Início Editorial Artigo Semanal – Tem _______ para ser professor? Faça o teste.

Artigo Semanal – Tem _______ para ser professor? Faça o teste.

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parque infantilCoragem… capacidade… vontade… paciência… eis algumas das palavras que podiam completar a frase. Se pensaram noutras fica à vossa inteira responsabilidade… 😉

Durante as interrupções escolares, ou até mesmo nos fins de semana, é frequente levarmos os nossos filhos aos parques infantis. Numa próxima oportunidade, proponho-vos que em vez de ficarem a jogar “candy crush” ou a pensar no episódio da novela, façam um simples teste de introspeção.

Nota: no parque têm de estar umas 20, 25 crianças para validar o exercício.

Agora observem…

Naquela confusão, vão constatar que existem diferentes personalidades, diferentes situações e diferentes reações. Tudo a acontecer ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Um forrobodó infantil!

Após alguns minutos de observação vão ter o vislumbre do que é estar à frente de uma turma…

Não acreditam? Então reparem…

Haverá um líder, daqueles que alguns meninos vão querer seguir e imitar, aquele que decide as brincadeiras e que dá as ordens. Consequentemente haverá os que irão atrás, com o intuito de agradá-lo, de modo a justificarem a sua presença no grupo de elite. Se olharem para um canto, vão verificar que estará a criança que não dá nas vistas, que prefere brincar sozinha e fugir da confusão. Com um bocadinho de “sorte”, poderão até assistir a alguma provocação/critica do grupo de elite para com ela, só porque é diferente dos outros, num exercício de afirmação social.

Continuando com a vossa observação, irão verificar que existem alguns meninos que só fazem disparates, dão encontrões uns aos outros, pisam, empurram, “brincam” como se o parque fosse só deles, ignorando as regras básicas de convivência. Por sua vez, haverá aqueles que terão dificuldades em ultrapassar os obstáculos, ou porque ainda não têm a maturidade/tamanho suficiente ou porque ainda não dominam as técnicas necessárias. Mas não fica por aqui, se repararem haverá também quem seja solidário e altruísta, que prefira ajudar os outros em vez de brincar.

Depois surgirá a “estrela”, aquele que se destaca dos outros, que apresenta capacidades acima da média, que ultrapassa os obstáculos como se nada fosse. Por fim vão assistir à criança que faz tudo o que quer, que mesmo advertida pelos pais, continua a fazer o que quer, ignorando as brincadeiras dos outros. Aliás, a advertência até lhe dá “pica”, faz-lhe aumentar a adrenalina e na sua visão torna tudo mais interessante. Haverá de tudo naquele parque, tal como uma sala de aula…

E os pais? Observe também os pais… Tal como as crianças vai verificar diferentes reações. Uns superprotetores, palpitando com cada passo da sua criança, imaginando os cenários mais catastróficos, num “ai, ai, ai” constante, contando os segundos para finalmente tirarem de lá o seu bem mais precioso. Outros simplesmente estão-se a borrifar para o que os filhos estão a fazer, estes são normalmente os pais daqueles que causam os problemas, que fazem tudo o que lhes apetece sem que os seus responsáveis assumam a inerência da própria palavra. Haverá também quem deixe as crianças à sua sorte, usufruindo do tempo livre para migrar para o mundo dos adultos. Também irá constatar que existem pais, que deixam os seus filhos experienciarem diferentes situações, numa postura vigilante mas prontos a intervir caso a sua segurança esteja em risco. Por fim, haverá aqueles que não ficam calados, que mostram a sua indignação perante as situações de risco que vêm à sua frente, criticando crianças pelas suas atitudes e pais pela sua passividade.

Nas reuniões com os encarregados de educação, também os professores lidam com diferentes reações dos pais e ouve-se com alguma frequência a expressão “com pais assim, muito bom é o filho(a)”. É um desafio que implica muito bom senso da parte do professor, pois os cenários possíveis são vários e podem mudar rapidamente.

Agora imaginem juntar todas aquelas crianças numa sala de aula. Sentá-las, dar-lhes tarefas, ajudando-as a executá-las durante as próximas horas. Acham que vai correr tudo bem? Que por estarem numa escola, dentro de uma sala de aula, à frente de um adulto, que as suas personalidades vão como que por magia homogeneizar-se, acatando tudo o que vocês lhe dizem? Se acham que sim, então é porque não fazem a mínima ideia do que é estar numa sala de aula. Se acham que não, é porque têm alguma noção das dificuldades que terão pela frente.

Agora imaginem o que é lidar com isto todos os dias….

Então porque o fazemos? Porque acordamos todos os dias e vamos para aquelas salas? Porque não optámos por outra profissão? Será uma obsessão? Algum tipo de crença religiosa? Um desejo masoquista primário?

Não…

Mesmo sabendo das dificuldades que vamos encontrar e tendo consciência da desvalorização económica e social da profissão, mesmo percorrendo quilómetros e quilómetros (e nós não temos aquelas coisas chiques de despesas de deslocação), deixando mulher, marido, pais, filhos e amigos para trás, alugando habitações (quartos) de qualidade duvidosa, fazendo as delicias de senhorios sanguessuga e da economia paralela, trabalhando horas e horas, muitas delas na calada da noite, já quando os nossos filhos foram dormir. Mesmo sabendo tudo isso… não há nada mais compensador que ver os nossos alunos subir os degraus do conhecimento. Sentir com eles a satisfação de ultrapassar a adversidade, de vibrar com o seu sucesso, de ouvi-los dizer “Consegui! Consegui!” e ter aquela sensação que foste tu que o levaste até lá. Sentir aquele abraço, ouvir aquele obrigado, saber que graças a ti eles adquiriram as ferramentas para construir o seu sucesso. A gratidão é um sentimento poderoso e apesar de não curar a doença, sempre dá para anestesiá-la um pouco.

Essa é a satisfação suprema para o professor, é o clique que precisamos para que do caos surja o equilíbrio e para que no próximo ano letivo façamos tudo novamente…

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