Início Rubricas Quando o bullying vem dos pais.

Quando o bullying vem dos pais.

31782
0
COMPARTILHE

Há pouco tempo deparei-me com um artigo que me chamou a atenção pelo título: “Pais que se intrometem no espaço escolar: um bullying atual que ninguém comenta”

https://amenteemaravilhosa.com.br/bullying-intromissao-pais-escola/.

Escrevi recentemente no meu blog pessoal um texto sobre as “novas modas” de parentalidade e os cuidados necessários para saber encontrar equilíbrios entre as novas modas e a realidade. A adaptabilidade é fundamental porque nada pode ser mais frustrante e sofredor do que ser criado numa redoma, numa qualquer redoma, que não tem laços com a realidade. Tornamo-nos assim uns ratos de laboratório, a habitar um mundo estranho.

Por norma atribuímos o conceito do bullying a atitudes entre crianças e jovens. Uma epidemia do século XXI que se vestiu de contornos mais violentos, com menos filtro e com novas tecnologias à mistura. Este problema existe, é grave e é o espelho de uma sociedade, diria de diferentes sociedades.

Quem trabalha nas escolas está familiarizado com este conceito. Na era dos rótulos este é o mais ativado no nosso léxico. Em muitos casos, de alguma forma, consciente ou inconsciente, compactuamos com o crescimento deste rótulo. Mesmo quando não é. É.

O bullying, a violência física ou psicológica exercida por uma ou mais pessoas num outro indivíduo em situação de fragilidade, não tem como atores única e exclusivamente crianças ou jovens. Retenho um dos parágrafos deste artigo:

Muitos adultos se comportam como crianças: desafiam sistematicamente os professores e negam qualquer comportamento errado dos seus filhos.   Eles estigmatizam o comportamento de outras crianças, amplificam e incentivam qualquer briga entre duas crianças ao invés de optar por um diálogo. Isto também é um bullying silencioso, do qual ninguém fala.”

Esta é também uma forma de violência. Uma forma de violência alimentada por (arrisco) um sentimento de alguma impunidade e uma assunção de que sabemos um bocadinho acerca de tudo. Fruto do acesso rápido à informação, todos temos uma opinião a dar, na maior parte das vezes sem uma triagem adequada. A diversidade de “caixinhas” e “pacotes” no armário dos métodos de ensino baralham os menos entendidos e dificultam a confiança nas instituições. Achar o ponto de equilíbrio é o maior desafio atual.

O ponto de equilibro é no meu entender, definir, conhecer e respeitar limites. A escola não tem de concordar sempre com os pais, nem os pais têm de concordar sempre com a escola. No entanto existe entre ambos uma ligação incontornável, necessária, e em muitos casos com papéis ainda pouco definidos que em nada ajuda no progresso de cada aluno, de cada filho. Não pode haver lugar para exigências fundamentalistas nem imposições pouco informadas. De nenhuma das partes.

Quando um pai não conhece o limite do espaço escolar e exige, por exemplo, uma determinada pedagogia e questiona todos os passos e medidas do professor, está a transmitir, entre outras mensagens, a assunção de que o professor pode, também, em qualquer momento tecer comentários e exigências à profissão dos Encarregados de Educação, assim como criar a ideia de que a escola não é um espaço para respeitar e toda e qualquer indicação de um professor pode ser questionada.

Professores e pais seguros e cientes da importância do seu trabalho não permitem que se ultrapassem barreiras e definem muito bem os limites. Tal como em todos os estágios da nossa vida, são os limites que nos ajudam a auto-regular.

Mais bom senso, mais confiança e mais equilíbrio precisa-se. Debatam-se os temas e as ideias nos locais adequados e nos momentos adequados.

Maria Joana Almeida

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here