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Carta De Um Cidadão

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«Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Tiago Brandão Rodrigues:

Sou pai e avô; tenho mais de sessenta anos e pertenço à geração dos homens que nunca foram meninos. “Doutorei-me” na escola da vida, a mais exigente de todas as escolas, aquela cujas falhas são denunciadas e corrigidas a breve prazo, sem lamúrias, nem paninhos quentes – não havia tempo para isso!

Na escola primária tive sempre o mesmo professor; no meu curso industrial conheci outras figuras e o mesmo aconteceu homem feito, quando passei pela universidade: mas não sou doutor, engenheiro, ou coisa alguma: sou apenas eu, “o miúdo sexagenário” que continua a gostar de aprender.

Minha saudosa mãe, não sabia ler, nem escrever: mas educou-me, especialmente por ter sido mãe e pai. E com “recados” simples, marcou a minha existência, um dos quais, guardo-o bem dentro de mim: respeita os outros, se queres ser respeitado!

Na minha vida profissional, por diversas ocasiões contactei, privei e dei “formações” a jovens estudantes do ensino básico e secundário; são eventos que nunca mais esqueci. Aí conheci alunos atentos, diligentes, curiosos em saber um pouco mais do que ouviam do “professor”; outros a roçar a má criação – mas nunca tomei a árvore pela floresta…

Mas já naquele tempo (década de 90), vi olhares ausentes e cansados dos docentes, a procurarem a paz, numa escola que parecia preparar-se para a guerra. E vi no café pais a exigirem a cabeça do professor, que o menino tinha sido “incomodado” por estar distraído na sala de aula.

Depois disso assisti a uma completa campanha de desinformação, manipulação e desestabilização à volta dos professores; assassinaram-lhes o carácter; menosprezaram as suas funções; deitaram por terra todo o capital de prestígio acumulado à sua volta. E aos costumes, quem governava, disse nada!

Nos anos sessenta, setenta, oitenta e noutros que se lhes seguiram, no Portugal profundo, sem estradas dignas desse nome e com muitos carreiros de cabras, foram os professores de mala às costas e com um molho de sonhos na algibeira, que se arriscaram a ir dar aulas, onde nem o diabo queria morar. E fizeram-no, não por um ano, ou dois, mas por muitos anos. Em determinadas situações a velha escola do “plano dos centenários” foi o porto de abrigo de miúdos cheios de fome e de vida, de roupas gastas pelo uso e de pés doridos.

Agora, na modernidade, os professores percorrem o país, para fazerem o que mais gostam – dar aulas, com a ansiedade do que vão encontrar e a incerteza de como e durante quanto tempo, o vão fazer.

O brilho da profissão docente que vi nos olhos de tantos homens e mulheres está a dar lugar à angústia e à frustração. Ao débil reconhecimento por parte dos poderes públicos, que nem tão pouco se incomodam que um professor com quarenta anos de carreira ganhe menos do que um jovem juiz estagiário, cheio de doutrina, mas completamente “cru” de experiência de vida.

Eu não quero ver, como já vi, uma professora com os olhos marejados de lágrimas, porque foi insultada por um miúdo quase com idade para ser seu neto; ou a outra, que foi agredida em plena escola; e outros tantos por esse país fora, que já lhes perdi a conta.

Senhor Ministro: as pessoas passam e as instituições ficam! Como cidadão, não desejo um Ministério da Educação, refém de burocracias e relatórios, de teorias e iniciativas para encher as páginas dos jornais, de desculpas esfarrapadas e de estratégicas ausências.

Agora mais do que nunca, “vista a camisola” e defenda e prestigie os seus professores. Se não houvesse professores, nunca o senhor seria doutor, e eu próprio, tão pouco me atrevia a escrever estas linhas.

Contra factos, não há argumentos!

Respeitosamente,

Manuel C. Martins – cidadão do mundo.

(enviado por correio electrónico para o Gabinete do Ministro da Educação)»

 

Carta escrita por Manuel Martins

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2 COMENTÁRIOS

  1. Gostei.
    Tenho porém a convicção de que nem ao ministro vai chegar e, se chegar, vai cair em poço sem fundo.
    Estes senhores (dos governos) são insensíveis aos gemidos dos próprios progenitores.
    Quanto mais do cidadão comum!

  2. É sempre reconfortante ouvir a memória num tempo em que é tão desvalorizada.
    Nunca se ouviu tanto falar do século XXI, como se este fosse algo de extraordinário e não apenas tempo e como todo tempo, composto de mudanças.
    Nunca se ouviu falar tanto de incerteza e nunca se proclamaram tantas certezas. O que estará errado em tudo isto?

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