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Às turras com a autoridade.

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Há pouco tempo falava com um amigo que se queixava do mau comportamento dos jovens hoje em dia (descoberta da pólvora) e que afirmava, convictamente, que íamos de mal a pior e não sabia onde iríamos parar (discurso típico em jeito de desabafo, redondo, sem solução). Ao longo da conversa disse-lhe várias vezes que sinto estarmos num ponto de viragem, no início de um próximo ciclo, fruto da exaustão, de muitas teorias falhadas sobre liberdade, da possibilidade de escolha desde cedo sem antes terem sido educados para essa liberdade.

Uma amiga, quando falávamos sobre o poder de escolha dos filhos, dizia-me. “Sim, elas podem escolher, mas eu condiciono dando sempre duas opções de escolha” e reforçava dizendo. “Numa argumentação elas às vezes têm de ganhar para promoverem a auto estima, mas noutras vezes perdem porque também as ajuda a lidar com a frustração. E em última instância pais são pais e soberanos”. Não podia estar mais de acordo com estas afirmações nem deixar de pensar que se muitos pais pensassem assim, talvez, muitos problemas de indisciplina podiam ser minimizados (não afirmo, apenas reflito).

Na entrevista (link abaixo), traduzida para Português do Brasil, o que perde um pouco de genuinidade mas ainda assim possível de retirar a ideia principal, a Ex – assessora de Educação do governo sueco manifesta um ponto de vista que não segue uma linha atual, mas sim uma linha que muitos de nós apelidaria de antiga, outros de radical e por fim fascista. Verbaliza expressões como: “As crianças têm que desenvolver hábitos sistemáticos de trabalho e para isso necessitam que um adulto as oriente. Aprender requer esforço e, quando se deixa os alunos escolherem, simplesmente não acontece.” E O mais simples é pensar em um músico de jazz. Parece que está improvisando, brincando. Como pode fazer isso? Sabe 500 melodias de memória e usa pedaços dessas peças de forma elegante. Repetiu isso tantas vezes que parece que o faz sem esforço. A teoria é necessária para que surja a criatividade”

Pois eu não sou fascista, muito menos radical e abomino fundamentalismos e no entanto considero existir um fundo de muita verdade no seu discurso. A relação com a autoridade tem de ser reforçada. Não falo de uma autoridade pela força, pela agressividade, daquela que humilha, não. Falo de uma figura de autoridade (que podemos chamar referência) um líder, que valorize os sucessos ou chame a atenção para o erro sempre que necessário, criando espaço para ouvir, mas que desenvolva e defina assertivamente os limites. Sei que vivemos na sociedade do politicamente correto, mas o discurso é mesmo este, sem limites não há educação. A liberdade tem limites e tem de ser aprendida.

Em casa, independentemente do que possamos fazer ou dizer ,os pais são soberanos quer optem por uma educação mais rígida, ou mais laissez faire. Desde que juridicamente enquadrados e sem passarem limites definidos, há lugar para tudo. Mas também temos consciência dos actos perlocutórios de cada forma de educação.

Recordo muitos pais e até professores que ficam deslumbrados por determinados métodos de ensino/aprendizagem como Freinet, Montessori, Movimento da Escola Moderna (MEM). Considero métodos muito válidos que podem trazer óptimos resultados e que embora possa não parecer, devem ser, num pano de fundo, altamente rigorosos. O problema destes métodos e do sucesso da sua aplicação prende-se, no entanto, com diversos fatores: Na altura em que foram desenvolvidos a sociedade, as crianças eram diferentes, diferentes educações, diferentes modos de vida. Transpor ipsis verbis uma ideologia como um encaixe num bloco de madeira nunca funcionou, nem funcionará. Os tempos são outros, as crianças são outras. E os métodos servem como instrumentos que devem ser flexíveis, sempre flexíveis.

Devolver a autoridade é também isto: Saber quem são os nossos alunos, saber o que pode resultar, mas nunca deixar cair por terra limites, educação e trabalho.

 

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/10/economia/1499687476_336740.html

 

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