplina reinante, o sentimento de impunidade!

Alexandre Henriques


O retrato “doente” das nossas escolas. 3

À exceção de uma pequena minoria de alunos, ainda respeitadora da escola e dos profissionais intervenientes no sistema educativo, é notável que, de ano para ano, cresce o número de alunos que revelam comportamentos desviantes e violentos.

Entre as atitudes mais comuns de indisciplina podem referir-se as seguintes: uma postura de provocação constante, desobediência, desrespeito e agressividade para com os docentes, mas também com os auxiliares de apoio educativo e os colegas; outros manifestam-se ainda revoltados, irrequietos, irreverentes e muito barulhentos, não obedecendo a regras básicas fundamentais de convivência e civismo, nem dentro nem fora da sala de aula.

Como se isto não bastasse, os casos de as agressões verbais e físicas de alunos e pais de alunos para com professores, também se tornam cada vez mais frequentes. Geralmente, as crianças ou os adolescentes são superprotegidos pelos pais, independentemente da gravidade do seu comportamento na escola; o que resulta em agressões a docentes.

Muitas vezes, há alunos que são retirados do contexto da sala de aula, (com participação disciplinar), sendo impossível lecionar devido à sua indisciplina reincidente, mas voltam ainda mais vitoriosos, aos pontapés a tudo que encontram pela frente. São infinitos os casos de indisciplina que se poderiam contar aqui, mas não há espaço para tanto…

Desnecessário será dizer que a tarefa dos docentes, hoje mais do que nunca, é extremamente árdua, stressante e muito desgastante, pois aos fatores já mencionados, acresce ainda: a elevada carga burocrática, as várias reuniões agendadas, a preparação e lecionação de aulas, a correcção de fichas de avaliação e exames, entre de outros muitos trabalhos corrigidos, os apoios educativos, o desempenho de cargos atribuídos e a formação continua. São inúmeras horas de trabalho em casa, superando sempre, aquelas que o horário letivo estabelece, o que se repercute negativamente na saúde dos docentes.

O corpo docente está cada vez mais envelhecido, cansado, doente e sente-se desamparado por todo o sistema; a situação torna-se cada vez mais insustentável e caótica. Elevado número de professores recorre a antidepressivos, ansiolíticos ou calmantes para poder conseguir exercer a sua profissão, para conseguir camuflar a exaustão física e psicológica que os vai minando por dentro. Uns sofrem em silêncio, outros estão de baixa psiquiátrica, com sintomas depressivos severos, com amnésia ou crises de ansiedade. É o panorama que ninguém mostra lá para fora, porque nos envergonhamos de já não ter mão neste caos assustador.

As direções das escolas, essas permanecem incapazes de pôr termo a esta problemática, deixando-se subjugar por “ordens superiores”. A maioria dos Diretores apenas dissimulam ou ocultam os inúmeros problemas de ordem disciplinar, de modo a manter a falsa “imagem da escola impoluta”. Exercem apenas para mostrar resultados ilusórios, toleram e desculpam o que está mal e camuflam por conveniência.

Este tipo de gestão é o maior dos problemas; a impunidade face a comportamentos desviantes dos discentes acaba por ser a “regra de ouro”. Atenuam-se ou encobrem-se ocorrências graves, usando as desculpas esfarrapadas de sempre:  “o aluno tem problemas, é hiperativo…” . É o retrato real de uma escola que está “doente”!

Perante isto, e com tais alicerces…

– Como promover nas crianças e nos jovens valores éticos, regras básicas de convivência, civismo?  

– Como incutir-lhes o respeito pela autoridade docente no cumprimento de suas funções?

– Como recuperar o respeito e a valorização da nossa profissão?

– Que geração futura estamos a formar Sr. Ministro da Educação e Sr. presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares?

Mónica Guimarães


Currículo e comportamentos 2

Se, na semana passada, perspectivei relações entre a gestão flexível do currículo e os comportamentos escolares, por via de dinâmicas e da gestão de interesses, hoje retomo o tema, ainda que com alguma alterações.

Sendo este blogue, no seu espírito inicial, um blogue em torno dos comportamentos e da indisciplina, será normal que possamos perspetivar as diferentes dimensões, fatores e circunstâncias que interferem, condicionam ou relacionam um e outro. Considero como um desses elementos o currículo escolar. Considero que este interfere e condiciona o conjunto de comportamentos escolares, fruto do seu equilíbrio (entre áreas e saberes) como da sua organização e estrutura (disciplinas alvo de avaliação externa e preponderâncias de sucesso). É com base no currículo, no conjunto de saberes e das formas como eles são veiculados, que decorrem relações de maior ou menor tensão, de maior ou menor despique (e, simultaneamente, se perspetivam dimensões tecnocráticas ou humanistas – brinquem, brinquem).

Assumo, como ponto de partida, que os comportamentos escolares se têm alterado. Mais desordeiros, mais instáveis, mais truculentos, mais desafiantes do ponto de vista da relação de sala de aula. Oscilam entre uma aparente conformidade, marcada muito pela indiferença e pelo alheamento ao que se passa em contexto de sala de aula e uma permanente disputa, senão quase que um confronto entre partes que, sendo assumidamente diferentes em si, se confrontam num cara a cara, no frente a frente.

