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As orientações que desorientam

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Tinha prometido a mim própria manter o silêncio, porque imaginava esta fase de ruído com as “orientações” para a mudança no nosso Sistema de Ensino. Primeiro pela falta de ligação entre as medidas, pela ausência de uma lógica, de um fio condutor que leve a que, quem tem responsabilidades as possa exercer com coerência e sequência; depois, a ausência de obrigatoriedade de adoção das mesmas torna o continuar com a situação anterior muito mais cómodo, dada a época tardia em que chegam às escolas; por último, por não querer fazer eu mais ruído, ou dizer algo pouco acertado, pois estou ausente da Escola há quase dois anos, por motivos alheios à minha vontade e ao meu controlo.

Entretanto, tenho vindo a ler muitos comentários sobre a «autonomia e flexibilidade curricular» (só para as escolas que aderirem e para as turmas que nelas aderirem, do 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos, que serão acompanhadas por equipas técnicas regionais das DGEstE) com a criação de novas disciplinas a serem lecionadas no tempo da Oferta Complementar, bem como a oferta a todos os alunos da componente do currículo “Cidadania e Desenvolvimento.”

Temos, portanto, um Projeto que será a implementar pelos mais afoitos que gostam de desafios, que não se importam de fundir disciplinas formando um só bloco, combina-las parcial ou totalmente, alternar períodos diferentes de funcionamento disciplinar ao longo do ano letivo, desdobrar turmas, colaborar multidisciplinarmente, realizar trabalho prático e experimental, monitorizar todas as ‘inovações’, realizar um Projeto Curricular de Turma e alterar o Projeto Educativo… …

Antes de tudo, é necessário escolher a ‘nova componente do currículo’ para se dar início ao trabalho. E aí, começam as minhas costumeiras questões:

– O corpo docente está colocado nas escolas? Quem irá lecionar as turmas de 1.º ano? (referindo-me apenas ao 1.º ciclo).

– Quando se irão discutir opções, realizar reuniões, acordar estratégias? Em julho ou agosto?

– Com o começo do ano letivo entre 8 e 13 de setembro, o apoio das equipas técnicas será iniciado em…?

– O corpo docente, envelhecido e farto, das escolas do 1.º ciclo estará disposto a apostar em experiências nunca testadas neste nível de ensino?

– Os pais concordarão com tal mudança, se nem os professores lhes souberem explicar, no início do ano letivo, do que realmente se trata?

 

Passando ao intervalo no 1.º Ciclo, como componente letiva- sempre assim foi até 2012. Ao fazer o Horário, o intervalo contabilizava-se como tempo letivo da disciplina imediatamente anterior.

Imaginemos:

 

2.ª feira 3.ª feira 4.ª feira
9:00 às 10:00 Português Matemática Estudo do Meio
10:00 às 10:20 INTERVALO

No caso, o intervalo de 20 minutos era contabilizado como tempo letivo da disciplina de Português (2.ª feira), Matemática (3.ª feira) e Estudo do Meio (4.ª feira). Assim como o seriam 10 ou 30 minutos, consoante a opção de duração e número de intervalos diários, por parte da Escola.

A obrigatoriedade do fecho da Escola às 17:30 horas será talvez uma questão de somenos, quando as famílias perceberem que as crianças ficarão “a brincar.” Os professores titulares de turma, sendo supervisores e responsáveis pelas AEC, têm um papel fundamental na consciencialização dos pais para a necessidade de as crianças saírem do espaço escolar, dormirem, brincarem, estarem em família… sobretudo nas comunidades rurais, onde muitas vezes é possível que assim seja. Em alternativa, e preferencialmente, as AEC deverão ser geridas e supervisionadas pelas autarquias no âmbito da Componente de Apoio à Família. Foi desde sempre do que se tratou- Apoio à Família. Convém saber, que quem programava as atividades e quem era responsável por elas, avaliando inclusivamente os professores que as lecionavam (as AEC) eram os titulares de turma. Não nos admiremos, pois, que a Expressão Musical e a Expressão Física lhes fosse entregue, porque quase todos têm mais preparação nessas áreas do que o professor da turma. Por mim falo.

 Aos meus colegas do 1.º ciclo, aconselho: se vos surgir a hipótese de alongar o tempo de almoço para duas horas, com a finalidade de compensar a meia hora de recreio, saibam que o período da tarde se transformará num verdadeiro inferno para alunos e professores, sem qualquer rentabilidade. Esta é a minha experiência de dois anos.
As crianças comem em 15/20 minutos. Supondo, por excesso, que demoram meia-hora, ficam 90 minutos entregues a si próprias e às assistentes que, por mais cuidadosas que sejam, não as fazem estar paradas. Nem o devem fazer. Uma hora e meia de corridas, lutas, zangas, choro, quedas, conflitos… Em dias de chuva, sem o espaço exterior, a situação complica-se. Chegam à sala de aula, agastadas, a discutir, transpiradas, esfomeadas… (Professora, quando é a hora do lanche? Deixa-nos beber agora o leite! Podemos comer fruta?) Para as acalmar e criar um ambiente de trabalho, demora. A seguir, vem o sono, as dores de cabeça… e a hora de saída.

A Professora do 1.º Ciclo, Fátima Ventura Brás

2 COMENTÁRIOS

  1. …isso tudo que refere deve estar a afetar, e muito, os lobbies desses grupos de lecionação. E nem foi preciso chamar o sr. crato!

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