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Catalunha: parte de um dos reinos desaparecidos da Europa

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Como não sou catalão, não tenho opinião sobre qual deve ser o rumo que o povo da Catalunha deve seguir. Mas quer-me parecer que os galegos (como Rajoy) também tem pouco a ver com isso.

Só observo que, no Québec houve movimentos parecidos há uns anos (e a França apoiava) e, fieis à sua calma e serenidade características, os quebequenses, mesmo com alguma picardia, debateram a coisa democraticamente e votaram. O Canadá continuou e quem lá está, gosta de estar lá dentro (e não é por obrigação formal ou porque, no fim das contas, se mandasse gente para a cadeia).

Mas, ouvir os comentadores portugueses do tema e alguns jornalistas, a quem deram ataques súbitos de espanholismo, irrita-me os tímpanos e as meninges.

Há gente que se tem mostrado muito equilibrada na cobertura (e destaco aí o jornalista Rodrigo Prata da SIC). Nos comentadores, mesmo quando não concordo com as opiniões, o contraste da geral sensatez de quem, fazendo comentário, tem formação histórica.

A falta que a História faz….

Este é um daqueles casos em que as técnicas de análise futebolísticas, que se alargaram no espaço comunicacional português, não funcionam para dar perspetivas úteis.

É um caso em que caudas perdidas de lagartos históricos voltam a nascer e começam a bater no presente.

Por isso, muitas das opiniões que esquecem a História (ou a ignoram de todo) borregam contra o muro do real.

No momento em que escrevo, parece que o (ex) Presidente da Generalitat pode pedir asilo na Bélgica. A eventual simpatia belga pelos Catalães talvez só se perceba mesmo com uma viagem histórica aos tempos do domínio Habsburgo e das crueldades que Bruxelas sofreu às mãos de ocupantes hispânicos.

E, por exemplo, fascinado pela história da Polónia, sempre que ouço falar da Catalunha e da sua inviabilidade, penso como seria a Europa se não fossem os loucos polacos do século XIX e dos anos a seguir à 1ª Guerra, que não deixaram morrer e fizeram renascer a língua e a cultura da nacionalidade polacas, perdidas nos finais do século XVIII.

Noblin (Execução de traidores em efigie) – Museu Nacional Polaco- Varsóvia

Alguém hoje dirá que a Polónia é inviável como país? Mas foi dito, no passado, milhares de vezes por gente tão sábia como a que perora sobre a Catalunha. Os Polacos fizeram-na viável (e, mesmo hoje, com a tristeza de ver o fascismo a renascer por lá, isso é um facto fundamental do contexto europeu).

Quando quero explicar aos meus alunos a situação única de Portugal, como país de fronteiras estáveis desde a Idade Média, falo-lhes da Polónia. Há uma animação na internet que explica o ponto

E os meus amigos polacos, professores de História, chamam-me sempre a atenção para o quanto o sofrimento e a vitimização real e imaginada ajudaram a fazer durar séculos a causa polaca de independência.

(Para os Catalães, o sofrimento há-de ser mais imaginado que o real sofrimento dos polacos…)

Uma sugestão de leitura

Mas, por isso, no feriado, decidi não ver televisão ou ler jornais sobre isto e voltar a leituras de História.

Norman Davies, curiosamente um britânico, é um dos maiores historiadores da Europa de Leste. O seu livro God’s playground (dos anos 70), sem edição portuguesa, conta a História da Polónia, o estado, que elegia os seus reis, que era pioneiro em muitas práticas democráticas (até antes da Inglaterra, da França e da Holanda), que teve uma das primeiras Constituições do mundo e que desapareceu durante mais de 100 anos, porque teve a infelicidade de ficar no caminho dos imperialismos alemão, austríaco, russo e, antes disso, sueco.Foi “o terreno de jogo” desses impérios.

A Polónia não fazia sentido nenhum para quem mandava na Europa entre 1815 e 1919. Só fazia sentido para os polacos. A repressão espanhola destes dias é uma anedota à beira da russa ou austríaca, mas a essência do problema, neste civilizado século XXI, é a mesma.

Ler esse livro ajuda a entender a situação atual da Polónia e dá pistas para a da Catalunha e da Europa toda.

Para quem não quiser um “chato” livro de História de umas nove centenas de páginas e 2 volumes, sugiro o último livro do autor, que tem edição portuguesa nas Edições 70 e onde há mesmo um capítulo sobre a Catalunha (na verdade, sobre o Reino de Aragão).

Fica o link para a página do autor e para a crítica que o El Pais e The Guardian fizeram da obra.E que vale a pena ler (as críticas e o livro), para ter mais esclarecimento, no meio das asneiras que se vão ouvindo na comunicação social portuguesa.

Chama-se o livro Reinos Desaparecidos: a História de uma Europa quase esquecida. Não costumo armar-me em erudito e pôr-me aqui a recomendar livros.

Mas este, fã do autor, li-o há meses e, no feriado, vou reler a parte sobre a Catalunha (na verdade, sobre Aragão…). Vale mais a pena que disparates televisivos de gente que, por vezes, até tem agendas escondidas e que provavelmente nem entendem muito bem porque Miguel de Vasconcelos foi dito traidor em Portugal e D. João IV cometeu crime de sedição….

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