Por outro lado, considero privilegiadamente as situações de disciplina em detrimento da indisciplina em si mesma. Isto é, o trabalho na escola e em sala de aula remete para situações desequilibradas porque hierárquicas e funcionais. Quando em confronto (muitas vezes por questões de recusa dessa hierarquia ou dessa funcionalidade) espoleta-se uma situação que muitos designam como indisciplina, por que assente na recusa de um modelo, no confronto e contestação de uma ordem.

É possível, quanto desejável, criar a relação entre currículo e comportamentos escolares, considerando que a sua relação se posiciona no patamar de fomentar ou dissuadir factores de tensão. Nomeadamente quando o currículo se apresenta, como tem sido o caso nos últimos anos, desde, pelo menos, o decreto lei 139/2012, manifestamente desequilibrado, no meu entendimento (⅓ é para português e matemática e o restante para as demais o que faz com que na área social – história e geografia – cada disciplina não tenha mais de 7% dos tempos letivos e as ciência naturais se fiquem pelos quase 10%.)

Se considerarmos o 3º ciclo do ensino básico, onde as situações de indisciplina são mais frequentes, de acordo com estudos deste mesmo blogue, poder-se-á aceitar que para isso muito contribuirá o desinteresse, a indiferença, o alheamento dado por um conjunto de disciplinas que saturam, destacam dificuldades pessoais e se assumem como elementos de insucesso (consequentemente de desinteresse, indiferença, alheamento).

A proposta que se apresenta, sem ser o ai jesus de coisa nenhuma, nem o comprimido milagroso que muitos ambicionam, poderá criar equilíbrios onde antes não existiam e, desse modo, garantir uma outra (con)vivência em contexto escolar. Assim o espero.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas, 20 de fevereiro, 2017;

Imagem daqui.


Procriação Medicamente Assistida e não só, mas pensar “previamente” na criança?

O tema da Procriação Medicamente Assistida (PMA), não deve ser lidado com demasiada leveza, e quem “isto” escreve, não tem bases científicas e não só, suficientes, para outorgar quanto ao mesmo qualquer opinião, apesar de ver tantas e tantos com conhecimentos idênticos a saberem tudo e a tomarem posições inflexíveis. Não é o caso, mas é um tema que está na “berra!

Assim, tal como na Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) – e aqui tendo opinião bem definida pelo Sim – o importante sempre e só, é pretender-se ter uma criança que “desejada”, e que num mundo cada vez mais selvagem, como está a ser o nosso, seja tratada com carinho, apoio, e “preparada” para um dia ser um adulto com força de o ser. “Isto” é o essencial. Quem estas linhas escreve, defendeu e continua a defender o aborto, nunca como método anticoncepcional mas como a alternativa a “um acaso”, quando sem ser essa a intenção pode aparecer uma criança que não foi desejada/planeada. E qualquer criança que venha ao mundo não deve ser uma “casualidade” mas tem que ser uma vontade, especifica!  Não há muitos anos, quando num parto havia o risco de morrer a mãe ou a criança, o médico vinha perguntar ao pai – cá fora – o que queria fazer, o este, muitas vezes optava pela criança. Não poucas vezes tinha optado mal, dado que perdera a mulher com quem poderia ter outra criança e não sabia lidar com a que ficou. Logo uma criança indesejada, apareceu com todas as consequências que dai advieram! Hoje já não é assim decide-se pela mãe, e a opção é do médico, e ainda bem. O direito da criança a sê-lo, e é muito importante, se não o mais importante.

Claro que para o ser, tem que ser bem-educada – que, não só instruída – e tem que ter regras e não haver medo do termo “mandar” , dado que criar, implica  tê-las até para perceber o que é também a liberdade. Termos de comparação e utilização, algo hoje em total confusão! Claro que como criança tem que ter direito a sê-lo, e a brincar, e a ter carinho e amor, e a ter um futuro condigno, algo que não implica dar muitos bens materiais, mas antes dar-lhes o essencial e dar-lhes o resto, que vale muito mas para toda a vida. Assim justificada a opção pelo aborto se algo correu mal na planificação de um novo ser, e só  o tendo quando  “querido/desejado”,  para o ser. Quanto à PMA e por certo por total incorrecção de análise, e fazendo uma associação que nada tem a ver com o caso, mas mostra os “não “limites que alguns actos hoje implicam, quando se fazem experiências entre tecidos de seres humanos e de porcos, assusta, logo é uma área não tão linear em favor de uma nova criança. E como todos estes temas, desde a IVG, à Morte Assistida e claro à PMA, fala-se sem ouvir o outro, tem-se sempre razão e o outro está sempre errado, seja em que campos estejamos, nós temos sempre razão os outros estão sempre errados, e zangamo-nos e berramos. E nada esclarecemos à séria. Sendo que – por certo repetindo, por erro de quem isto escreve – fala-se  e escreve-se muito quanto à PMA mas mais em defesa da vontade de uma mulher ser mãe, do que de uma criança ser bem desejada. E aqui é essencial pensar antes na criança ou não fazê-la, e se tudo está bem pensado que se pronuncie com calma e boas explicações quem o pode saber fazer, mas sem desmedido empenho e demasiada emoção. Quanto à morte assistida a opinião também é sim, para o próprio e só para o próprio por achar que sem dignidade e qualidade não é necessário atrasar e sofrer mais até à morte! Certa!

