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As estratégias dos alunos

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Antes de me estender na escrita dou conta de algumas limitações e dos cuidados a ter na leitura e, em particular, na interpretação deste meu texto. A questão passa pela identificação de novas/outras estratégias pelos alunos, dos modos que adoptam na sua relação com a escola, com os professores, com os colegas e, muito particularmente, com o trabalho escolar.

Preciso de salvaguardar que a escrita tem por base aquelas que são ou têm sido as minhas turmas. Estas estão presas a um dado território, marcado por uma história e uma cultura que, se não determina modos específicos de ação (coletiva e individual) não deixa de, pelo menos, exercer significativa influência nesse processo. Por isso, salvaguardo alguma cautela no sentido que qualquer generalização pode ser abusiva ou destituída de sentido.

Tenho dado conta da alteração de como os modos e as formas de relação do aluno com a sala de aula, com o professor, com os colegas e, muito particularmente com o trabalho em sala de aula, disciplinar têm ocorrido.

A alteração decorre em muito de diferentes situações. Pode (destaco este pode) decorrer de pais mais instruídos e formados, da acessibilidade a fontes de informação e a redes de partilha que são também de informação e de algum conhecimento. A escola deixou de ser um espaço sacrossanto do saber e das regras (se é que alguma vez o foi). De igual modo, deixou de ser um local privilegiado de cultura e conhecimento. Hoje há inúmeros elementos a concorrer com a escola. No campo das regras, as hierarquias esbateram-se e as relações tendem a ganhar dimensões mais horizontais. A escola já foi o único espaço de mobilidade social, a quase única hipótese de nos retirar de determinismo sociais ou económicos. Hoje, assume-se como uma das suas condições mas não necessariamente suficiente. Era na escola que muitos tinham os primeiros contactos com a cultura, com os dispositivos tecnológicos que surgiam, com a moda. Hoje muitos dão por adquirido que a tecnologia é um requisito do quotidiano e que é na escola que existem as suas piores condições de utilização – largura de banda, intermitências, desajustamentos.

No meio disto tudo, o aluno ganha desinteresse, alheia-se de dinâmicas ou do que quer que seja que se relacione com a sala de aula – a escola é porreira, as aulas é que são uma seca. As notas ressentem-se, os comportamentos alteram-se. Contudo, os processos de recuperação surtem efeito. Seja por efeito da ação docente, de “planos de recuperação”, seja porque simplesmente o aluno reage às circunstâncias e sabe geri-las de um outro modo, com outros interesses.

Mesmos os comportamentos, não são indisciplinados, são truculentos. Isto é, exigem constante atenção, por vezes repreensão. É o tá calado, vira prá frente, abre o caderno, regista os apontamentos do quadro. Os comportamentos exigem uma outra negociação com os professores, requerem outras estratégias de relação e de relacionamento.

Não foi sempre assim. Não é apenas por uma questão de (im)paciência. Resulta também e em muito, da alteração dos modos de relacionamento do aluno com a escola, com os professores, com o trabalho em sala de aula.

Ando há tanto tempo a dizer e a escrever que as coisas (na educação em geral, na escola em particular) estão a mudar que, se calhar, já mudaram e eu é que ainda não dei conta.

Manuel Dinis P: Cabeça

Coisas das aulas

06 de fevereiro, 2017

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