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As Crianças Castanhas

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Entre todas as experiências com os seres pequeninos, mas gigantes, continuo a achar que a que me deu mais prazer, foi quando estive lá na terra que se diz minha, mas não me pertence.

Naquele amor africano que voltou comigo, mas onde meu coração ficou. Fica andando aqui e acolá como um elástico, atirando memórias e sentimentos de um lado para o outro.

Recordo cada criança que passou pela minha sala, cada abraço madrugado, cada rosto que carregava uma história.

A simplicidade do brincar com a imaginação, onde no nosso mundo tudo se tem e de tudo se queixa. Aqui, as crianças correm descalças na terra. Correm atrás de pneus que deslizam fazendo-se passar por carros, as pedras viram balizas, as meninas fazem trancinhas umas às outras e sobem árvores.

Apaixonei-me à primeira. Noiva já eu estava pela educação, pelas crianças, por fazer aquilo que sempre quis. Mas acabei casando com a simplicidade destas. O calor que elas me transmitiam, a magia de uma cultura tão diferente daquela que eu sempre vivi.

Esses três meses, tornaram-me em parte aquilo que sou hoje. Junto pedaços de papel rasgado e faço uma nova página escrita de experiência que não é assim tão antiga. É tão presente, e espero que seja futuro. Uma aprendizagem enriquecedora que não se aprende nos livros, mas sim nas viagens.

Às vezes fecho os olhos e lá vou eu no primeiro avião, regresso às origens, e lá estão as crianças esperando por mim com as perguntas mais criativas que se pode imaginar, contando momentos do seu fim-de-semana, se queixando dos irmãos, da mãe ou do pai.

Nos dias que ando à deriva, vou buscar nestes momentos a minha rota de novo. É na simplicidade dos momentos que ficam fotografados na memória e coração, no pôr-do-sol de África, que aqueço a minha alma e ardem os meus problemas que não são problemas. Vivemos como se tudo fosse jogo de xadrez, quando há tanto mal maior, que um jogo onde perder é experiência e ganhar é um orgulho.

Os castanhos da minha sala não eram muito adeptos de leituras não. Encantavam-se mais pela vivacidade das coisas. Gostavam de ter a atenção redobrada, de um abraço, de um sorriso. Apaixonados pela dança, pelo canto, pela representação, pelo desporto. Às vezes é preciso dar mais bagagem de experiência às crianças do que cheiro de letras e sabor de números. Crianças que têm as melhores notas, não é sinónimo de melhor pessoa. O ser pessoa é que falta muito neste mundo. Ser-se pessoa. Ser turista de verdade, saltar na terra, descalços como estes meus meninos castanhos. Ver um pôr-do-sol, oferecer uma camisola de entre muitas guardadas no armário, a quem veste a mesma cinco vezes por semana.

Um dia quando tiver filhos, não me preocupa se a profissão será cantor ou doutor. Não! Quero que sejam pessoas de verdade, independentemente do título que carregam ás costas. Quero que distribuam amor por inteiro, que tenham a consciência que o muito deles é o pouco de outros. Que se demorem a viajar, que a bagagem da vida seja a leitura a ensinar ao próximo. Que sejam felizes sem depositar infelicidade na vida dos outros. Que espalhem energia positiva, onde dela há falta. Que não deixem de ser quem são, por medo do estereótipo que a sociedade impõe. Que enquanto forem crianças, sejam mais crianças ainda. Que o coração siga mais cheio do que o pensamento. Que abracem as diferenças e aceitem-nas como igualdades. Que aprendam com os bisavós que é preciso arranjar as adversidades da vida em vez de as deitar fora. Que não acelerem o relógio e vivam cada segundo com a intensidade que ele merece. Que encontrem sempre o delinear positivo, no rabisco feito a lápis negativo. Que agradeçam sempre, tanto ao bem como ao mal. Mas isso sou eu que os imagino assim: dóceis, nus e simples. Viajantes de alma e coração, onde se aprende a dar valor à vida e aos pioneiros dela que nos rodeiam.

Que um dia, vejam como eu vi o melhor nascer do sol do mundo que só existe em África, mesmo que eu ainda não tenha conhecido meio mundo. Continua a ser o melhor para mim. Que se abracem no pôr-do-sol africano. Que guardem essa memória para a eternidade e que a depositem numa conta bancárias para os seus descendentes.

Compilação: Os filhos do coração

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