Augusto Küttner de Magalhães


A culpa é dos professores que estão por nascer (ou não)…

«Se dizemos do entendimento que ele é o poder de reconduzir os fenómenos à unidade através das regras, deve-se dizer da razão que ela é a faculdade de reconduzir à unidade as regras do entendimento através dos princípios. Portanto ela jamais se relaciona imediatamente nem com a experiência, nem com um objecto qualquer, mas com o entendimento, a fim de fornecer a priori e por conceitos aos variados conhecimentos dessa faculdade uma unidade que se pode chamar racional e que é inteiramente diferente da que o entendimento pode fornecer.»

Kant

… raramente pensamos nisto. Uma criança entra no “sistema” aos 4, 5 ou 6 meses. É metido numa sala com outros e orientado por “educadores” que não são os pais. Depois, só sairá do sistema aos 18 anos. Raramente pensamos nisto mas os pais, verdadeiros elementos fundamentais para a educação de uma criança, estão num sistema à parte onde o “trabalho” lhes leva 8, 9, 10, 11 ou mais horas da sua vida. Reservam depois, pouco tempo, para essas coisas da escola. Raramente pensamos nisto porque não nos interessa colocar em causa o sistema que tudo e todos transforma em seres presos nesse sistema que tudo consome. É agora esse mesmo sistema, criado por todos nós, que publica um novo modelo para o aluno. Imaginei logo na minha cabeça um enorme boneco de plástico, embalado como um brinquedo, com instruções, normas e indicações de uso. Ou o “novo homem” que alguns anunciavam no final do século passado. O sistema é uma besta. E como tal, recria-se para sobreviver. Grita, de tempos a tempos, para nos dizer que os alunos devem ser assim ou assado. Que o que se espera de um miúdo criado dentro das suas paredes é que ele seja “conhecedor” mas agora em todas as suas vertentes com a modernidade da “inteligência emocional”. Antes, se contarmos os anos, foram 3 ou 4, era a exigência e o conhecimento. “Só passa quem souber”. Agora é a “formação global do individuo” e as competências para além da escola. Andamos nisto, para a frente e para trás. Olhamos para os “modelos” lá de fora como exemplo e quando alguém partilha algo que esse modelo “atira” como sucesso lá vem o comentário: eles são civilizados. Acontece que nós também. Raramente pensamos é nisso. Nós também. E depois, no fim das contas e dos discursos atiramos a culpa aos professores. Curiosamente, todos eles, foram filhos desse mesmo sistema que agora integram sem questionar ou raramente pensando nele como algo que podia não ser assim. Daqui a uns anos haverá professores que estiveram, como anos, dos 4 meses aos vinte e tal anos. Sem dele sair. Sem o questionar. A serem orientados por “guias” para “o novo aluno”. Raramente pensamos nisto. Mas talvez seja esse o imenso pecado da escola que hoje eu, pai e educador, vejo como mortal: a escola é preciso ser crítica, cultura, ciência e saber. A sabedoria eleva a inconformidade. Talvez seja verdadeiramente isso que falta à escola. Porque guias, rumos e coisas que tais está ela cheia…

João Lima, Pai.


Objeção de consciência 2

Um dos vetores mais marcantes da última década, no que ao ensino diz respeito, é, sem dúvida, a progressiva proletarização da classe docente deste país. Reduzir os professores ao estatuto de serviçais pedagógicos tem sido o lema inconfessado dos sucessivos elencos ministeriais, desde Lurdes Rodrigues até à atualidade. É o braço do Estado — enquanto a boca vai proclamando generosas ofertas de autonomia e descentralização de competências — a assumir progressivo controlo do ato didático e, concomitantemente, a legitimar o direito de o fazer de forma cada vez mais abrangente e decisiva. Por seu lado, os professores, esmagados pela precariedade, pela insegurança e pelo medo, remetidos à paupérrima defesa (ou conquista) de um posto do trabalho, quase nada têm feito, enquanto corpo, para demarcar claramente as suas fronteiras, as linhas onde começa e acaba a sua objeção de consciência.

Por muito que o poder político creia, os professores — tal como os médicos, os enfermeiros… — não são meros amanuenses que apenas executam ordens, sem qualquer palavra a dizer, quer no conteúdo quer na forma dos atos que praticam. Tal como um médico, que tem pleno direito de traçar o território mais íntimo da sua consciência (porque trabalha com pessoas e não com móveis ou blocos de cimento) também o professor, porque ensina e educa seres humanos em crescimento, tem o direito e o dever de ouvir e de ser ouvido, de participar ativamente em todas as decisões respeitantes à relação pedagógica que estabelece com os seus alunos (e aos variadíssimos conteúdos que através dela são desenvolvidos) e de poder erguer, sem constrangimentos, as muralhas da sua objeção de consciência. Enquanto não o puderem fazer, enquanto não forem capazes de o fazer plenamente, enquanto se abstiverem e/ou permitirem que outrem o faça no seu lugar, os professores jamais serão respeitados, nem a montante, nem a jusante. E deixarão mesmo de ser professores, quando deixarem de ser os verdadeiros autores e mentores dos seus atos pedagógicos. Nem a competência científica lhes servirá de garantia.

