Início Escola Assistentes operacionais: salário mínimo em troca de uma facada?

Assistentes operacionais: salário mínimo em troca de uma facada?

1039
0

Fui diretor 6 anos de uma escola que não era fácil. Um dia, andava a circular na escola um conhecido pequeno traficante, que já tinha sido nosso aluno. Tive de, pessoalmente e com ajuda de outras pessoas (assistentes operacionais), o retirar do recinto escolar, o que me valeu uns quantos pontapés e ameaças sobre o meu futuro por parte do pequeno meliante (pequeno em categoria, que não em tamanho).

Quando fui apurar responsabilidades, consideravelmente irritado (e, quem me conhece, sabe como me transfiguro na minha face colérica), por não o terem barrado à porta, umas das então auxiliares (hoje assistentes operacionais) respondeu-me, muito calma, com graça e ironia certeira:

“mas acha que o salário mínimo, vale o risco de levar uma facada?”

E o risco da naifada era real e não meramente abstrato. Percebi o toque.

Realmente o desgaste, e até o risco, desses profissionais merece mais compensação. Muitas vezes, eles próprios caem nas armadilhas de pequenas lutas pontuais sobre coisas laterais (o horariozinho; a escalazinha de serviço, nas interrupções letivas, para dar algum descanso; a trica para trocar de local de trabalho, mudando para melhor, em prejuízo do colega, etc.). São condicionantes do quotidiano que, muitas vezes, prevalecem sobre questões mais profundas de solidariedade, dignidade salarial e valorização profissional.

Este ano o salário mínimo foi aumentado, o que é ótimo para quem o ganhava.

E os que já ganhavam pouco mais que o valor atual do salário mínimo e há 10 anos não têm aumento nenhum?

Se são assim tão essenciais, porque é que o seu trabalho vale para o “patrão” cada vez menos dinheiro ? (ganhar o mesmo, ano a ano, é ganhar menos, pelo menos, por causa da inflação).

Valorização implica esforço de quem dirige

Quem já geriu escolas, sabe como é complexo gerir essas relações laborais. É um grupo cheio de diversidade e que, com risco de desagradar a muitos diretores, se tem de afirmar que exige aos gestores muito mais formação (que genericamente existe pouco, até porque elevado número de diretores, eleitos e reeleitos com base na “experiência” de bons burocratas, nunca realmente estudaram para o ser e para alargar horizontes em relação à “escolinha”, onde lhes calhou serem dirigentes).

E saliento que os “cursos de aviário” ou “vão de escada” e os mestrados por reconhecimento de experiência não resolvem isso, mesmo se, quem dirige o sistema possa achar o contrário, e se deixe iludir (até porque “bons burocratas” são mais conformistas).

E tal exigência de mais formação a quem gere é tanto mais forte, quanto o grupo do pessoal não docente tem baixa escolaridade, em média (mas inclui contingentes com formação muito desigual, incluindo até licenciados) e sofre de precariedade e baixos salários. Gerir a insatisfação e o desânimo é sempre difícil, especialmente para quem acredite em teorias de gestão mitológicas, falsas mas populares, como a “motivação” ou “a unidade para vestir a camisola”.

Em muitas escolas, a oferta de soluções para os problemas, por parte dos órgãos de gestão, limita-se a lógicas de compadrio e de quase feudalismo de vassalagem (aliás, a relação entre a durabilidade de alguns diretores, em mandatos sucessivos, e a forma como gerem estas relações laborais, merecia ser estudada e o retrato entrevê-se pouco abonatório).

Assistentes operacionais: a primeira linha de ação e resposta aos alunos

Mas estes profissionais são essenciais. Num tempo em que se fala tanto de indisciplina e bullying e outras formas de violência, eles são a primeira linha nesses combates. Muitas vezes são os que os alunos procuram primeiro, sendo os primeiros a conhecer a sua raiva, desilusão, tristeza ou depressão.

Mal pagos, têm, muitas vezes, de confiar apenas no instinto natural para resolver e ouvir os alunos, até pela falta de esforço público em dar-lhes formação (e um dos motivos parece ser a vontade, não assumida, pois claro, de manter as lógicas de subordinação e de dominação de que são vítimas).

Podia contar-vos a história da senhora, a quem se propôs formação, que ela queria fazer. Tinha problemas em aceitar o horário e, só à terceira conversa, confessou que era porque o marido não a deixava sair à noite, ou, a outra, que queria trocar de horário porque o “seu menino” precisava que ela lhe fizesse a sandes para comer ao jantar e ir trabalhar. Imaginem a surpresa quando se apurou que o menino era um marmanjão, antigo aluno nosso, com 17 anos, mas que parasitava a mãe e não tinha habilidade para abrir um pão e meter lá dentro alguma coisa comestível.

Parece uma imagem miserabilista e a realidade é que existem histórias de vida tocantes de comoventes entre estas pessoas de biografia dura.

O poder que subordina e a injustiça salarial

Um dos momentos mais marcantes da minha experiência profissional e de aumento do meu conhecimento do que é estrutural numa escola foi obtido junto de um grupo destes profissionais a quem dei formação há 15 anos (na verdade destas, porque o grupo eram só mulheres).

O que fiquei a saber sobre redes informais de poder nas escolas, sobre o que os “outros” pensam dos professores e qual a imagem e ações que valorizam nos professores e o que criticam, foi-me muito útil. Valeu-me para perceber que a visão de professores sobre a escola é realmente limitada e pouco abrangente de todas as subtilezas do que se passa.

Nas eleições para os órgãos das escolas fala-se muito em “corpos eleitorais”. Portugal, felizmente, não teve um corporativismo pleno como se tentou na Itália Fascista, mas somos um povo muito corporativo na sua prática política e de administração. Daí esta obsessão com a representação dos corpos (que está bem distante de uma democracia plena).

No caso das escolas, esse corporativismo que, no caso dos professores, por vezes encerra um lado elitista (em que os professores agem como suposta elite), faz com que o contributo dos assistentes operacionais não seja realmente valorizado, sejam pouco ouvidos, pouco considerados e até desrespeitados (por exemplo, por alunos, à vista de professores, que, tantas vezes, se abstêm de ajudar).

Isto, apesar de tantos discursos a proclamar gongoricamente a sua importância, numa contradição que deve chocar e desanimar, quem é tão mal pago e, há quase uma década, com salários congelados, perdeu o direito a uma ideia de carreira e progresso na profissão.

Este ano o salário mínimo foi aumentado, o que é ótimo para quem o ganhava.

E os que já ganhavam pouco mais que o valor atual do salário mínimo e há 10 anos não têm aumento nenhum?

Se são assim tão essenciais, porque é que o seu trabalho vale para o patrão cada vez menos dinheiro ?

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here