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Aula De Cidadania Na Rua

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«Ontem, algures no nosso país, quando à noite alguns colegas nossos fecharam os olhos ensombrados pela insegurança e injustiça, alguma imagem pungente não os deixou dormir. Certamente, nunca se sentiram tão sós e desamparados. Não deveríamos permitir que isso acontecesse. Temos de lhes mostrar que não estão sós, que cento e cinquenta mil colegas estão com eles.

Não deveríamos continuar a deixar que nos batam até isto bater no fundo.

Diante de tanta surdez e indiferença dos nossos governantes e de uma população que apenas nos vê como cuidadores de crianças que estão disponíveis para lhes facilitar a vida providenciando a educação que não foi dada em casa, seria importante agirmos.

Os professores, naturalmente representados pelos sindicatos (a lei assim o impõe), deveriam organizar um dia de aulas em que a aula viesse para a rua (não a um sábado). Uma aula de cidadania sobre o civismo que falta na nossa sociedade.

Um dia em que todos os professores saíssem das escolas para exigir mais segurança e a devolução da autoridade que lhes foi retirada.

Um dia em que as escolas parassem e todos os seus profissionais, professores e auxiliares de educação, viessem para a rua exigir RESPEITO!

Se já lutámos por tantas coisas bem menos importantes para a nossa e dignidade profissional e qualidade de vida, por que não lutar por uma causa com tanto sentido? Este é o momento de dizermos BASTA!

Perante este alheamento coletivo para com a crescente violência física, psicológica e emocional sobre os professores, deveríamos dar corpo à “Marcha pelo Respeito”, local ou nacional, mostrando a todos que não somos saco de pancada para continuarmos a levar e ficarmos calados. Exibindo aos olhos de todos a mensagem inequívoca que exigimos que o professor seja protegido, acarinhado e respeitado, pela enorme importância que representa como farol da sociedade, não permitindo que continuemos a ser agredidos.

Bem sabemos que a tutela espera que esta onda de indignação se vá diluindo e se abafem estas situações de violência. A nós cabe-nos sermos diferentes de toda a gente. Não dizermos “Não quero saber, não é comigo”, pois hoje calha a um colega, amanhã poderemos ser nós. E a violência psicológica e a falta de respeito convivem diariamente connosco, pelo que urge fazer ouvir a nossa voz. Não podemos permitir que, perante tanta violência e insegurança, mais colegas continuem a ter de fugir para um lugar onde, longe de todos os olhares, possam sofrer em silêncio.

É preciso fazer sentir a esses colegas, aos agressores e a toda a população em geral que, quem bate num professor, bate em todos. Que não é admissível faltarem-nos ao respeito.

Esse seria um dia em que nenhum professor iria ficar em casa, pois a aula já não se destinaria apenas aos nossos alunos, seria para toda uma população; uma lição sobre este e outros valores que tanta falta fazem numa sociedade decadente que esconde sob a capa da indiferença e da passividade a sua incompetência e irresponsabilidade na educação dos seus filhos.»

 

Texto do colega Carlos Santos

(27-10-2019)

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1 COMENTÁRIO

  1. Nós não temos que tomar as ruas, esse folclore nós já fizemos, divertem-se, assistem e batem palmas. Nós temos que tomar as escolas. Por exemplo, não participar em reuniões intercalares em que pais, professores e alunos estão em pé de igualdade no uso da palavra, mas com enquadramentos legais diferentes, o que permite que estas reuniões se transformem num julgamento popular/sumário do professor em que o professor antecipa a ansiedade de nunca saber o que o espera, de não saber até que ponto o outro vai ultrapassar todas as barreiras da civilidade, da urbanidade e do bom senso, porque aos outros tudo lhes é compreendido, tudo lhes é permitido, em contrapartida o professor não pode falhar, tem de controlar-se, medir muito bem as palavras ou auto-censurar-se, subjugar-se e deixar-se desaparecer perante a insuficiência científica, pedagógica e moral dos outros, porque por mais cheio de razão que esteja, as pressões multidirecionais exercem-se todas sobre ele e não pode ser humano, não pode explodir, tem de ser um super-herói perante a inumanidade dos outros. Que ser perverso e distorcido moralmente pode ter concebido tamanho tipo de situação aviltante para um profissional e para um ser humano. Um exemplo apenas das muitas situações aviltantes a que pode ser sujeito um professor. A massificação do ensino também alastrou às tutelas, há um total branqueamento da razão pela qual se inventou a figura do diretor de turma, não foi para justificar faltas, foi exatamente para que o professor pudesse exercer as suas funções com serenidade, sem ser sujeito a nenhum tipo de pressões. A principal função do diretor de turma é gerir a relação entre alunos, professores e encarregados de educação. As reuniões intercalares atropelam esse princípio.

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