Mas, afinal, que limites são esses que um pedagogo deve definir? Podemos resumi-los a três direitos fundamentais: o direito de conceber os seus caminhos pedagógicos, de acordo com as características dos seus alunos, do(s) contexto(s), das metas do ensino e dos fins da educação (caso contrário, não será um pedagogo); o direito de não executar decisões que ponham em causa a sua autoridade e a sua credibilidade aos olhos dos alunos, assim como o intocável respeito que estes lhe devem; o direito (e dever) de não subscrever medidas que, imediata ou mediatamente, lesem ou iludam os seus alunos, ainda que se apresentem vistosamente trajadas com as coloridas roupagens do sucesso ou da tolerância. É este o triângulo íntimo que nenhum professor deve deixar violar. Contudo, é este sagrado reduto que tem estado à mercê de múltiplas intrusões.

Consciente ou inconscientemente, voluntária ou involuntariamente, os diretores escolares — pela forte concentração de poderes, pela intromissão em todas as áreas pedagógicas, pela excessiva identificação do projeto educativo com a sua figura, pela vinculação a metas que não dependem exclusivamente do empenho dos profissionais que tutelam… — têm sido o braço direito deste longo e cavernoso processo de funcionalização/desautorização dos professores. Têm sido eles os gestores das vozes e dos silêncios, do oxigénio e do dióxido de carbono, de muitos desequilíbrios desfavoráveis aos docentes, logo também desfavoráveis aos alunos. Têm sido ousados invasores do espaço íntimo dos docentes, condicionando, direta e/ou indiretamente, todos os seus domínios de ação, desde a relação com os alunos aos métodos de ensino e à avaliação das aprendizagens. Fragilizados — extremamente fragilizados — os professores vão fazendo sucessivas concessões do seu graal mais sagrado. Vão-se deixando desqualificar, vão-se deixando desautorizar, pagando com farrapos do seu ego cada uma das cedências feitas.

 

Remetidos à luta diária pelos direitos mais básicos — carreiras, concursos, vinculações, contratos, mobilidades…—, sem a devida retaguarda de quem tem o poder (a vários níveis), os professores têm também permitido a intromissão de outros membros da comunidade escolar e educativa no seu espaço mais íntimo: desde os trabalhos de casa ao exercício da disciplina na sala de aula, passando pelo modo de ensinar, toda a gente julga ter o direito de dizer aos professores o que devem fazer e como. Alguns exercem-no mesmo, com a passividade daqueles cuja voz só é audível em sentido único e descendente.

Há, portanto, do poder político à prática pedagógica, uma longa cadeia de desautorização do corpo docente. Sabemos muito bem porquê. Todavia, é uma cadeia que não lesa apenas a integridade profissional dos professores, lesa sobretudo os interesses dos alunos e da comunidade em geral. O Estado não tem o direito de erguer edifícios de sucesso (seja ele mais ou menos real) sobre os escombros da dignidade e da integridade (física, psicológica e profissional) dos seus professores. Estes, por sua vez, têm o direito e o dever — por quem são e por aqueles que educam — de defender intransigentemente essa sagrada cidadela.

Luís Costa


“O raio dos telemóveis” 15

Parar aulas por ouvir telemóveis a tocar ou para alertar um aluno para deixar de mexer no telemóvel são acções recorrentes no quotidiano escolar.

Embora expresso nos regulamentos internos da maior parte das escolas e no estatuto do aluno o condicionamento do uso do telemóvel e de outros equipamentos tecnológicos, a sua utilização permanece em sala de aula.

Em tempos fui colocada numa situação que me levou a repensar este sistema. Quando trabalhei como Técnica de Intervenção Local com uma turma PIEF, o Conselho de turma, a meio do ano lectivo, decidiu introduzir como regra que cada aluno teria de entregar os telemóveis no início da aula e colocá-los numa caixa dada pelos professores. Fui convictamente contra esta regra por vários motivos: O primeiro motivo, o mais óbvio no meu entender, é que a introdução de uma nova regra a meio do ano apenas serve para aumentar a instabilidade, que por si só era constante, tendo em conta a população. O segundo motivo era o erro pedagógico grave de quebra de confiança entre professor e aluno, quando esta era um desafio constante.

Os telemóveis, assim como as várias tecnologias atuais, são uma realidade absolutamente instituída e o querer fechar os olhos à sua existência não permite criar uma melhor relação com um uso adequado.

