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“Ó badocha, se te chibas, já sabes o que te acontece!”

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Encosta-se à parede, num desejo inconsciente de se fundir com ela, de ficar invisível, num milagre de osmose desesperada de camaleão atabalhoado. Avança devagar, com o bater do coração a ressoar-lhe nos ouvidos em estereofónico alvoroço.

Dobra a última esquina e pára em frente da maldita porta, aflito para controlar a respiração e o medo. Pretende bater ao de leve, um toque suave dos nós dos dedos, quase inaudível, mas um barulho súbito ao fundo do corredor sobressalta-lhe o passo e fá-lo castigar a madeira da porta com o ímpeto dos nervos.

Todos se viram para o ver entrar: a professora olha-o com desagrado pelo atraso e queda-se, expectante, a aguardar uma explicação. Os colegas fitam-no, divertidos com o seu embaraço titubeante, as roupas desalinhadas, grandes círculos escuros debaixo das axilas e à volta do pescoço, os atacadores das sapatilhas soltos a arrastar no chão da sala, a mochila semi-aberta de rojo pelo chão.

Quer afastar de si todos os olhares, mas não sabe como fugir da maldita exposição que tanto temia. A gaguez trava-lhe fala, prolonga e confunde as explicações: desculpe, professora, tive de… ir a casa… porque… pronto… foi uma coisa… foi lá no balneário… pronto…

As gargalhadas dos colegas ecoam na sala e interrompem-lhe o discurso desconexo. O semblante da professora carrega-se de zanga e a impaciência aumenta proporcionalmente ao barulho dos risos. “Senta-te de uma vez! No fim da aula conversamos.”

Senta-se no lugar, o dorso enrolado como um bichinho de conta, o peso do mundo alapado nos ombros. Sente sobre si, como brasas incandescentes, os olhares maldosos deles. Largou na sua direcção uma olhadela medrosa e logo ali legitimou as razões do seu terror: lá estavam eles, displicentes, a fitá-lo, de expressão malévola e sorrisos velhacos a rasgar-lhe o rosto trocista. O Rúben, líder incontestado do grupo, levanta as sobrancelhas com sonsice e mostra-lhe, dissimuladamente, a navalha escondida no bolso do casaco.

O terror regressa-lhe ao peito em grandes golfadas e inunda-o como uma onda gigante a avançar sobre os incautos banhistas. Voltam-lhe à memória – ou talvez nunca tenham partido – os momentos de martírio que viveu há pouco: a espera que lhe fizeram, desta vez no balneário vazio, depois da aula de Educação Física; a humilhação de ser imobilizado por uns quantos velhacos, enquanto os restantes lhe arrancavam as roupas e a dignidade, de ficar desnudo e arrepiado de frio e vergonha no chão molhado da casa de banho, de sentir a lâmina gelada da navalha no rosto vermelho, ao mesmo tempo que a urina quente resvalava pelas pernas nuas e formava um pequeno lago de enxovalho em torno dos pés paralisados. “Ó badocha”, remorde o Rúben, a testa borbulhenta colada à sua franja empapada em suor, “se te chibas, já sabes o que te acontece!”

As gargalhadas deles, sonoras e acintosas, seguem-no pelos corredores, pelos caminhos desarvorados até à solidão do seu quarto. A vontade de gritar, de fugir da escola, de nunca mais voltar, de deixar de existir, calcada à força dentro de si, revolve-lhe as entranhas em guinadas agudas. Dói-lhe a barriga – ou será o peito? – e sente que não consegue ficar mais ali, naquela sala, a sentir sobre si a chacota dissimulada. Uma cólica mais rija ferra-lhe com força na carne e impele-o como uma mola. Levanta-se num ímpeto e sai da sala, perante as risotas à socapa e o olhar perplexo da professora. “Ora vejam só”, matuta ela – “um rapaz tão calminho… deu-lhe agora para se armar em rebelde.”

MC

Professora e autora do blogue Estendal

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