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Avaliação da Semana| Retenções, má autonomia, mau exemplo do professor do ano

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 O debate simplista sobre as retenções

Começou no Parlamento e propagou-se pelos media a discussão simplista entre o facilitismo de quem quer acabar com as retenções, porque serão sempre prejudiciais para os alunos, e quem aponta o efeito pernicioso de uma medida que permitirá aos alunos passarem de ano sem terem aprendido.

Lançar a discussão pública de um tema polémico diabolizando as retenções é o equivalente a começar uma casa pelo telhado. Pois a diminuição das retenções é há muito uma tendência do nosso sistema educativo. Ela é o resultado de um conjunto de políticas que conduz a mais e melhores aprendizagens. Ora quando o Governo exige melhores resultados mas não se mostra disposto a investir seriamente no sector da Educação, é evidente o que se pretende: cortes nos programas, simplificação das matérias e das aprendizagens e uma avaliação mais facilitista que permita obter melhores resultados.

Apresentar como sendo do interesse dos alunos a escola sem esforço e com sucesso garantido, alegre e divertida mas que a longo prazo só os prejudica, não passa, da parte do Governo, de mais um lamentável exercício de hipocrisia.

 A má autonomia

Entrevistado pela Lusa, o ministro da Educação tirou mais um coelho dessa cartola sem fundo que é a autonomia das escolas: anunciou que, futuramente, os directores poderiam gerir o tamanho das turmas de acordo com a realidade de cada escola. Uma notícia aparentemente boa, e que vem ao encontro de uma velha reivindicação de alguns dirigentes escolares.

Trata-se, no entanto, de um presente envenenado, pois as decisões que vierem a ser tomadas localmente serão sempre condicionadas pela autorização superior quanto ao número máximo de turmas a abrir. Mantendo-se os rácios actuais, em que turmas de 28 alunos são consideradas a normalidade, criar turmas reduzidas implicará formar outras com número de alunos superior ao regulamentar. Dentro da nova legalidade, e a coberto da autonomia, o ministro admite que algumas turmas poderão ser ainda maiores do que as que existem actualmente. Lamentável, mas infelizmente nada surpreendente. Há muito que a autonomia das escolas é usada, acima de tudo, para responsabilizar as escolas pela gestão da escassez de recursos imposta pelo ME.

O mau exemplo do professor do ano

Esteve mal Rui Correia, o professor escolhido pela Fundação Varkey como modelo de excelência dos professores portugueses, no Prós e Contras da RTP1. O debate era sobre a violência escolar. Mas o docente do ano, instado a falar sobre o tema, apenas pairou sobre ele, mostrando-se um professor superior que “nunca mandou um aluno para a rua” e que supera todos os problemas de indisciplina e violência escolar.

Pelo meio de um discurso construído em torno de si próprio e das suas realizações e êxitos pessoais, não encontrou oportunidade para condenar claramente os comportamentos agressivos e violentos de alunos e, cada vez mais, dos seus pais, contra os professores e o pessoal não docente das escolas. Nem foi capaz, sequer, de uma palavra de solidariedade e de compreensão com os seus colegas, alguns deles presentes na plateia, que testemunharam as agressões de que foram vítimas. Mas cumpriu o seu dever enquanto embaixador da fundação que lhe atribuiu o prémio de 30 mil euros.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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