Sou apologista de agir sobre o comportamento observável. A proibição do uso de telemóveis potencia, na minha opinião, o efeito contrário. Vamos ser sinceros, se os alunos, por algum motivo não forem com a cara do professor, vão fazer os possíveis para boicotar a sua aula e nunca devemos subestimar o poder do grupo.

Perante esta dicotomia, difícil de resolver, decidi pedir a opinião a um professor e advogado amigo que me informou do seguinte:

O retirar os telemóveis pode ser visto como um erro tanto pedagógico como legal, ora vejamos:

“Do ponto de vista legal e embora não exista um caminho claro e definido judicialmente, quer através da jurisprudência ou através de simples sentenças em 1ª instância, parece-me que o retirar o telemóvel a um aluno se afigura como um ilícito perpetrado pela instituição através de um seu funcionário, neste caso o professor, quando obriga o aluno a entregar o seu telemóvel.

A Constituição da República Portuguesa no seu art.º 62º 1) institui a propriedade privada como um direito de todos os cidadãos, sendo este direito depois desenvolvido no Código Civil, no seu Título II – do direito de propriedade. O art.º 1305º consubstancia o art. 62º da CRP ao afirmar que o proprietário goza de modo pleno e exclusivo dos direitos de uso, fruição e disposição das coisas que lhe pertencem e que, tal com diz o art.º 1308º, ninguém pode ser privado, no todo ou em parte, do seu direito de propriedade.

Sendo que o mesmo código prevê que a pessoa privada do seu direito de propriedade possa reagir na defesa do mesmo por ação direta, art.º 336º (É lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio direito, quando a acção directa for indispensável. A acção directa pode consistir na apropriação, destruição ou deterioração de uma coisa, na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito, ou noutro acto análogo) por remissão do artº 1314º (é admitida a defesa da propriedade por meio de acção directa, nos termos do artigo 336º), facilmente, enquanto professores atentos a estas questões, percebemos que se está a abrir uma caixa de pandora criando uma situação que não é positiva para ninguém.

Não é positiva para os alunos pois instiga ao descontrolo emocional dos mesmos e promove situações de conflito que são contraproducentes para o processo relacional e pedagógico de ensino-aprendizagem que se cria diariamente dentro da turma, sendo que a fonte primária e objectiva dos problemas é a instituição, através das regras desajustadas que cria. E não é positiva para a escola, ficando esta sujeita a uma dupla responsabilidade.”

É uma questão de difícil solução e como sempre é o bom senso que deve imperar. Se existe uma regra específica de uma escola, ela deve ser cumprida unilateralmente desde o início do ano. No entanto, no meu entender, deve ser feita uma leitura da população e espaço escolar e compreender se em alguns casos, a proibição cega não será um foco de maior instabilidade.

Maria Joana Almeida


“A escola não se pode dar ao luxo de ser permissiva, negligente, permitindo comportamentos desviantes e criminais” 3

Embora seja de extrema importância, urgente e bem-vinda a reestruturação curricular, de pouco irá valer se não se apostar em soluções efetivas para pôr cobro à indisciplina e violência escolar, se não for restabelecida a autoridade e a valorização da escola pública e dos seus profissionais. A escola evoluiu, a escolaridade foi alargada, multiplicaram-se os apoios, os benefícios, os pais ganharam, e muito bem, uma posição dentro do sistema educativo, mas ao mesmo tempo, a escola perdeu a sua identidade, diluíram-se e multiplicaram-se as suas funções e responsabilidades, ficou refém de interesses, de “politiquices”, proliferaram as exigências, as opiniões e filosofias individuais, transformando-se num espaço onde quase todos em geral, têm direitos, mas aparentemente desconhecem os seus deveres.

O respeito passou a ser algo do século passado, as regras básicas de educação e de convivialidade ficaram fora de moda, os professores viraram tarefeiros e animadores pagos para “aturar”, a sua autoridade está minada. Os números apresentados da indisciplina nas escolas, pelos últimos estudos, são assustadores, a insegurança faz parte do quotidiano, e o caos que se vive em algumas escolas ou em algumas salas de aula, está a levar, um número significativo de professores ao limite. Algumas soluções já foram apresentadas, outras aplicadas, mas não deixam de ser insuficientes. A redução do currículo às aprendizagens essências, a sua flexibilização e a elaboração de um novo perfil do aluno, é um excelente passo, desde que na prática se traduzam em tempos e espaços de aprendizagem onde o aluno possa construir o seu conhecimento, tenha tempo para brincar, para se envolver em projetos e atividades significativas e se identificar com a própria escola. As tutorias, embora compreenda a intenção, dado o perfil de alunos a quem se destinam, são um desperdício de dinheiro e a sua eficácia reduzida.  São necessárias medidas adicionais e um olhar diferente para a escola, por parte de todos os intervenientes:

