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[Rustenburgo – África do Sul, 2011]

Sexta-feira passada, pedi aos miúdos que me trouxessem um objeto ou brinquedo que estimassem, para a aula de Segunda-feira. O tema desta semana é ‘Cuidar de mim, cuidando do próximo’. O que mais adoro nas aulas é que, os temas são de escolha livre e são feitos semanalmente. É preciso estimular mais o ser humano que há em cada criança do que só e apenas, os números e letras.

Já estou sentada na sala de aula à espera de alguns alunos. São 35 a 40 ovelhinhas para um só pastor. Na mão, um leque para acalmar este calor de Novembro. E a chuva que bate na janela e faz o fumo evaporar da terra.

No quadro, escrevo a giz: CUIDAR DE MIM, CUIDANDO DO PRÓXIMO.

Começo por lhes perguntar o que significava aquela frase. Alguns ficaram em silêncio. Outros em pleno desinteresse. Muitos levantaram a mão para responder. Poucos foram os que em êxtase, falaram atropelando os outros.

 

Comecei numa ponta…

Naledi:

– Então, se eu cuidar de outra pessoa, ela também vai cuidar de mim.

Jazmine:

 

– Quando não cuidamos de nós, também não vamos saber cuidar dos amigos ou dos irmãos mais novos.

Theo:

– Eu tenho uma árvore de fruto em casa. Se eu não regar e cuidar, ela também não vai alimentar-me nem à minha família.

 

Sorri e vagueei pela sala, elogiando as respostas dadas.

Pedi-lhes que tirassem da mochila, o objeto ou brinquedo que lhes tinha pedido para trazerem de casa.

Entre muitos brinquedos, vi livros, peluches, fotografias, e até peças de vestuário.  Curiosamente, vi Aisha sem nada. Aisha era uma menina que andava sempre cabisbaixa. Nunca sorria. Era uma menina muito calada e responsável. Nos intervalos, apreciava os outros brincarem, encostada ao muro, pontapeando o chão.

Aproximei-me de Aisha e perguntei se ela se esqueceu de trazer o brinquedo. Sem tirar os olhos do chão, respondeu que não. Passei a mão pela sua cabeça e continuei a minha aula. Foi de uma alegria imensa ver a participação dos alunos. Da facilidade com que associaram o tema da aula aos seus pertences.

Tocou a campainha para o intervalo. Chamei Aisha e perguntei o que se passava.

Abraçou-me a chorar e respondeu bem baixinho:

– Desculpe professora. Eu não tinha nada para trazer para a aula. Encontrei uma vez uma boneca de tecido no chão. Dei-lhe banho. Era a minha companhia, quando ouvia gritos na cozinha. Ela enxugava minhas lágrimas quando eu ouvia meus pais discutirem e minha mãe chorar. Mas um dia emprestei a minha boneca à minha mãe para abraçá-la quando ela estivesse triste, só que ela deitou no lixo.

Continuamos abraçadas em silêncio. Disse-lhe para ir brincar. Quis falar com a diretora da escola sobre o assunto.

De repente, vi um vulto de alguém correndo para o pátio. Espreitei pela janela. Era o Danjuma.

Retomámos a aula. Danjuma estava a desenhar uma boneca numa folha de papel. Só tinha olhos e um nariz. Recortou. Levantou-se e entregou a boneca à Aisha. Acarinhou-lhe o ombro. Aisha perguntou-lhe:

– Para que é esta boneca?

– Para ti. Não tens nenhum brinquedo para cuidar e que cuide de ti. – respondeu-lhe.

Confusa, Aisha continuou:

– Mas ela é de papel. Vai estragar-se. Não tem um sorriso nem vida.

 

Danjuma veio ter comigo triste.

Disse-lhe para voltar atrás e explicar a Aisha o porquê daquela boneca, que assim ía entendê-lo.

Suspirou e voltou de novo para junto de Aisha. Tocou-lhe no ombro e disse:

– Aisha, assim sempre que te estragarem a boneca, podes fazer uma de novo. Ela não tem boca porque fala com o coração. Não és tu que dizes que a tua boneca te compreendia? Ela não precisa de boca. Precisa de um coração. Assim tu cuidas da tua boneca e ela faz-te companhia.

Abraçaram-se rindo. Rindo muito.

Derreteu-me a alma por inteiro aquela aula. Ainda existem corações cheios de luz. Essas atitudes ainda se sobrepõem àquelas que nos deparamos todos os dias cheias de mofo.

Tomara muitos terem a pieguice de desenhar uma boneca de papel que tivesse o poder de uma borracha, para apagar as fragilidades da vida.

Todas as crianças deviam ter uma boneca de papel. Porquê? Para lhes jogarem a tinta que a vida lhes propõe, e transformar-se em arco-íris.

Boneca de papel devia ser poema para criança que é poeta.

Falando em boneca de papel…amanhã ainda é terça-feira. Fico na esperança de receber mais corações cheios de pieguice até sexta-feira.

 

 

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