  • O Ministério da Educação precisa de valorizar os seus profissionais, apostando num modelo de colocação justo e equitativo, dando estabilidade às escolas;
  • Tem de encontrar um meio ou de descongelar carreiras ou de encontrar um modelo remuneratório proporcional às funções desempenhadas por todos os docentes;
  • É necessário repensar a burocracia, definir e clarificar as funções dos docentes, incluir outros profissionais, como psicólogos e assistentes sociais nas escolas, dotá-las de meios materiais e de mecanismos que assegurem uma educação de qualidade e salvaguarde a integridade física e moral de todos;
  • Os pais que são os primeiros responsáveis pela educação e pelo futuro dos seus filhos, devem parar e repensar o modo como o estão a fazer. Tendo consciência que o mundo fora dos muros da escola e do conforto das paredes de casa, é duro e difícil, até para os mais bem preparados e capazes, qual o preço e o lugar que os vossos filhos vão ocupar no mesmo, quando educados no facilitismo, na desvalorização e desrespeito pelo outro e pela autoridade, no protecionismo exacerbado e no princípio que o trabalho só deve ser feito se proporcionar alegria e de acordo com os humores e disposições diárias? A escola não precisa de braços de ferro, mas sim de pais exigentes, presentes e conscientes do papel que devem desempenhar dentro dela, não só exigindo professores de qualidade, como também, perante os problemas, ajudarem a construir soluções.

À escola cabe-lhe o papel fundamental de definir regras claras de conduta e de funcionamento. A sua aplicabilidade e o seu cumprimento não podem depender de diferenças individuais, de circunstâncias especiais, de interesses particulares, nem de pequenos poderes instalados. Embora a escola reflita o meio, com tudo o que traz de bom e de mau, seja um espaço de diversidade, tenha que conhecer e compreender os diversos contextos e não possa ser indiferente à negligência parental, ao sofrimento e à dor que muitos dos seus alunos transportam em si diariamente, não se pode dar ao luxo de ser permissiva, negligente, permitindo que comportamentos desviantes e criminais vindos do exterior, tenham continuidade e encontrem terreno fértil dentro do seu perímetro. A escola não se pode pautar pela arbitrariedade, onde um conjunto de alunos, aterroriza e ameaça todos à sua volta, que usa a mesma, apenas como o restaurante onde come, o jardim onde passeia, e o local de ocupação dos seus tempos livres. São um departamento à parte, com todos os direitos assegurados mas sem a obrigatoriedade de cumprir os deveres correspondentes. Transformam-se na autoridade dentro da escola e dentro da sala de aula. A impunidade em que vivem, leva a que andem na escola até aos 18 anos, sem nunca adquirirem, no mínimo, as competências básicas de convivência, além de criar nos restantes alunos, o sentimento de injustiça e a ideia que as regras nem sempre precisam de ser cumpridas. A escola deve, dentro das suas possibilidades, assegurar um futuro a estes alunos, não tendo como o fazer, a solução terá de passar pelo Ministério da Educação, uma vez que esta não é um centro correcional.

A escola precisa ainda de espaço para que os seus profissionais possam debater os seus problemas, partilhem experiências, preocupações, soluções e aprenderem uns com os outros. Os professores devem tentar pautar-se por um conjunto de regras uniformes, para evitar a relativização das mesmas, por parte dos seus alunos. Nós não trabalhamos numa instituição militar, é importante sermos assertivos com os nossos alunos, não esquecer que também já o fomos e saber relevar algumas especificidades da idade. Quer queiramos ou não, nós passamos muito tempo com os nossos alunos e servimos-lhes também de modelo e de referência, daí a importância dos consensos, de estarmos em sintonia. Aqueles docentes que, por falta de experiência, vivência, por feitio ou incapacidade, têm problemas em fazer valer a sua autoridade dentro da sala de aula, têm de procurar ajuda e formação para a aquisição desta competência. Não podem depender diariamente da atuação do diretor de turma, nem esperar, que um presidente/diretor que não está dentro da sala de aula, resolva todos os seus problemas.

Por último, a reputação, a credibilidade, a confiança numa escola também se mede pela atuação do órgão de gestão. Os pais querem deixar os filhos num local seguro e entregues a profissionais competentes. Os professores querem sentir que a sua integridade física e emocional está assegurada, que têm apoio, que as suas preocupações são ouvidas, que não são desautorizados e que fazem parte de um projeto educativo de qualidade. Para isso, as escolas não podem ter professores de primeira nem de segunda, é importante uma distribuição equitativa do serviço, rotatividade em cargos e projetos, valorizar o trabalho feito e acima de tudo demonstrar que existe uma liderança democrática, que se pauta pela firmeza, por regras claras, justas e aplicáveis ao encarregado de educação, ao professor, ao aluno e ao auxiliar de educação. Vivemos numa era tecnológica, esconder e varrer os problemas para debaixo do tapete, apenas aumenta as suspeitas sobre a escola, dá azo ao boato e à especulação, os problemas pequenos adquirem proporções que em nada se coadunam com a realidade. A imagem da escola ressente-se e danifica-se a reputação de excelentes profissionais. A qualidade de uma escola passa pela capacidade que tem de enfrentar os seus problemas e pela eficácia das suas soluções.

Cassilda Coimbra


Indisciplina, a ponta de um “Iceberg” 3

A classe docente está grata ao COMREGRAS porque marcaram um “Antes e um Depois”, fazendo toda a diferença …

Finalmente, alguém descobriu “a ponta de um iceberg”, um fenómeno de enormes e assustadoras proporções, do qual começa a vislumbrar-se apenas uma parte “à superfície”, mas cujas dimensões reais são muito superiores.

Os professores e, restantes profissionais da educação, conhecem bem a verdadeira extensão da indisciplina nas escolas portuguesas e sabem o quão nociva esta se revela no processo de ensino/aprendizagem e em todo o sistema educativo. A violência entre crianças e jovens é cada vez mais precoce e vai danificando o sistema educativo português, sem que os responsáveis de direito, façam algo para resolver ou reverter esta situação. Este problema vai arrastando avidamente as escolas e os profissionais da educação para o fundo.

Os estudos, sobre indisciplina, apresentados publicamente pelo ComRegras, merecem toda a atenção por parte do Ministério da Educação e têm toda a pertinência, sendo amplamente esclarecedores sobre a realidade dramática que vivemos, no contexto da escola atual. Estes revelam inequivocamente, os números crescentes e preocupantes dos casos de indisciplina e violência registados.

Todavia, sabemos bem que os números da indisciplina e comportamentos violentos e desviantes, em contexto escolar, são em número bastante superior aos registados em estatística. O que explica isto é que a maioria dos docentes desiste pura e simplesmente de fazer participações disciplinares, pois sabem que estas medidas são ineficazes e incapazes de fazer face a um problema já enraizado e de difícil solução.

Participações disciplinares e até a aplicação outras medidas correctivas e sancionatórias, são tão banais e rotineiras nas nossas escolas, que se tornaram já incapazes de fazer face à gravidade das ocorrências e pôr-lhes travão. As medidas de ordem disciplinar existentes são encaradas com indiferença por parte de elevado número de alunos e inclusive, por parte de vários encarregados de educação, que delegaram na escola toda a tarefa educativa, negligenciando totalmente as responsabilidades que lhes cabem por obrigação.

Os procedimentos disciplinares previstos e aplicados são demasiado benévolos e indulgentes, permanecendo o aluno indisciplinado e reincidente, quase sempre impune, mantendo os mesmos comportamentos abusivos, violentos e desajustados durante todo o seu percurso escolar.

 O que resulta de tudo isto? Quem são os prejudicados pelos índices de indisciplina?

 Todo o sistema educativo; professores e alunos; sobretudo aqueles que querem ser bons alunos; os que ainda respeitam a escola e o que ela representa.

São irremediavelmente prejudicados aqueles que têm sede do saber; valorizam os professores os conhecimentos; os que têm aspirações socioculturais; os que desejam trabalhar para obter um futuro promissor.

Mónica Guimarães


Flexibilidade curricular e comportamentos escolares 1

Tudo aponta para que, no próximo ano letivo, se implemente a gestão local e flexível do currículo escolar – considerem-se as palavras do secretário de estado e vejam-se as notícias, por exemplo, 1 e 2.

Antes da escrita dois pontos prévios. Um primeiro para dar conta que estou de acordo com a proposta. Nem coloco o mas, nem meio mas. Os currículos devem ter, em meu entendimento, uma componente nacional e uma componente local/regional. Componente que as escolas (entendam-se os professores, os pais e a comunidade) devem identificar como essenciais para a consolidação de vivências coletivas, da preservação da memória local, dos processo de articulação dessa memória local no contexto nacional (e europeu). E temos bons exemplos (com resultados) oriundos daquela que foi a área escola ou o trabalho de projeto.

Enquanto segunda nota, não vale a pena falarmos das coisas sem saber de que coisas falamos nós. Assim, entendo currículo na esteira de Pacheco (2011, Currículo: entre teoria e métodos. Cadernos de Pesquisa, 39 (137), pp. 383-400) que considera o currículo «como um projeto construído na diversidade e na pluralidade não só na abordagem do conhecimento escolar, mas, de igual modo, no desvendamento de certos processos e práticas de poder e de padronização cultural que existem no interior das escolas». Este o meu entendimento de currículo, na sua plena articulação (plural e diversa) entre conteúdos, estratégias de articulação desses conteúdos e métodos de avaliação.

Deixados os pontos prévios, considero que a flexibilidade curricular é uma das estratégias de definição de novos/outros mecanismos de regulação dos comportamentos dos alunos. Mais que medidas instrumentais, que visam a punição de uma situação, a correção de uma atitude, gerir o currículo implica envolver parceiros, considerar o aluno como um sujeito do trabalho e não mero objeto de intervenção educativa e/ou escolar.

Quero com esta ideia defender e afirmar que se existem alunos assumidamente desrespeitadores de regras e modelos de vivência social, a grande maioria limita-se a expressar o seu desinteresse perante tudo e todos, a dar conta do alheamento em relação às disciplinas, a ser e a mostrar a sua indiferença ao que se passa, essencialmente, em contexto de sala de aula. Ou seja, a maioria dos alunos mais não faz que assumir, à sua maneira e dentro das suas condições, a contestação às regras e aos  modelos, padrões e valores sociais que a escola e a sala de aula veiculam.

Adaptar o currículo (desde a história local, à matemática para a vida, passando pela cultura e diversidade de fauna e flora ou da organização do território) permitirá criar estratégias de envolvimento e implicação do aluno nas suas tarefas, na definição dos seus objetivos, na criação dos seus interesses e sentidos pessoais, participar no planeamento da sua ação e do seu interesse. Se o aluno for envolvido nesta estratégia, se nela participar enquanto elemento ativo estou certo que as situações relativas à indisciplina serão minimizadas e os comportamentos assumidamente mais assertivos.

A pior política de flexibilidade curricular poderá decorrer das situações em que se tenderá a disciplinarizar essa flexibilidade, a fechar e compartimentar, seja em sala de aula seja por questões de mera circunstância, a possibilidade de diversidade e de assumir a pluralidade de interesses e de dimensões envolvidas.

Não escondo que é um desafio. Para os professores, mas, muito particularmente, para os diretores que deverão criar e implementar estratégias de flexibilização e orientar o trabalho dos professores para o envolvimento e participação daqueles que muitas vezes, o mais das vezes, são meros objetos da ação escolar, os alunos. Se assim acontecer, é uma oportunidade de gerir comportamentos, dar conta da indisciplina, criar outros limites aos comportamentos escolares.

Um feliz dia dos namorados. A paixão faz falta.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas.

13 de fevereiro de 2017


Ainda a Cristina Ferreira, os trabalhos de casa e a indisciplina. 5

A apresentadora Cristina Ferreira foi duramente criticada nos últimos dias, por ter feito, no âmbito de uma entrevista, comentários considerados levianos e inconsequentes em relação aos trabalhos de casa do seu filho. Declarou então publicamente que não obrigava a criança a fazer os trabalhos de casa e que apresentava à professora razões por si inventadas para justificar o incumprimento.

Alguns saíram logo em sua defesa, que também eles não viam pertinência nessas tarefas, parecendo-lhes ver nas palavras de Cristina Ferreira um problema que lá não estava: se bem repararmos, em momento algum ela refere ser contra ou a favor dos trabalhos de casa. O que diz a apresentadora, tão-somente, é que às vezes o filho não tem vontade de os fazer – e ela não o obriga.

E se achamos que se expressou de forma desabrida e frívola, tendo em conta a sua condição de figura pública com acrescida responsabilidade mediática, esse é o menor dos males. Mais não fez Cristina Ferreira do que beliscar a sua imagem de cidadã e mãe e criar eventuais constrangimentos na relação pessoal e institucional com a professora do seu filho.

O que me parece preocupante nesta situação – muito mais do que a forma despropositada que a apresentadora utilizou para manifestar a sua indisponibilidade para acompanhar as tarefas escolares do filho – é dar-se o caso de tantas pessoas, por via de um quotidiano extenuante, a abarrotar de compromissos exigentes (e lamentavelmente sem a equivalente compensação financeira), se reverem nas palavras de Cristina Ferreira.

Quantos pais não chegam a casa exauridos e assoberbados com a vida profissional e se vêem ainda perante um sem-fim de tarefas inadiáveis que muito pouco tempo concedem à atenção familiar?

Quantos pais não disseram já – ou tiveram muita, muita vontade de dizer – num final de dia infernal “então não faças, quero lá saber!”, sentindo na pele a frustração e o ónus da má parentalidade?

Quantos pais não caem na tentação de “atalhar” na resolução de problemas educativos e tensões familiares quotidianas com “pequenas e inofensivas” mentiras?

Afinal, não vem grande mal ao mundo, infere-se das palavras de Cristina Ferreira, se afiançarmos ao professor que a criança não pôde realizar as suas tarefas, quando – efectivamente – apenas não lhe apeteceu.

“O que é importante”, oiço tantos pais dizerem diariamente, “é exigir respeito, é ensinar os miúdos a respeitar o professor, que eu, faltas de respeito, não admito!”

Sim senhor, o respeito é fundamental, estamos todos de acordo. Mas também não é assim tãããooo importante que não possa permitir uma mentirinha aqui e ali. E se podemos fazer uma trafulhicezinha quanto aos trabalhos de casa e isso não interfere no respeito que é suposto termos, umas brincadeirazitas com o colega do lado também não devem fazer mal. E recusar fazer uma tarefa na sala de aula também não é nenhum crime. Optar por dizer umas graçolas em vez de prestar atenção, ou remorder umas respostas tortas quando a professora nos insta a fazer o que não nos apetece também não há-de ser “morte de homem”. E se indevidamente estragamos algo que não nos pertence, não deve igualmente haver problema em fingir que não fomos nós. Afinal, é só mais uma mentirinha inofensiva, como as que a mãe inventa para justificar a ausência dos trabalhos de casa.

Depois, quando estudos nos provam que a pequena indisciplina aumenta paulatinamente nas escolas, pasmamo-nos, de olhos escancarados de surpresa, e desconfiamos que a raiz do problema só pode estar nos métodos obsoletos de ensino e na natureza anacrónica do sistema escolar.

MC

Professora e autora do blogue Estendal